Essencialmente, ele é poeta, assim como o são todos os artistas. Mas não exclusivamente, como prova seu mais novo livro, O peso da borboleta (Editora papel da palavra, Campina Grande), sem falar no que ele publica regularmente no jornal A União e no blog Ambiente de Leitura Carlos Romero.
E por que não? Muitos poetas fazem isso. A poesia é rara e a prosa está sempre ali,
à mão, disponível para expressar se não profundos sentimentos ou altas abstrações, pelo menos a opinião cotidiana do escriba sobre acontecimentos e questões mais ou menos objetivas da contemporaneidade, sem que isso, claro, signifique qualquer irrelevância. A maioria dos poetas brasileiros modernos também escreveu prosa da melhor qualidade, geralmente foram cronistas excelentes, a exemplo de Bandeira, Drummond e Affonso Romano de Sant’Anna, de modo que o nosso Leo está em ótima companhia. Aqui na aldeia, Hildeberto e Castro Pinto fazem-no com frequência, o que é ótimo para todo mundo, autores e leitores.
Talvez para combinar com a leveza do título, o volume não chega às duzentas páginas, fato que afinal é indiferente, já que em literatura (e em outras coisas) não raro menos é mais, principalmente nestes nossos dias de cultivada e pouco sábia impaciência. De maneira que
fez bem o autor em não sobrecarregar o leitor, o que não significa, obviamente, que o conteúdo da obra tenha a sua densidade assemelhada ao peso da borboleta do título. Pelo contrário. Mas também não se assuste o leitor com a possibilidade de altas tonelagens filosóficas ou teóricas, porque, ainda bem, não é o caso. O que Leo nos oferece nesse seu mais recente voo literário são reflexões sérias e sensíveis, mas perfeitamente digeríveis por qualquer um que se disponha a acompanhá-lo nesse passeio meditativo sobre temas que interessam a todos e a cada um.
São 55 textos ao todo, nenhum excedendo três páginas, ou seja, na medida certa para deleitar o leitor sem cansá-lo. Mas sem superficialidades, pois cada escrito expressa um pensamento que amadureceu a partir de experiências, leituras e observações do autor, cuja juventude pode surpreender os menos avisados. Em sua apresentação da obra, Leo afirma que nesta ele procura analisar a vida e as transformações por que passou nos últimos anos. Trata-se, portanto, de autoanálise, mas não só, já que o mundo e
Nelson Barros, escritor e cronista pernambucano (Belo Jardim) radicado na capital paraibana ▪️ Facebook: @nelson.barros.56
suas circunstâncias são abordados sob ângulos diversos, possibilitando assim a identificação do leitor com esse ou aquele texto – ou com todos. A subjetividade do autor dialoga com a subjetividade dos que o leem, naquela intimidade que só a literatura propicia.
O precioso prefácio do escritor Nelson Barros tem um diferencial: a amizade e a admiração que o prefaciador devota ao autor. Isso permite ao primeiro ir além da obra para alcançar, com autoridade, a própria alma do segundo. Este é visto e analisado por vários ângulos definidores: “O professor interessante e interessado na nossa língua e suas formas de ensino e aprendizagem; o observador do mundo contemporâneo e, como tantos de nós que se ousam pensantes, tentando entender o nosso lugar de um conforto mínimo; o (futuro) psicólogo dialogando com a Psicanálise, já dando a seta da direção que seguirá.”. Eis aí as várias facetas de um Leo múltiplo em busca de seu destino. Não um destino qualquer, diga-se, pragmático, carreirista ou interesseiro, visando discutíveis êxitos mundanos, mas um, provavelmente mais árduo, que satisfaça minimamente seus anseios intelectuais e artísticos de poeta e escritor. Quisesse ficar apenas rico ou famoso, certamente teria escolhido outro caminho.
Leo Barbosa ▪️ Facebook: @EscritorLeoBarbosa
Em texto recente, Leo questiona a validade atual de seu primeiro livro de poemas, publicado quando tinha 18 anos. É normal. Escritores frequentemente até renegam suas obras inaugurais, vistas com os óculos posteriores da maturidade. Mas o fato é que ninguém nasce pronto nas artes e na literatura – ou praticamente ninguém. Uma carreira literária é um processo permanente de aperfeiçoamento. As opiniões do autor mudam e seus recursos criativos idem, geralmente para melhor. Todavia, o que foi sendo superado tem o seu valor, pois retrata as etapas da evolução autoral. O Machado de Assis da fase final não teria sido possível sem aquele dos começos. Assim também é e será com o nosso Leo, em sua promissora individualidade. Aliás, corrijo-me, pois Leo não é mais apenas uma promessa e sim uma realidade como escritor.
Observador atento do que acontece no mundo, no país e na aldeia, o leque temático de Leo é amplo e variado. Ele observa os comportamentos, os modismos, os valores individuais e sociais (e a ausência dos mesmos), a cultura e os acontecimentos, e sobre eles detém o olhar reflexivo do pensador que já é, a despeito da mocidade. O que se explica pela seriedade que lhe é inerente, por suas muitas leituras acumuladas e, quem sabe, por algumas desventuras existenciais (só os mais completos idiotas não as sofreram), essas mestras da humanidade, responsáveis por tantos amadurecimentos precoces.
Leo Barbosa e Neide Medeiros no recente lançamento de O peso da borboleta no Bistrô 17, em João Pessoa (PB) ▪️
Falar nisso, vejo Leo como um perfeito discípulo e provável sucessor de grandes mestres aldeãos da língua e da literatura pátrias. Uma ilustre galeria formada por, entre outros, um Virgínius da Gama e Melo, um Juarez da Gama Batista, uma Elizabeth Marinheiro, uma Ângela Bezerra de Castro, uma Amanda Lucena, um Sérgio de Castro Pinto, um Neroaldo Pontes, uma Elisalva Madruga, um Chico Viana, um Milton Marques Júnior, um José Mário da Silva Branco, um Francelino Soares, um João Trindade, um Antonio Morais Carvalho e um Hildeberto Barbosa Filho. Sei que esqueci de alguns e me desculpo incluindo-os tacitamente nesta relação de ilustres. Leo Barbosa representa o futuro à altura do passado e do presente. Que as universidades e as academias se preparem para acolhê-lo em breve, com louvor.