Em 1997, foi inaugurado, em Campina Grande, o Museu Vivo da Ciência e Tecnologia . Em uma das conferências realizadas quando da abertura d...

O grande cientista que a Paraíba esqueceu

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Em 1997, foi inaugurado, em Campina Grande, o Museu Vivo da Ciência e Tecnologia. Em uma das conferências realizadas quando da abertura do espaço, um renomado pesquisador do Instituto Butantan, de São Paulo, discorria sobre as consequências da extinção de algumas espécies para o ecossistema da Caatinga. Na explanação sobre os aracnídeos, citou o cientista brasileiro Mello Leitão, reputando-o como um dos nomes mais importantes nessa área em todo o mundo.

Na ocasião, um dos presentes à conferência abordou o palestrante informando-o de que o cientista que ele tanto reverenciava nascera em Campina Grande. O esclarecimento foi motivo de surpresa para o conferencista, que imaginava que Mello Leitão fosse capixaba,
considerando que, no estado do Espírito Santo, há um conceituado museu científico que tem o nome do cientista.

Mas, afinal, quem foi Mello Leitão, rememorado naquela palestra?

Cândido Firmino de Mello Leitão Junior nasceu no mês de junho de 1886, em uma fazenda do município de Campina Grande, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os no Recife e no Rio de Janeiro. Em 1908, concluiu, com distinção, o curso de medicina na Faculdade Nacional de Medicina, tornando-se, em seguida, professor da instituição. Exerceu o magistério na antiga Escola Superior de Agricultura e Veterinária, onde foi diretor e, posteriormente, catedrático da cadeira de Zoologia.

A partir de 1915, o professor Mello Leitão passou a publicar trabalhos científicos, que chegaram a duas centenas. Várias espécies foram catalogadas nos registros internacionais pelo cientista paraibano, sendo uma das mais importantes, registrada em 1917, a Lasiodora Parahybana, considerada a segunda maior tarântula do mundo, encontrada nas cercanias de Campina Grande.

Durante vários anos, Mello Leitão foi diretor de Zoologia do Museu Nacional e do hospital da Santa Casa, no Rio de Janeiro. Em 1929, foi eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina. O professor e cientista campinense foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências, da qual se tornou Presidente. Representou o Brasil em vários simpósios e reuniões científicas internacionais e era considerado, no seu tempo, um dos maiores zoólogos do planeta.

Da vastíssima obra publicada pelo professor Mello Leitão destacam-se: "Dicionário de Biologia", "Compêndio de Botânica", "A Biologia no Brasil", "A Vida Maravilhosa dos Animais", "Compêndio Brasileiro de Biologia", "A Vida na Selva", "Glossário Biológico", "Zoogeografia do Brasil", "História das Expedições Científicas no Brasil" e "Curso Elementar de História Natural", todos com várias edições.

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Mello Leitão faleceu em dezembro de 1948, no Rio de Janeiro. Em junho do ano seguinte, a Academia Brasileira de Ciências se reuniu em sessão especial para homenagear o cientista paraibano. Foram recebidas mensagens enaltecendo a sua erudição, enviadas por respeitados biólogos de várias partes do mundo. Em sua homenagem, a academia instituiu o prêmio denominado “Mello Leitão”.

Campina Grande, a terra natal do cientista, prestou-lhe homenagem dando seu nome a uma escola municipal e a uma das ruas da cidade. A área cultural do seu estado distinguiu-o como patrono de cadeiras nas Academias de Letras de Campina Grande e da Paraíba, para as quais foram eleitos autores que participam do Ambiente de Leitura Carlos Romero, o historiador Thomas Bruno Oliveira e o professor Milton Marques Júniorr.

Apesar dessas iniciativas isoladas, a Paraíba, do ponto de vista institucional, ainda não conferiu a um dos seus filhos mais destacados o reconhecimento por ele merecido. Em 2000, o governo estadual transformou em jardim botânico a Mata do Buraquinho, reserva de cerca de 330 hectares, inserida na área urbana da capital do Estado.
Jardim Botânico / Capital da Paraíba
Precisava-se de uma denominação para o novo equipamento ecológico. Arruda Câmara, importante naturalista paraibano, nascido no século 18, já havia, com todos os méritos, sido homenageado com seu nome na Bica, parque zoobotânico da cidade.

Pelas características do espaço que estava a ser instituído e pelo fato de que a Mata do Buraquinho havia sido campo das pesquisas de Mello Leitão, o seu nome deveria estar, com justíssima razão, incluído entre aqueles que poderiam vir a designar o Jardim Botânico. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Critérios incompreensíveis, ou mesmo a falta de qualquer critério, fizeram com que fosse sonegada a Mello Leitão, no Estado em que nasceu, uma homenagem compatível com a dimensão da sua obra.

