Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.
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Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.
Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.
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E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.
Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.
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Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.
Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.
Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.








