Faz algum tempo uma minoria ruidosa de poetas resolveu decretar que poemas não d...

Haikais aforismáticos

Faz algum tempo uma minoria ruidosa de poetas resolveu decretar que poemas não deveriam ser recitados, mas lidos. E lidos em silêncio, uma vez que, investindo maciçamente no visual, esses poetas não lhes davam voz, tornando-os artefatos mudos, desses cuja leitura está a exigir uma tal acrobacia do olhar, um tal golpe de vista, que o leitor, de tanto esforço despendido, poderia sofrer um descolamento de retina. E como o que não tem voz prescinde de emoção, eis que os poemas dessa minoria ruidosa vão, pouco a pouco, caindo na vala comum do esquecimento.

Rejane Sobreira Minato, egressa da Geração 59, sempre soube dar voz e emoção aos seus poemas. E isso desde “Aranha de breu”, livro com o qual retoma e dilata um veio só aparentemente extinto, na medida em que,
embora não preenchessem o branco do papel, mesmo assim as suas emoções se acumulavam, eram como que sazonadas, amadurecidas, para romperem as comportas e desaguarem em três livros publicados quase que simultaneamente.

O título “Estação haikai” encerra, pelo menos, uma leitura de mão dupla. Parece sugerir que o haikai estacionou no livro como se numa estação ou plataforma de desembarque, como também que esse gênero japonês possui uma predileção toda especial em transformar as estações do ano em recorrências temáticas.

Apesar de minimalistas, os haicais de Rejane Sobreira Minato não deixam de ser recitáveis. E embora de leitura breve, o leitor deve se dar conta de que eles estão a exigir uma reflexão demorada. Essa a principal característica de todo o haikai que se preza: o tempo de leitura não entra em sintonia com o esforço do leitor para desvelar o mundo de sugestões e de ambiguidades concentrado em apenas três versos de 5, 7 e 5 sílabas. Os haikais de Rejane Sobreira Minato só aparentemente são contemplativos.

Com efeito, o caráter aforismático dos haikais já diz bem do inconformismo do eu lírico diante da realidade. A sua forma incisiva, peremptória, enfática – mas sem perder a ternura –, de nomear o mundo ao seu modo, a partir da transfiguração do real, denota a rebeldia do eu lírico diante da “vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Daí, em “Estação haikai”, o olhar enviesado, inaugural, que enxerga ângulos novos, indevassados: “O carro alegórico / é casulo até o dia/ de sair eufórico”. Neste, como em muitos outros, o verbo ser cumpre a função de afirmar que uma coisa é outra, que isto é aquilo, de fazer próximo o que estava aparentemente distante, como se o eu lírico existisse à imagem e semelhança de um demiurgo insatisfeito com um mundo criado à sua revelia.

O haikai, então, longe de ser um gênero meramente contemplativo, gerado pela passividade do eu lírico, demonstra, pelo contrário, o quanto interfere em todas as estações da vida: “Mimetismo igual. / Caçador e caranguejo/ vestem manguezal”.

Eis os haikais de Rejane Sobreira Minato. Os de “Estação haikai”.

REGISTRO
Membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, Flávio Ramalho de Brito é um pesquisador cuja disciplina põe à serviço da historiografia paraibana, conforme podemos verificar no seu mais recente livro: “Um Político da república velha”, Ideia Editora.

Bem documentado, de leitura prazerosa, esse livro de Flávio Ramalho de Brito toma como fio condutor de sua narrativa, o seu tio-avô, José Gaudêncio Correia de Queiroz – um político da velha república –, ao tempo em que lança uma visão aprofundada em outras personagens não menos ilustres que povoaram o Brasil e a Paraíba de então.

Flávio também é colaborador do prestigioso e prestigiado Ambiente de Leitura Carlos Romero, tão bem coordenado pelo arquiteto, musicista e escritor Germano Romero, onde comparece com artigos sobre temas os mais diversificados.

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