No entanto, o Estado do Espírito Santo, décadas antes, já havia reconhecido em Mello Leitão o valor que o governo da Paraíba lhe negou. Em 1949, no ano seguinte ao falecimento do cientista, um seu dileto discípulo criou, em sua propriedade, no munícipio de Santa Teresa, no vale do Canaã (aquele mesmo do cenário do livro de Graça Aranha), um museu com o nome de Mello Leitão. O discípulo que fez a homenagem ao seu mestre e amigo era uma destacada figura do meio científico. Tratava-se de Augusto Ruschi que, por meio de lei federal assinada pelo Presidente Itamar Franco em 1994, foi proclamado o Patrono da Ecologia no Brasil, e que teve até sua estampa colocada em antiga cédula de 500 cruzeiros.

O Museu de Biologia Professor Mello Leitão é, desde a sua origem, um dos principais equipamentos mundiais no estudo da biodiversidade. A partir de 1983, a instituição passou a ser administrada pelo Governo Federal. Na entrada do museu foi erguido um busto de Mello Leitão, cuja placa contém a seguinte inscrição:

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Museu Mello Leitão / 1950's

“Campina Grande, Paraíba, 17-7-1886; Distrito Federal, 14-12-1948, Zoólogo, naturalista e biogeógrafo. Professor Catedrático da Escola Nacional de Agronomia, da Faculdade Nacional de Filosofia, do Museu Nacional, do Instituto de Educação, Fundador e Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Membro Titular da Academia Brasileira de Medicina, de diversas outras instituições culturais nacionais e estrangeiras. Homenagem dos seus discípulos”

Diversos trabalhos acadêmicos tratam da contribuição de Mello Leitão para o desenvolvimento da ciência brasileira. Um deles, elaborado pelos professores José Luiz de Andrade Franco e José Augusto Drummond, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, que tem o título “Cândido de Mello Leitão: as ciências biológicas e a valorização da natureza e da diversidade da vida” (publicado pelo Instituto Manguinhos, RJ, 2007), é, assim, finalizado:


“Como cientista prolífico e influente, Mello Leitão transmitiu, para várias gerações de cientistas brasileiros, seu saber sobre a natureza e sua preocupação com a preservação dela, décadas antes de a questão ambiental emergir de forma mais intensa na sociedade contemporânea. No entanto Mello Leitão e seus contemporâneos do MNRJ (Museu Nacional do Rio de Janeiro) são, hoje, vozes quase esquecidas entre os que se manifestaram contra o tratamento irracional dispensado à natureza no Brasil. Contribui para isso o fato de praticamente toda a obra desses pensadores estar ausente dos catálogos das editoras e das estantes das livrarias. Ela é encontrada em números antigos de periódicos científicos, em livros que se tornaram raros ou em publicações avulsas de difícil acesso. Assim, não é de admirar que tenha caído sobre o pensamento e a ação de Mello Leitão, falecido há pouco menos de 60 anos, um preocupante manto que, se ainda não é de esquecimento, já beira o desconhecimento. E em termos de memória, o desconhecimento pode ser a véspera do esquecimento.”



Flávio Ramalho de Brito é engenheiro e articulista
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  1. Excelente artigo. Parabéns. Irei divulgar. Enquanto isso, na Parahyba, o nome de um Ginásio de Esportes é dado para um político e o de uma reserva florestal para outro...

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  2. Que bela revelação. Estou ainda mais orgulhoso de ser nordestino. Obrigado, Flávio Ramalho e parabéns pelo rico texto !

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  3. Caro Flávio
    O Professor Mello Leitão não foi o único paraibano esquecido pelos seus conterrâneos, como bem podemos comprovar por simples relembranças, que nos fazem elaborar vasta lista de paraibanos que se destacaram nos mais variados segmentos de nossa sociedade, desde a ciência até ao esporte.
    Lamentavelmente temos, até, o mal hábito de atribuir a monumentos e próprios do Poder Público, como escolas, estabelecimentos médicos e outros, nomes de personagens que nada representam na história da Paraíba, deixando de mão aqueles que, como o Professor Mello Leitão, deixaram marcas indeléveis na nossa vida.
    Quem sabe, até, apareçam autoridades, no Executivo ou no Legislativo, com discernimento suficiente para imaginar uma revisão nessa prática, praticando uma versão tupiniquim da diretriz de Cristo, que diz "Dai a César o que é de César..."

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  4. Brilhante texto, produto de exemplar metodologia de pesquisa.
    Tambem acho que o Jardim Botânico merecia um nome com afinidade com a natureza. Lembro-me, tambem, do prof. Lauro Pires Xavier, botânico e naturalista.
    Parabens, Flávio!

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