Para Juca. Foi um rio que passou na minha vida... A cidade de Valência, na Espanha, era atravessada pelo rio Turia, que transbordou e ca...

Águas de Valência

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino

Para Juca.
Foi um rio que passou na minha vida...

A cidade de Valência, na Espanha, era atravessada pelo rio Turia, que transbordou e causou uma inundação histórica nos idos dos anos 50. Após o desastre, o rio foi desviado e o seu leito transformado em um grande parque. Em suas águas, portanto, ninguém pode mais se banhar duas vezes. Porém, nas trilhas que ele deu origem é possível andar, a pé ou de bike, em estado de correria ou de contemplação. Escolhi a segunda opção.


Sítios históricos. Avenidas largas. Igrejas centenárias. Mercado repleto de guloseimas mediterrâneas. Tudo em contraste com a Cidade das Artes e das Ciências – arrojo, arquitetura e arte. Valência, cidade com tradição milenar e diversas atrações: La Lonja de la Seda (construção gótica, monumento histórico artístico nacional e patrimônio da Humanidade da Unesco); Plaza de Ayuntamiento; El Miguelette; Torre de Serranos, dividindo a cidade entre o sítio futurista e o tempo passado, tudo em harmonia e respeito.

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino
Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino

A convivência entre a parte antiga e a moderna tem seu charme em proporções estonteantes, o que faz de Valência a cidade dos contrastes. Na parte moderna, cada vez que passava pelo Oceanário, com forte cheio de sargaço e meio zonza dos tubos, túneis e engenharias, observei peixinhos coloridos, orcas, pinguins e tubarões, passeando por cima da minha cabeça). O Museu das Ciências Príncipe Felipe tem forma de espinhas. A Casa-Ópera tem forma de olho. São tantas e tantas outras formas gigantes, projetadas e representadas pela arquitetura de Santiago Calatrava, engenharia lunática e desafiadora do homem, que o meu olhar ficou em êxtase, marejados com os sentimentos de surpresa, silêncio e reverência.

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino

Na mesa valenciana: alcachofras; pão com tomates maduros fritos; chouriços; ovos, ovos e mitos ovos; águas de Valência; horchata (bebida leitosa feita de um tubérculo); gaspacho (sopa fria com ervas deliciosas); sangria, mojito, montaditos; frutas secas; queijos; pixton; paella valenciana; arroz negro e cavas; presunto – Ibérico, Serrano...

Experimentei a cidade belíssima em companhia de Julio Rafael, então superintendente do Sebrae, quando da participação no curso "Métodos e instrumentos para o planejamento integrado sob a visão do desenvolvimento sustentável", em julho 2012. O evento marcou o início do diálogo e do intercâmbio entre e o Sebrae e a Universidade de Valência, representada por Joan Nogueira Tur, diretor do Instituto Interuniversitário de Desenvolvimento Local.

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino
As duas instituições inauguraram uma empreitada grandiosa de troca de saber e de fazer, voltada à qualificação do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas para uma nova política de desenvolvimento no estado da Paraíba.

Sendo também convidada a participar do curso, utilizei os intervalos para ser turista acidental solitária e participar de atividades culturais, em que tive a alegria de reencontrar Betânia Leite Ramalho (uma amiga de infância das Lourdinas), então secretária de educação de Natal, e Maria Eulina Carvalho, colega também de infância e professora pós-doutora da UFPB. Em um dos passeios, visitei Gandia, cidade próxima à Valência, com suas praias banhadas pelas águas cor de anil do Mediterrâneo.

O encerramento do curso ocorreu num edifício restaurado da universidade antiga de Valência, com homenagens ao trabalho desenvolvido pelo coordenador do projeto, Julio Rafael. A cerimônia foi abrilhantada com um concerto – Coro de Mujeres A Cau d'Orella –, conduzido por Mònica Perales i Massana. Naquele momento, diante da beleza de uma igreja secular, onde os anjos disseram amém por tantos séculos, pudemos desfrutar do som angelical da Harpa de Úrsula Segarra e da força do canto feminino. Seguiu-se, então, um coquetel com caviar, montaditos especiais e iguarias. Cavas e outros vinhos fizeram a parte lúdica, em meio a diplomas, discursos e goodbyes. No largo lá fora, o verão europeu fervia com sua brisa fresca dos longos dias (anoitecia às 23 horas), o que deixava o tempo com uma outra dinâmica.


