Quando vivi na Espanha, fazendo doutorado, eu frequentava os "comedores universitários". Devo dizer, em justiça à verdade,...

Como comer melhor?

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Quando vivi na Espanha, fazendo doutorado, eu frequentava os "comedores universitários". Devo dizer, em justiça à verdade, que esses restaurantes para estudantes, professores e funcionários eram, de modo geral, maravilhosos. Não era aquela comida burocrática de bandejão que a gente encontra em muitas universidades. Nada disso. A comida era realmente muito boa.

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A famosa dieta mediterrânea não é mito. Ela se baseia em comida simples e natural: muito azeite de oliva, verduras, legumes, frutas, grãos, feijão, pão e peixe, com consumo moderado de queijo e vinho e pouca carne vermelha. É considerada uma das melhores dietas do mundo porque privilegia alimentos frescos e pouco processados, ricos em fibras, vitaminas e gorduras boas, especialmente as do azeite e do peixe.

Esse equilíbrio ajuda a proteger o coração, controlar o peso e manter a saúde por mais tempo. Em essência, é uma alimentação simples, equilibrada e próxima da natureza, o que explica sua fama de ser uma das mais saudáveis que existem.

Na Espanha, ela aparece ali, no cotidiano: sempre havia uma entrada, um prato principal saboroso e o *postre*, a sobremesa. Tudo simples, mas bem preparado, equilibrado e saboroso.

O comedor da Faculdade de Economia, que era o que eu frequentava habitualmente, já era ótimo. O de Humanidades também era muito bom.

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Em geral, os pratos espanhóis são maravilhosos: bem temperados, comida de verdade, nada artificial.

Mas… havia uma exceção que elevava o padrão. Sempre há uma assim.

O Comedor Universitário da Medicina.

Esse já era outro nível.

Aquilo ali não parecia um comedor universitário. Parecia o restaurante de um bom hotel. A comida era mais elaborada, os pratos mais caprichados, tudo com uma qualidade que chamava atenção imediatamente.

Porque uma coisa é certa: quando a gastronomia chama, até um doutorando em Direito e Filosofia pode desenvolver, de repente, uma inesperada vocação para a área de saúde.

A história de como eu cheguei a almoçar no restaurante universitário de Medicina é curiosa.

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Tinha um amigo doutorando em Medicina que me comentou sobre a qualidade do restaurante e me sugeriu que eu também almoçasse por lá.

— Como assim? — respondi. — Aquilo ali não é só para o pessoal da saúde?

Ele riu e disse, como quem revela um segredo de Estado:

— Se você for de jaleco, ninguém vai lhe perguntar nada. Eu te empresto um. Você entra, pega a fila, paga a refeição e pronto. Ninguém pergunta nada.

Eu fiquei meio desconfiado.

— Tem certeza de que não pedem identificação?

— Que nada! O jaleco já resolve noventa por cento da burocracia.

A ideia era absurda… portanto, irresistível.

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No dia seguinte, lá fui eu. Jaleco emprestado, postura discreta e um ar de quem havia acabado de sair de uma cirurgia extremamente complexa ou, no mínimo, de um laboratório.

Funcionou perfeitamente.

A fila andou, paguei minha refeição e me sentei como qualquer outro pesquisador da área da saúde, mastigando dignamente uma comida ainda melhor que a dos outros restaurantes universitários.

A partir daí, aquilo virou hábito.

De vez em quando eu brincava com meu amigo:

— Escuta, se alguém perguntar de que setor do hospital eu sou, já pensei na resposta.

— Qual?

— Psiquiatria.

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— Psiquiatria? Por quê?

— Se me descobrirem, eu digo: “Ué… vocês não perguntaram? Eu sou da psiquiatria… paciente.”

Meu amigo quase chorava de rir.

O problema é que, por causa dessa história, ele não podia ficar perto de mim na fila.

— Fica longe — dizia ele. — Se eu olhar pra você de jaleco, eu começo a rir e entrego tudo.

Durante bastante tempo mantive aquela rotina quase clandestina. Eu saía das aulas do meu doutorado, que ficavam na área de Humanidades, caminhava até o setor da saúde, tirava o jaleco da mochila, vestia discretamente e pronto: almoço garantido, nível gourmet.

Era um sistema simples, eficiente e gastronomicamente superior.

Até que, um dia, a tragédia aconteceu.

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Sem perceber, coloquei o jaleco na minha máquina de lavar junto com um moletom vermelho.

Quando saiu da lavagem… ele já não era mais exatamente branco.

O jaleco havia adquirido um delicado tom rosado.

Naquele instante compreendi que minha carreira médica imaginária havia chegado ao fim.

Porque entrar no comedor da Medicina com um jaleco rosa chamaria atenção demais. Alguém poderia estranhar… ou pensar que eu era algum militante de um movimento identitário fazendo uma intervenção sociológica no hospital.

Achei prudente encerrar ali minha breve, porém nutritiva, passagem pela área da saúde.

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