O causo me chegou pelo meu compadre, Paulo César, padrinho de meu rebento Cauê. Este meu amigo, foi professor de Cálculo no curso de engen...

O atrito

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O causo me chegou pelo meu compadre, Paulo César, padrinho de meu rebento Cauê. Este meu amigo, foi professor de Cálculo no curso de engenharia de uma conceituada faculdade pública lá de Itajubá, sul de Minas. Foi de lá que ele me veio com esta história. Verdade? Meu compadre não iria mentir para mim.

Segundo ele, em tempos bem lá para trás, os alunos submetidos ao vestibular daquela instituição tinham que enfrentar as provas escritas e as temidas provas orais.

Conta ele, que um rapagão todo cheio de pose, parente distante dele, saiu de Taubaté com destino àquela cidade mineira. Ia se submeter ao vestibular. O danado já tinha até jeitão de engenheiro. Foi sozinho dirigindo um fusca do ano,
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tão novinho que ainda tinha plásticos nos bancos, carteira de motorista recente para apresentar ao “seu guarda” se fosse parado na estrada. Morria de vontade que isso acontecesse, só para dar uma carteirada na autoridade rodoviária. Aliás, quem tira a habilitação fica louco de vontade de ser abordado, só para exibir o documento.

Menino bem nascido, de família bastada, até ganhara o fusca ao completar a maioridade. Como meu compadre soube desses atributos nunca questionei. O certo é que o meninão, tão cheio de soberba como de esperança, saiu de Taubaté pela Rodovia Presidente Dutra chegou a Lorena. De lá tomou a BR 459 para encarar os 73 km até Itajubá.

Essa segunda parte do percurso, não era das mais fáceis, estrada com alguns trechos sinuosos e a camada de asfalto nunca foi lá das melhores. O certo é que Valdir (nome fictício) quase chegando ao destino, faltando uns dez quilômetros, ao passar por pedaço de estrada em reforma, sem asfalto, o fusquinha atolou.

Valdir fez o que pode, acelerou, jogou umas pedras onde a roda afundara e nada. Fez uma coisa, fez outra e nada novamente. Domingo cedinho o pessoal Departamento de Estradas de Rodagem não estava por lá. Tudo meio deserto. Valdir se apavorou. Ia perder a prova. Faltava tão pouco para chegar. Ia começar às oito e já eram quase sete.

Mas Deus que andava dando uma espiada por lá, viu a aflição do rapaz e resolveu dar um ajutório. Logo apareceu um senhorzinho, chapéu de palha na cabeça, botina nos pés e o coração cheio de vontade de ajudar.

— Tá precisando de alguma coisa, moço?

— Estou sim, meu senhor. Tenho prova às oito e olha só o que me aconteceu. O senhor tem um pedaço de tábua?

— Tenho sim. Moro ali. Tá vendo? Segura aí um minuto que já trago – Valdir segurou um, dois, três minutos e lá veio o homenzinho com um pedaço de tábua — vamos tentar colocar um pouquinho embaixo do pneu, você dá a partida, acelera devagarzinho, que vai fazer atrito, a roda não vai girar em falso e você sai desse atoleiro.

Assim fez o rapaz, entrou no carro, acelerou e foi devagarzinho tirando o pé da embreagem. O carro respondeu e saiu do buraco. Valdir saiu do carro para agradecer.

— Muito obrigado pela ajuda. O senhor falou em atrito, não foi? Humilde na aflição, arrogante no alívio. O que um caipira daquele saberia de atrito? Ele sim, sabia. Estudara Física no cursinho e estava com aquele conceito fresquinho na cabeça.

— Mas, o senhor sabe o que é atrito?

— Não muito. Você sabe? Então me conta – pediu o caboclo.

— É uma força que se opõe ao movimento de objetos que estão sob a ação de uma força. Ela age paralelamente à superfície de contato e em sentido contrário à força aplicada sobre um corpo. O senhor entendeu?

— Sei lá. Se a força se opõe ao movimento, como é que o carro andou?

— Ah, me desculpe, acho que o senhor não vai entender, vou ter que explicar o que é atrito estático, atrito dinâmico... Não vai dar tempo. De qualquer forma quero agradecer muito ao senhor. Toma aqui um trocado para tomar um gorozinho com os amigos.

O senhorzinho humildemente aceitou a gorjeta. Valdir pegou o rumo de Itajubá.

Estava tudo dando certo. Foi bem nas provas escritas. Vieram as orais, até que chegou o dia do exame de Física. E quem estava na banca? O caipira- professor, o mesmo que socorrera Valdir.

— Bom dia meu amiguinho? Você está bem? Vi que você gosta muito de Física. O ponto que escolhi para você foi “ATRITO”.

Valdir nem acreditou na enrascada em que se metera, sofreu, suou, gaguejou, quase chorou e não conseguiu responder às perguntas. Então o professor tirou aqueles dez cruzeiros do bolso que recebera como gorjeta e...

— Toma meu filho, pra ajudar você pagar cursinho mais um ano. Vai com Deus e estude mais o que é atrito.

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  1. Adorei esta!!!
    Luiz Augusto Paiva..Parabéns👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
    Paulo Roberto Rocha

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