Para expor realisticamente esse tema tão polêmico, que emerge do meu âmago, a realidade cruel, o misticismo, um pouco de folclore, se...

Poder médico: A queda do mito?

medicina humanismo
Para expor realisticamente esse tema tão polêmico, que emerge do meu âmago, a realidade cruel, o misticismo, um pouco de folclore, sem excluir evidentemente os arroubos do romântico e do sentimental, assim sendo iniciamos com as seguintes indagações: mudaram os médicos? Mudaram as famílias? Mudaram as relações entre as pessoas?

Amsterdã é um caos ordenado. Caminhões da limpeza urbana invadem as calçadas, mas não nos dei...

Notas de Amsterdã

amsterdam turismo
Amsterdã é um caos ordenado. Caminhões da limpeza urbana invadem as calçadas, mas não nos deixam chateados com isso. O pessoal está fazendo com educação um trabalho que vai ajudar o trânsito dos pedestres em seu embate com as bicicletas.

Mantenho minhas armas em punho, durante o dia que corre mais que o vento, não desmanchei minhas trincheiras expostas na sala de estar ...

Pérolas Clássicas

literatura classica leitura
Mantenho minhas armas em punho, durante o dia que corre mais que o vento, não desmanchei minhas trincheiras expostas na sala de estar e no quarto.

Bem verdade, há muitos anos me preparo para atacar quando necessário, e me defender quando balas de mau-humor e desinformação cruzam meus ouvidos atentos.

Vez por outra meus olhos enxergam o mau se apoderando de um local público, ou testemunho um evento radical voltado ao populismo desmedido.

Ele é farmacêutico/bioquímico por formação acadêmica, graduado e pós-graduado. E foi durante muitos anos respeitado professor da...

Humberto Fonsêca de Lucena, historiador de Araruna

historia paraiba humberto fonseca
Ele é farmacêutico/bioquímico por formação acadêmica, graduado e pós-graduado. E foi durante muitos anos respeitado professor da UFPB em sua área de conhecimento. Certamente deve ter influído em sua vocação o fato de seu pai, Severino Cabral de Lucena, ter sido, no século passado, dono da farmácia de Araruna, um quase médico para a população da cidade e arredores, competente na arte de receitar e manipular medicamentos, bem como no acolhimento social em seu estabelecimento, convertido em incontornável e prestigiado centro comunitário da urbe. Por essa farmácia, desfilava a cidade diariamente, desde o modesto agricultor até as autoridades locais, e a tudo isso o menino Humberto prestava atenção, gravando espontaneamente em sua memória de futuro historiador os acontecimentos e personagens antigos e recentes de sua aldeia. Esse pai admirável e essa farmácia emblemática foram posteriormente reverenciados em seu livro Memória de uma farmácia – Subsídios para a História de Araruna, saboroso relato em que o insuspeitado escritor se revela.

A julgar pelo título, poderia ser mais um filme sobre o animal mamífero. No entanto, trata da história de Charlie, um professor de lite...

A Baleia

filme baleia darren aronofsky
A julgar pelo título, poderia ser mais um filme sobre o animal mamífero. No entanto, trata da história de Charlie, um professor de literatura inglesa, gay, obeso, pesando quase 300kg. Dirigido por Darren Aronofsky, a obra fílmica, ainda em cartaz nos cinemas, é protagonizada por Brendan Fraser, conhecido amplamente por sua participação em “A múmia”.

Ou “Os grandes do nosso mundo”, que é o título de um livro de perfis biográficos. São perfis não mais que de duas ou três páginas...

Os grandes de Ipojuca

ipojuca pontes biografias
Ou “Os grandes do nosso mundo”, que é o título de um livro de perfis biográficos.

São perfis não mais que de duas ou três páginas, o bastante para reagirmos à névoa do esquecimento e trazer de volta expressões humanas que clamam, algumas delas, pelo recurso grego ou romano da estátua.

Cheguei por aqui pela primeira vez num ensolarado 31 de janeiro, no distante 1 987. Diriam os que me conhecem...

Vagas lembranças

curiosidades paraibanas
Cheguei por aqui pela primeira vez num ensolarado 31 de janeiro, no distante 1 987. Diriam os que me conhecem ter sido uma paixão à primeira vista pela terrinha. Devo admitir que sim, pelo menos é o que vem demonstrando essa relação que já apagou 36 velinhas no verão que passou.

Qual a relação entre as palavras quente, caldo e calor, que intitulam este artigo? À primeira vista, alguns dirão que entre quente e ...

Quente, caldo e calor

etimologia lingua portuguesa linguistica
Qual a relação entre as palavras quente, caldo e calor, que intitulam este artigo? À primeira vista, alguns dirão que entre quente e calor existe uma relação semântica de sensação térmica. Já com relação a caldo, dificilmente alguém verá qualquer associação com as anteriores, tendo em vista que o mais comum é que se relacione o termo a um sumo, como o saboroso caldo de cana.

