O ano terminava em Cuité com a estiagem castigando cada vez mais todo o sertão. Aos poucos, o sol desbotava o cenário do campo, aumen...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 8)

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O ano terminava em Cuité com a estiagem castigando cada vez mais todo o sertão. Aos poucos, o sol desbotava o cenário do campo, aumentando a aridez do solo. Rostos duros e enrugados faziam contraste com um chão desolado.

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O pasto da fazenda estava minguando e o touro continuava mastigando mato como um devorador. Sinom precisava subjugar a fera e demarcar território para o resto do rebanho. Foi então que o Coronel fez chegar sua preocupação com os jornais do Nordeste e publicou o plano sucinto de Taitale.

Na mensagem principal falava de um aprisionamento oportuno que garantia um ganho certo. O pagamento pelo labor seria justo, tinha água fresca à vontade e comida de boa qualidade no rancho. O alojamento coletivo abrigaria todo homem livre que ali buscasse refúgio temporário, com a promessa de retorno breve e respeitoso.

Filas iam se formando a caminho da casa-grande. Quando a notícia se espalhou, sertanejos de todas as localidades deixaram suas famílias esperançosas em vê-los em casa com algum trocado na mão. Crianças à porta choravam pelos pais, e mulheres rogavam por seus maridos. Na malota arrumada, pouca coisa se fazia necessária: uma muda de roupa para usar de dia e uma rede esgarçada para descanso à noite.

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Na chegada, o ordenado combinado era pouco, mas todos eles acreditavam que poderia trazer algum alívio ao coração. Finalizada a primeira semana, capatazes acertavam os dias anotados numa caderneta rasurada.

⏤ Meu feitor pode me dizer quanto deu a soma do suado? ⏤ pedia aqueles com pouco entendimento com números.

⏤ O valor já está descontado o fiado do armazém do Coronel. ⏤ respondeu o responsável pelo dinheiro.

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Carpinteiros, oleiros, ferreiros e trabalhadores sazonais faziam sua comida no próprio barracão.

⏤ Mas sinhô, recebi apenas a comida ⏤ reclamou um lenhador que estava há cinco semanas no campo.

⏤ Veja aqui a soma em minhas anotações. ⏤ Tá dizendo que estou roubando, cabra? ⏤ esbravejou o feitor.

⏤ Não meu patrão, meu Jesus no céu e nosso Pai na terra que eu não quis afrontar vossa autoridade. ⏤ desculpou-se o trabalhador.

Outros mais ousados, pediam o acerto da renda diária; às vezes, para gastar seu trocado com a meretriz da cidade, um gole de aguardente e um prato de rubacão.

⏤ Mas meu senhor... o meu dinheiro é pago no dia, tenho compromisso me esperando na cidade ⏤ buscavam negociar com quem dificultava o pagamento ao fim da jornada.

⏤ O Coronel lhe ofereceu o charque do armazém, os fogões de barro com lenha e as meninas das senzalas. ⏤ ditou o capataz,
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afeito a toda empreitada no rancho.

Com o aumento das tarefas, outros barracões foram erguidos e redes iam sendo penduradas. Da escavação profunda, brotou o olho d’água. Logo o poço foi revestido de pedras e, com um carretel improvisado, formou-se a cacimba do trabalho comunitário. As partes fedorentas do corpo eram lavadas com saboeiro. Cantis se enchiam e panelas serviam ao cozimento para uma multidão.

Depois de tudo encaminhado na fazenda, Sinom seguiu em busca de um plano para levar a madeira muito além da Borborema. Na Capital, negociou favores com a empresa ferroviária ao troco da arroba do boi. De Cabedelo, o trem subia com materiais destinados ao beneficiamento do café, além de manufaturados e bens de consumo para o sertanejo. De Campina Grande, vinham tecidos finos, querosene e outras miudezas que abasteciam o interior.

Arrendou o espaço vazio dos vagões em ambas as rotas. Se houvesse qualquer folga nos carregamentos de suprimentos para algodão e café, embarcaria ali suas toras. Pela rota do Brejo,
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o lenho descia nas estações ferroviárias de Solânea. Pelo Curimataú, as toras eram descarregadas em Soledade.

Na direção contrária, o apito do comboio anunciava a partida com os produtos das lavouras rumo ao litoral. Nele viajavam os homens de confiança do Coronel. Contratavam lenhadores, avaliavam o andamento do planejado e relatavam o humor na região.

Das serras de Cuité havia muita mata serrana para carro de boi transportar. Parte do madeiro chegava de locomotiva e outra parte era extraída nas redondezas. Vaqueiros conduziam tropas de burros que levavam a madeira do ponto de apoio até o local de construção. As operações de extração e transporte tornaram-se gigantescas, os oligarcas falavam da esperteza do Coronel. Toda a casta coronelista recomendava a forma como Sinom tratava do problema, fazendo chegar os elogios ao Palácio Guanabara.

Sem demora, o barulho de rodas arrastadas se misturava com os ruídos da batida do machado. Serrotes rangiam nas mãos calejadas. Toras e estacas eram arremessadas em pontos marcados para arrumação do serviço. Homens empunhavam ferramentas de corte e faziam o “boi-da-cara-preta” correr zangado de um lado ao outro. Alguns trabalhadores mais
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curiosos tentavam se aproximar para acalmá-lo, mas logo recuavam ao ver a fúria demoníaca do bicho.

Pela manhã, o Coronel vinha pomposo com um trote imponente. Inspecionava o progresso e a organização do trabalho de armazenagem. Perpétua se esforçava para emparear à companhia de Sinom. Cavalgava poderosa num mangalarga marrom e branco. Sobre a sela, a cadeirinha mantinha as pernas de lado. Trajava um longo vestido azul com babados na gola e calçava botas de couro com cano longo. Numa mão, segurava um para-sol, enquanto a outra conduzia firmemente seu cavalo.

