A ata de reunião, ou simplesmente a ata, é o registro escrito oficial de um evento. Deve conter tudo o que aconteceu na ocasião: data, loca...

Atas e atas

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A ata de reunião, ou simplesmente a ata, é o registro escrito oficial de um evento. Deve conter tudo o que aconteceu na ocasião: data, local, participantes, pauta, e tudo o que for importante para aquela reunião. Ser uma cópia fiel do ocorrido.

Uma das atribuições na minha participação como segundo-secretário do Conselho Regional de Medicina da Paraíba, o CRM, era justamente a confecção da ata durante todas as nossas sessões, fossem ordinárias, extraordinárias ou de julgamento.

Começava assim: “Às vinte horas do dia trinta de junho de mil novecentos e noventa e quatro (30/06/1994), na sede do Conselho Regional de Medicina da Paraíba, situada à Rua Francisca Moura, número 409, reunidos neste Conselho sob a presidência do conselheiro José Eymard Medeiros, e secretariado pelo conselheiro Humberto Gouveia. Presentes os conselheiros Lautônio Loureiro, Genival Veloso de França, Luiz Gonzaga Vieira, Hilário Lourenço de Freitas Filho, Francisco Rodrigues de Souza Filho, José Ruberval Farias, João Modesto Filho, Eurípedes Mendonça de Souza, Ilma Pires de Sá Espínola e Alirio Batista.”

E por aí ia. À época não dispúnhamos de computador na sala de sessões, eu tinha que escrever tudo à mão, tinha que ser rápido e certeiro, para não perder nada. Aprendi muito com o saudoso mestre José Eymard.


A Jovem Guarda foi um movimento cultural brasileiro dos anos 1960, que envolvia música, costumes, comportamento e moda. O ritmo era bàsicamente o rock n’roll americano.

E as canções eram compostas com letras ingênuas, água com açúcar, voltadas principalmente para adolescentes.

No início as músicas vinham do estrangeiro, principalmente dos Estados Unidos, ou então dos Beatles. E os nossos músicos faziam versões em português, muitas vezes assumindo os créditos.

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O movimento Jovem Guarda era considerado cultura alienada pelos intelectuais da época, que torciam o nariz para as suas músicas.

Todos os rapazes e moças da minha geração foram de alguma forma influenciados pela Jovem Guarda. Principalmente no jeito de se vestir: camisa pólo Lacoste, contrabandeada, assim como as calças Lee ou de veludo cotelê, no início com pernas boca-de-funil e que mais tarde nos chegariam com boca-de-sino, sapato plataforma, com o salto alto, um medalhão “tremendão” pendurado no pescoço.

As suas canções eram românticas, e embalavam os nossos “assustados,” que é como chamávamos as festas dançantes feitas de improviso, quando uma turma chegava à casa de um deles com uma radiola e discos recém-lançados, para dançar até que o dono da casa botasse todo mundo pra fora.

Embora haja uma tendência majoritária de reconhecer em Roberto Carlos a maior expressão do movimento, para mim é Renato e Seus Blues Caps quem mais representa a Jovem Guarda, com a sua música e as suas letras com estilos inconfundíveis.

Como fã apaixonado pelo roque brasileiro, que teve sua maior ebulição na Jovem Guarda, considero Erasmo Carlos o melhor roqueiro do Brasil. Ele é de longe quem melhor executa esse ritmo aqui em nosso país. E dentre as suas músicas destaco a minha favorita das favoritas: Festa de Arromba!


Composta em parceria com Roberto Carlos, Festa de Arromba estourou nas rádios em 1965 e até hoje faz sucesso, mais de 50 anos depois. Para mim é a maior expressão do roque dos anos 60!

Pois não é que essa música na realidade nada mais é do que uma ATA?! Isso mesmo: o registro de uma reunião. E, neste caso, que reunião! A letra relata a presença dos vários participantes, quase todos eminentes músicos e artistas da Jovem Guarda: Meire Pavão, Wanderléia, Renato e Seus Blues Caps, The Clevers e outros, entre músicos famosos e menos conhecidos da época. E ao final Erasmo ainda registra a chegada dos Golden Boys e outros músicos mais famosos.


Eu ouço a música como se ele tivesse escrito da seguinte forma: “Às vinte e duas horas do dia trinta de junho de mil novecentos e sessenta e cinco (30/06/1965), na mansão do empresário Carlos Imperial, situada à Rua Embaixador Graça Aranha, número 1882, bairro do Leblon, aqui reunidos sob a presidência do produtor Augusto César Vanucci, e secretariado pelo roqueiro Erasmo Carlos. Presentes os músicos Ronnie Cord, Prini Lorez, Meire Pavão, Wanderléia, Cleide, Renato e Seus Blues Caps, The Clevers, Jet Black’s, Os Bells, Rosemary, Roberto Carlos, Tony, Demétrius, Sérgio, Zé Ricardo, Ed Wilson, Golden Boys, The Jordans, Trio Esperança, Rossini Pinto, Simonal, Jorge Ben e Jair Rodrigues, além de rádio e a televisão, cinema, mil jornais, muita gente, confusão. Assina a ata o segundo-secretário Roberto Carlos.”