Aliás, o tempo de viagem é outro mistério. O tempo do sonho. O tempo em suspensão. Fuso horário de 5 horas à frente, levamos um tempo para nos adiantarmos, para depois, nos atrasarmos novamente. E como não somos relógios, nem ponteiros, nem sinos (que badalavam a cada hora... quem sabe por mim dobravam!), experimentamos do sono, da siesta e de um pouco de "des-locamento" espacial e temporal. "Des-orientação" essa que também se dava pelo fato de a luz do sol esticar-se noite adentro. Aqui nos trópicos nós temos o tempo tão bem delineado, e a duração do dia, das 6 às 6, faz com que o nosso lusco-fusco nos oriente ao anúncio da noite. Lá, sem essa luz-guia-solar, nos confundia dia-noite-dia, e claro, ficávamos perplexos, "des-orientados" por tempos e tempos, viajando literalmente no calor das horas.

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino
Durante a estada em Valência, visitamos o Parque Natural de la Albufera, com sua paisagem emblemática de grande valor econômico e ambiental. Lugar de córregos, riachos, arrozais, entrepostos, lagos, pântanos, e alagados. Num barco grande, lá íamos nós, conduzidos por um Ishmael Valenciano, que tinha no seu cão de guarda, um cachorro muy simpático e inteligente, com a missão de latir, rosnar, rodear a embarcação e se alvoroçar quando parávamos. No horizonte o sol se punha em tons magenta e uma brisa fresca nos arrepiava. Quando dei por mim, estava no meio de um lago gigante, cuja travessia demoraria uma hora, e o relógio marcava 10 da noite. Eu, com minha síndrome Titanic, meus pânicos de água, de barco e de travessia, enrosquei-me na echarpe e finquei o olhar n'A Outra Margem do Rio', esperando que o conto que tem esse nome e seu autor me distraíssem com a luz fúcsia da penumbra, sonhando com aquilo nos aguardava do lado de lá.

Ufa! Quando enfim “estacionamos” vi um lugarejo campestre e longínquo, com pescadores sentados em volta da praça a jogar baralho, vozes cortando o silêncio da noite, que já alta nos guiava. "El Saler", um restaurante lindo e típico, nos acolheu em noite de gala.

E por entre azulejos e simpatias nos acomodamos, para logo depois começar um desfile de iguarias: bacalhau, mexilhões gigantes e saborosos, azeitonas temperadas, pães deliciosos, anchovas, e enguias ensopadas, que eu passei, claro. Barco é barco, enguia é enguia (é cobra! Do mar, é verdade, mas cobra!). Jamais esquecerei do filme "O Tambor" (1979), adaptação do livro homônimo de Guther Grass, no qual, numa cena de arrepiar, alguém comia enguias inteiras e vivas! Quem teve a audácia de se arvorar na delícia garantiu que valeu a pena. Deixa estar!

Ambiente de leitura carlos romero literatura paraibana ana adelaide peixoto tavares santiago calatrava valencia viagem turismo espanha gastronomia julio rafael jardelino
Fomos ao primeiro andar do restaurante-casa, para ver seu dono a maestrar três panelas gigantes de paellas: uma valenciana legítima (com os sabores do frango e do coelho); uma de frutos do mar; a terceira de arroz negro. Tudo em ritual: hora de mexer; de por o açafrão; de pingar; de tirar; de soltar e de servir. Confesso que mergulhei inadvertidamente nas três. Quando se trata de experimentar coisas e comidas, sou selvagem! E entre um gole de vinho, uma garfada do arroz que tinha acabado de ver na água e os cheiros de peixes e pescados variados, brindamos a tudo. Olé!

Ao fim de tantas coisas, sabores, cores e aprendizados, era chegada a hora das despedidas. Todos se foram, e eu, andarilha sempre querendo mais, botei a Plaza de La Reina no bolso e me danei num trem-bala para Madri, onde, por 6 dias, me perdi e me achei, completamente solitária, por entre a História madrilenha, manifestações políticas contra o El Gobierno, mais sangrias, mais artes nos museus, mais paellas, dança flamenca e mais tempo suspenso. Assuntos para um próximo texto.

Olé!


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE

leia também