Enfim, estão chegando as vacinas. Desde o início se sabia que elas eram a melhor forma de enfrentar o...

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Enfim, estão chegando as vacinas. Desde o início se sabia que elas eram a melhor forma de enfrentar o coronavírus, mas o governo se recusava a reconhecer isso. Preferia apostar em medicamentos de efeitos duvidosos e até danosos à saúde. O resultado foram longas negociações que deixavam o povo exasperado e medroso.

Superada essa fase, a vacinação começa aos poucos. As pessoas têm ido aos postos com um alívio jubiloso para receber a agulhada. Muitos nesse momento se deixam fotografar, como se quisessem mostrar ao maior número de pessoas que seu dia chegou. Essa atitude comprova quão inútil foi a pregação antivacinas feita pelos negacionistas.

Tal alegria se justifica na medida em que a covid-19 não tem deixado de ceifar vidas. A cada dia aumenta o número de infectados ou mortos, numa progressão que parece não ter limite. Vemos aos poucos se incluir nesse rol os nomes de conhecidos e amigos, o que não deixa de provocar em nós um vago remorso. Como se fosse injusto sobreviver a tantas perdas queridas. O vírus não quer saber disso. Camaleônico, ele se transmuta em variantes; e quanto mais se propaga, mais se diversifica.

Quem se vacina sabe que não está totalmente imune. Pouco importa. O que conta é a sensação de ter dado o primeiro passo para aliviar a tensão que vinha se acumulando em meses de espera. Uma espera que se tornou mais difícil devido às restrições que a acompanhavam – não sair de casa, usar máscara, evitar aglomerações.

Com a vacinação virá a cura, e com esta a tentativa de voltar à normalidade. Muitos se perguntam como será o mundo depois da pandemia. Alguma coisa mudará? Nem tanto. Passaremos gradualmente do novo ao velho normal. As pessoas vão dar mais valor a coisas que antes faziam automaticamente, como ir a restaurantes, reunir-se com familiares e amigos, caminhar na rua sem medo de esbarrar nos outros. A momentânea perda desses hábitos fará com que os reencontremos com um inédito prazer – até que tudo volte à rotina.

É para reviver momentos como esses que a multidão agora enfrenta as filas. Acompanhei recentemente uma delas, olhando os tipos que se aboletavam nos carros. Num deles vi quatro pessoas apertadas no banco de trás, e na frente, junto ao motorista , uma senhora de idade que ia se vacinar. Uma das crianças do banco traseiro, celular em punho, esperava o momento de dar o clique.

Dentro em pouco o registro dessa aplicação circularia entre os amigos e os demais membros da família. A vacina era a esperança de que a nobre senhora não seria mais um número a engrossar a macabra estatística dos que se foram. Um número para os outros, claro, jamais para a família que se comprimia naquele carro a fim de testemunhar (e registrar) o auspicioso acontecimento. Vi quando a menina se enfiou no espaço entre as duas poltronas dianteiras e fez a foto. Uma foto menos para a posteridade do que para atestar a permanência da vida num cenário de incontáveis perdas e dolorosas resignações.

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