A ata registra também o objetivo da “reunião”: realização de um encontro bastante animado, ao som de muitas músicas, e regado a muita bebida. E também as ocorrências que aconteceram durante a festa: quem tocava na piscina, no terraço ou no salão; o corre-corre dos brotos do lugar. E o final da reunião: alta madrugada.

Trata-se para mim, portanto, o delicioso registro de um momento da vida brasileira, que ficou gravado para a eternidade pelo seu registro musical.

Ouçam a música, para ver se eu não tenho razão!

Festa de Arromba (Erasmo Carlos) Vejam só que festa de arromba! Outro dia eu fui parar… Presentes no local, o rádio e a televisão. Cinema, mil jornais, muita gente, confusão! Quase não consigo na entrada chegar, pois a multidão estava de amargar! Hey, Hey! (Hey, Hey!) Que onda, que festa de arromba! Logo que eu cheguei, notei Ronnie Cord com um copo na mão. Enquanto Prini Lorez bancava o anfitrião, apresentando a todo mundo Meire Pavão… Wanderléa ria e Cleide desistia de agarrar um doce que do prato não saia! Hey, Hey! (Hey, Hey!) Que onda, que festa de arromba! Renato e seus Blue Caps tocavam na piscina; The Clevers no terraço; Jet Black’s no salão. Os Bells de cabeleira não podiam tocar, enquanto a Rosemary Não parasse de dançar! Mas! Vejam quem chegou de repente: Roberto Carlos em seu novo carrão! Enquanto Tony e Demétrius fumavam no jardim, Sérgio e Zé Ricardo esbarravam em mim. Lá fora um corre, corre dos brotos do lugar: Era o Ed Wilson que acabava de chegar! Hey, Hey!(Hey, hey!) Que onda, que festa de arromba! (Hey, Hey!) (Hey, Hey!) Renato e seus Blus Caps tocavam na piscina; The Clevers no terraço; Jet Black’s no salão. Os Bells de cabeleira não podiam tocar, enquanto a Rosemary não parasse de dançar! Mas! Vejam quem chegou de repente: Roberto Carlos em seu novo carrão! Enquanto Tony e Demétrius fumavam no jardim, Sérgio e Zé Ricardo esbarravam em mim. Lá fora um corre, corre dos brotos do lugar: Era o Ed Wilson que acabava de chegar! Hey, Hey!(Hey, Hey!) Que onda, que festa de arromba! (bis)

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  1. Meu querido editor Germano Romero: você é muito "menino" para se lembrar dessa época de ouro da música popular brasileira. Que tempos!

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  2. Que letra de arromba! Assim posso dizer com essa sua tradução da música que alegrou nossos verdes anos! Genial. Só uma mente como a sua para de áreas fazer festas como essa. Você se supera!

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  3. Obrigado, Pedro, muita gentileza sua!
    São ecos de bons tempos...

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  4. Diferente de Germano Romero, por ter visto mais primaveras que você, também participei desse período maravilhoso que não volta mais. Parabéns pelo excelente texto!

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  5. Obrigado, Sergio, muito estimulante!

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  6. Fantástico👊👊👊José Mario Espínola reviver em resumo essa época ..rapaziada e música foi muito bom mesmo👊👊👊
    Paulo Roberto Rocha

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  7. Agradeço a você, Waltinho, e a Paulo Roberto, pelas palavras gentis.

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  8. É isto mesmo, caro Zé Mário.
    Embora discorde um pouco de algumas de suas afirmações, pois considero que a verdadeira época de ouro de nossa música, foi o período iniciado com os batutas de Pixinguinha, Noel Rosa e muitos outros, marcando uma primeira fase dessa época, com o seu ápice alcançado pela Bossa Nova, quando Vinicius, João Gilberto e tantos outros de "igual valor e conteúdo" (olha a ata) a sobrescreveram.
    Enquanto que essa curriola, de inegável valor, reconheça-se, entrou em uma onda musical universalista, nossos chorões e bossanovistas criaram o panorama musical brasileiro, que também se espalhou pelo mundo.
    É de se lamentar, a meu ver, que tenhamos deixado esse panorama tão brasileiro ser sufocado, como foi, por uma massificação que hoje nos dá anitas, bitar'es e otras cositas más, como calcinhas pretas, siri com toddy e, valha-nos Deus...

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  9. raquelandacosta@gmail.com8/2/21 11:55

    Ah!, Zé Mário...
    Gostei da referência feita aos assustados, nessa sua última crônica.
    Vieram-me lembranças da minha juventude estudantil, no Liceu àquela época, quando partilhávamos esses assustados, onde podíamos conviver com as músicas e artistas que animavam esses encontros que você tão bem relembra, através das radiolas que reproduziam os discos de vinil que nos chegavam com razoável regularidade, enquanto nós fazíamos a festa com coca-cola, para a ala feminina e a ala masculina desgustava seus "cubas libres" de Ron Bacardi, made in Recife, acompanhados de palitinhos de azeitonas, queijo e salsicha.
    Quantas lembranças.

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  10. Pois é, Raquel, que tempos, hein!
    Arael, como eu havia dito os intelectuais, com alguma justiça, classificavam a jovem guarda como sub-cultura. Era música para adolescentes, água-com-açúcar. Mas como era gostosa, lá isso era!
    Mas teve lá seus valores. Claro que a bossa nova é muito mais profunda.

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