Disseram os mais experientes vaqueiros da casa que, de longe, o bicho percebia a aproximação do casal. Quando estavam há poucos metros da porteira, o tinhoso largou um coice no cocho com tanta força que assustou o dócil animal da Sinhá. Relinchando, o animal levantou-se bruscamente e a cavaleira foi arremessada da cadeirinha. Após o grito, ouviu-se o baque seco no chão batido.

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Em seguida foi um corre-corre desgraçado para socorrer a patroa que choramingava com a mão no tornozelo. A criadagem parecia contente e o “boi-da-cara-preta” mugia alto como se debochasse da senhora do engenho.

⏤ Não te falei que uma hora a besta derrubava ela do cavalo? ⏤ falavam entre si em tom de satisfação.

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No instante do susto e do baque, seu cavalo partiu rumo ao vale numa corrida embestecida. Mesmo atordoada pela queda, pediu que acudisse o animal; do pé ela mesma trataria depois.

⏤ Ouille! Nom de Dieu. ⏤ Reclamou Perpétua, usando seu francês sofisticado.

Arrasado, o Coronel prometeu que anteciparia o destino do maldito. Mandou buscar socorro médico e o Padre João para acalmar o espírito da devota enferma. Observou aquele povo todo trabalhando. Contou em pensamento quantos trabalhadores poderia inscrever na Comarca local.

Dentro do casarão, as serviçais cochichavam por detrás das cortinas. Ao ouvir o burburinho, Naucete correu no terreiro para acudir a patroa. Colocou um pouco de água para mornar em fogo brando. Coletou algumas folhas de mastruz. Moeu-as com um pouco de vinagre, formando uma pasta verde e de cheiro forte.

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Quando a colocaram na cama, Nhanhá gemia de dor e ódio do infeliz. A governanta lavou-lhe os pés com água morna e sabão de sebo. Secou cuidadosamente a região afetada e emplastrou o mastruz sobre a região lesionada. Cobriu-a com um tecido branco de algodão. Socorrida a paciente, Naucete colocou os dois pés da Sinhá sobre um travesseiro macio para que repousasse.

Foram escolhidos alguns dos vaqueiros com mais conhecimento da região, e uma comitiva partiu em busca do animal. Mas antes do pôr do sol, o grupo voltou de mãos vazias. A patroa ficou contrariada ao ouvir as mucamas sussurrando a novidade. Atendido o pedido de Sinom, trouxeram ao casarão curandeira da cidade.
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Assim que a velha mulher entrou nos aposentos, sentiu o cheiro mentolado do mastruz. Elogiou o trabalho bem feito de Naucete e recomendou que continuasse com a pasta medicinal por mais dez dias.

Quase ao mesmo tempo, Padre João chegou à propriedade perguntando sobre a saúde de Perpétua. Antes de lhe dar a bênção, o sacerdote ouviu tudo quanto era tipo de maledicência contra o boi atrevido e ainda reclamou que a obra do “Curral-Labirinto” deveria ser antecipada para encurralar o touro, pois acreditava que o animal trazia risco real a sua segurança.

Apreensivo com o estado de saúde da mulher, o Coronel sentou-se em sua cadeira de balanço. Pôs-se a recordar todos os acontecimentos recentes. Lembrou que Ariane chegaria nos próximos dias, em companhia de Alceu; assim, Taitale iniciaria a construção da prisão.

Olhou para si mesmo, vestindo um terno surrado que o havia acompanhado em dúzias de reuniões políticas. Que “djiabo” de hora para comprar roupa. Veio a memória um anúncio que lera quando estava a negócio da ferrovia na Parahyba do Norte. A União, então, era isso. Rua Maciel Pinheiro, 29.

Escurecia quando o espanto silenciou as vozes no alojamento. Ainda distante, via-se a figura de um vaqueiro surgindo no horizonte e a sua imagem crescia ao se aproximar da construção.
“Alfaiataria Carneiro: convida os elegantes a realizarem o desejo de vestir roupas personalizadas.”

Sorriu de sua lembrança desgracada. Sua amada Perpétua acidentada por causa do “boi-da-cara-preta” e ele ali pensando num novo terno para as reuniões na Comarca. Puxou na mente o porquê estava pensando naquilo e avistou o sacerdote. O padre estava sério e parecia compenetrado, talvez conversando com Deus:

⏤ Padre João, mês que entra daremos a mais no dízimo. Faremos um valor generoso para concluir a ampliação das salas da Igreja. Meu povo terá sala de aula e aprenderá a assinar o próprio nome. ⏤ disse Sinom, ainda pensando em sua vestimenta para o encontro político.

⏤ Ora homem. Estava há pouco rezando pela obra. Mas não carecia tamanho empenho. Louvado seja o nosso Salvador, Coronel. Nossa Igreja tem sorte de tê-lo em nossa membresia. ⏤ falou o pároco, despedindo-se do devoto mais generoso da região.

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Escurecia quando o espanto silenciou as vozes no alojamento. No casarão, os que podiam sair, correram à porta para ver para onde apontavam o dedo da indicação. Ainda distante, via-se a figura de um vaqueiro surgindo no horizonte e a sua imagem crescia ao se aproximar da construção.

Por detrás de seu cavalo, outro animal era guiado e reconheciam o mangalarga da patroa. O outro, poucos dali sabiam quem era, mas quando a face se fez clara, todos ouviram alguém dizer:

⏤ Aquele vindo de longe é Orací de Cuité! O vaqueiro mais destemido do Curimataú. O dono deste sertão...

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