Há 3 anos que faço parte de um clube de leitura: Livros da Frederica . Semana passada tivemos a ilustre presença da querida e aclamada Mar...

Conversas com Maria Valéria Rezende

ana adelaide peixoto encontro literario clube leitura maria valeria rezende

Há 3 anos que faço parte de um clube de leitura: Livros da Frederica. Semana passada tivemos a ilustre presença da querida e aclamada Maria Valéria Rezende. Vencedora de muitos Jabutis (cinco), o maior prêmio da literatura brasileira, e mais outros tantos. O seu romance Quarenta Dias (Alfaguara, 2014) era o nosso livro do mês. Valéria é um tsunami ambulante. Uma jovem mulher beirando 80 anos, com a energia de 30! E nós, o grupo, desmaiamos na escuta. Emocionadas, não queríamos falar mais nada diante das histórias de vida e de literatura que ela nos contou.

ana adelaide peixoto encontro literario clube leitura maria valeria rezende
Maria Valéria Rezendefacebook
Conheci Valéria na década de 80, através de Juca, por conta do PT, quando fazia parte do Equip (Escola de Formação Quilombo dos Palmares — até hoje é sócia honorária). Nunca soube que escrevia, daí o meu espanto quando li sobre o seu primeiro Jabuti. Desde então venho acompanhando os seus lançamentos, suas entrevistas, o Mulherio das Letras e os seus livros, embora tenha lido pouco. Correndo atrás do tempo de Valéria!

Ela contou histórias da sua família, dos poetas, dos livros nos corredores da sua casa, da falta de luz, da amizade com Pagu (Patrícia Galvão), inclusive do momento em que dela se despediu no leito de morte. Falou do café que tomou com Gabriel Garcia Marques, do violão que aprendeu a tocar com César Camargo Mariano, de seu encontro com Che Guevara, que desfilou em carro aberto em visita ao Brasil, com Fidel. Disse como aprendeu a driblar com Pelé nas areias de Santos, onde nasceu e viveu parte da vida.

Valéria também contou como aprendeu a falar muitas línguas. Santos, um lugar cheio de gringos, por onde as crianças se entrançavam nos quintais umas das outras, pulando os muros. Ela fala com sotaque português de Portugal. Mais tarde perambulou pelos sebos da cidade ("eu cresci com livros do mundo inteiro!"). O porto de Santos. rico em livros deixados pelos marinheiros do além-mar. Santos é interior? E gargalhava!
ana adelaide peixoto encontro literario clube leitura maria valeria rezende
Santos▪SP, cidade-natal de Maria Valéria Rezende ▪ FotoFabio Luiz
"O interior é São Paulo e os paulistanos. Nós somos a borda. Do Mundo! De tanto ouvir histórias, eu presenteava as pessoas com alguma, e sempre achei que todo mundo um dia iria escrever um livro. Comprava livro em Marseille. Meu pai mandava buscar. De Santos, o mundo era ali. Amava/amo dicionários - que beleza são as palavras! Eu era feliz no meu corredor de livros. Amigos e cabelos — ninguém pode tirar isso de nós".

“As mulheres? Todas escreviam. Mas só as solteiras publicavam”. Lembrei-me de Jane Austen, George Elliot, das irmãs Brontë. Segundo Virginia Woolf, escreviam ficção por que eram solteiras, e essas mulheres, enclausuradas na sala de jantar, tinham a arte de observar. Escrever romance é isso. Observação. Enquanto cuidavam e olhavam as batatas, escreviam. E essa arte de produzir ficção permitia interromper.

Da Política? Na sua geração se ingressava no Partido Comunista; Juventude Comunista. E ela prontamente: "Eu quero". Valéria passou o rodo nas leituras; em francês. Leu O Capital e a Bíblia. Tudo junto e misturado. O seu engajamento político começava com os estivadores pela praia, com o pé cheio de areia. E a sua casa? Cheia de escritores.

Andou pelo mundo. Cuba, Europa, França e Bahia. Timor Leste. E pelos rincões do Brasil e da Paraíba, fazendo trabalho de base, Educação, Paulo Freire.
ana adelaide peixoto encontro literario clube leitura maria valeria rezende
Tudo com e pela palavra, essa arma e recurso poderoso e interminável. Tinha passe livre nos voos do Correio Nacional. Como não havia muita escolha: casamento ou freira. Ficou com a segunda opção, que lhe deu régua e compasso. E a escrita.

O tempo passava e finalmente chegamos nos seus Quarenta Dias. Uma vez ouviu uma certa história de um Severino, que tinha caído de moto e estava no Trauma. Pronto. Ouvir um fragmento... assim nasce uma trama; tudo pode virar uma história. Valéria descobriu que os becos são os avessos das cidades e se embrenhou por Porto Alegre como espaço para a sua história de uma avó que rejeita o lugar sagrado de cuidar do neto (assim queria a sua filha), para ir em busca de um filho desaparecido. E, assim como Godot, Alice atira-se no abismo dos becos para descobrir que as mães choram os seus filhos perdidos. Desaparecidos. E que metade do Brasil está à procura da outra metade. Nesse percurso, Valéria cantou um fado, como quem reza um Padre Nosso baixinho.

Em romaria nos despedimos. Obrigada Valéria, por tantos pedaços de Alice no país de nenhuma maravilha. Mas com todos os chapeleiros, coelhos e buracos em busca da imaginação.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

leia também