Com a devida licença poética, eu acho que o cronista é um observador de invisíveis, um tipo de jornalista investigativo de coisas e fato...

O cronista e a gaveta

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Com a devida licença poética, eu acho que o cronista é um observador de invisíveis, um tipo de jornalista investigativo de coisas e fatos corriqueiros, imperceptíveis e até desimportantes. É alguém que relata consternado a história de um pé de milho que nasceu espremido entre a rua e o meio fio, ou que descreve com a precisão de um anatomista o corte milimétrico do queijo servido na casa do seu primo “mão de vaca” ou ainda que consegue descrever minuciosamente seu ciúme ao ver a filha de 3 anos suspirar apaixonada pelo coleguinha bem mais velho, um sujeito de 4 anos.

É a pessoa que compara o voo de um inseto com o voo de um avião e conclui, no final, que o projeto da aeronave é muito rudimentar.

Cronista é um sujeito que encontra, usando seu dedão do pé, o único paralelepípedo mal assentado da rua e depois conta com requinte como foi seu grito de ai, o palavrão, o sumiço da unha, a bronca da esposa e o inchaço do referido pododáctilo.

Beirando a extravagância observacional dos cronistas, existiu um que cismou com gavetas. Onde já se viu alguém botar importância numa gaveta? Pois esse colocava. Não no sentido literal de guardar dinheiro, mas no sentido de botar reparo, admirar e valorizar as gavetas. Ele amava as gavetas e sabia tirar coisas de dentro delas, não roupas, papéis, canetas, carretéis, garfo, faça, alicate, meias, canivetes, fotografias ou qualquer uma das outras milhares de coisas que guardamos nas gavetas. Não! Ele tirava um acontecimento, uma história ou algum sentimento guardado. Vivia dizendo que elas eram complacentes, versáteis, receptivas e cúmplices. E desafiava.

— “Quem nunca escondeu uma bagunça dentro da gaveta quando a visita, de surpresa, tocou a campainha? Elas nunca reclamaram!”

Ele vivia dizendo que a gaveta era uma das maiores invenções da história, e ela se abria toda. Só lamentava que nem o Google sabia quem fora a mente brilhante que a inventara.

Era uma dupla e tanto. Tudo corria bem nos trilhos entre o cronista e a gaveta. Mas, certo dia todo aquele amor se estremeceu. A gaveta foi enchendo, enchendo, enchendo e já cheia de coisas, cansada de ser cúmplice da bagunça escondida e revoltada, resolveu travar. Justamente quando o cronista mais precisava do cortador de unhas para eliminar aquela cutícula levantada que o incomodava.

E, por crueldade, ela permitiu uma gretinha por onde ele via parte do cortador. O pobre cronista tentou de tudo para abrir a amada gaveta. Puxou, empurrou, enfiou um arame na greta, conversou com ela e nada. A gaveta estava irredutível, fechada em si mesmo.

Já o cronista, algum tempo depois, foi visto embriagado num boteco próximo, flertando com a tampa de uma coca-cola na mesa do lado. Quem passava ouvia:

“Eu acho que as Tampas são fantásssticas, uma das maiores invenções do mundo! O que seria das panelas sem as tampas? Quem inventou essa maravilha tinha que ser homenageeeaado...”
Making off: poesia x crônica Cronista adora uma gambiarra, já o poeta é requintado, introspectivo, sisudo, polido, elegante, equilibrado e enigmático. A poesia está para o balé, assim como a crônica está para o futebol de várzea.

Enquanto a poesia dança na ponta dos pés com movimentos precisos e se insinua graciosamente ao som da orquestra; a crônica está pronta pro jogo; mascando chicletes, coçando o saco e encarando o adversário.

O jogo é truncado, a jogada é confusa, tem chute pro alto, um “perde-ganha” dentro da área, palavrões e empurra-empurra. Por fim a bola bate na canela do pior do time (o cronista), engana o goleiro, e… é gooool. Depois de uma comemoração esfuziante, com até coraçãozinho pra torcida, o gol é anulado pelo Bandeirinha.

A Crônica estava completamente impedida.


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