Nova Iorque tem 8 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro tem pouco mais de 6 milhões. Até 1990 imperava o caos em Nova Iorque. Naquel...

Deu certo em Nova Iorque

policia nova york seguranca publica violencia
Nova Iorque tem 8 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro tem pouco mais de 6 milhões. Até 1990 imperava o caos em Nova Iorque. Naquele ano registraram-se quase 2.500 homicídios. Com a eleição de David Dinks, o único afro-americano eleito prefeito de Nova Iorque até hoje, começou a virada. Ele contratou 8.000 novos policiais (25% do efetivo) e organizou uma infraestrutura que foi sendo aperfeiçoada pelos prefeitos que o sucederam. Basta dizer que em 2012 os homicídios caíram para menos de 500. Enquanto isso, no Rio de Janeiro somente nos primeiros sete meses deste ano ocorreram 1.941 homicídios, 9% a mais do que no mesmo período do ano passado.

Água pelo caminho, um caminho de águas, uma caminhada em busca das águas. Salgada, doce, fria, quente, para ser bebida, servida em of...

Caminhos das águas

agua cachoeira trilha natureza
Água pelo caminho, um caminho de águas, uma caminhada em busca das águas. Salgada, doce, fria, quente, para ser bebida, servida em ofertas. Líquida desce pelas encostas, cria estradas, salta por entre pedras, molda quadros, umedece o mundo, produz luz ao toque solar. Sensível e forte, mata as sedes humanas, tanto as corpóreas quanto as espirituais.

Jornais eletrônicos e de papel e tinta anunciam o segundo eclipse antes que outubro se vá. O primeiro foi o do sol, dia 14 passado. ...

Quero a lua dos poetas

Jornais eletrônicos e de papel e tinta anunciam o segundo eclipse antes que outubro se vá. O primeiro foi o do sol, dia 14 passado. Agora, vem o da lua, no entardecer deste sábado, 28. No primeiro caso, nosso satélite passou entre a Terra e o Astro Rei, todos na mesma linha. E decepcionou muita gente esperançosa de um espetáculo inesquecível: o da escuridão momentânea, às 11 da manhã, com galos e galinhas a subirem nos poleiros.

No Dia das Crianças, meu pensamento voltou-se ao tempo quando morava no sítio Taquio, santuário de minha infância,...

Cantigas para os netos

cantigas ninar infancia
No Dia das Crianças, meu pensamento voltou-se ao tempo quando morava no sítio Taquio, santuário de minha infância, edificado pelo trabalho de meus antepassados, alicerce de minha vida adulta e repouso na velhice.

“As coisas que contribuem para a longevidade saudável são as mesmas que fazem a vida valer à pena.” Fala do filme ... E " Os Seg...

''Como viver até os 100''...

longevidade saude dan buettner
“As coisas que contribuem para a longevidade saudável são as mesmas que fazem a vida valer à pena.”
Fala do filme

... E "Os Segredos das zonas azuis”. Esse é o título de um delicioso documentário, viajando pelo mundo com o escritor Dan Buettner e descobrindo cinco comunidades únicas, onde as pessoas têm vidas muito longas e felizes e tem saúde até o fim da vida. Nada de novo no front! Ou do que já sabemos. Mas, outra coisa é ver tudo registrado. Entrevistas; lugares lindos e as suas longevas pessoas.

Okinaya, no Japão; Sardenha, na Itália; Ikaria, na Grécia; Nicoya na Cosa Rica; e Loma Linda, na California-EUA, foram os lugares escolhidos, ou melhor observados que tinham algo em comum, para que se vivesse tanto e com tanta qualidade de vida. De quebra ainda teve matéria em Singapura e numa pesquisa aplicada especial na pequena comunidade de Albert Lea, nos EUA, e o resultado em um ano foi o aumento da expectativa de vida de seus habitantes, o que pode indicar que seus resultados puderam, de algum modo, ser comprovados.

Claro que a comida (vegetais, raízes, mel ao invés do açúcar), outros ingredientes são vitais. As pessoas trabalham muito e por menos tempo, para que sobre tempo para o lazer. Andam muito. Fazem coisas com as mãos, como jardinagem. Tem um plano de vida, um propósito que os alimentam ao acordar. Rituais sagrados diários para aliviar o stress, as inflamações, e evitar a diabetes e o câncer. Pensar em deixar algo para a posteridade, conversar com amigos, a religiosidade, a fé. Tudo no pacote. Bebem, mas fazem o seu próprio vinho. Em Costa Rica colhem o seu feijão, o milho e o jerimum. Em Loma Linda, tem muito voluntariado. Estar em paz, cochilar, preocupação de pertencimento à uma comunidade de fé; fazer happy hours. Tem até um vocabulário específico para denominar a razão que os fazem levantar pela manhã. Seus gostos não funcionam todos os dias. Alimentos integrais e naturais. E os carboidratos, contém substancias outras, e se juntam ao milho, batata doce, verdes, castanhas, chás. E comem pouco, até 80% da saciedade.

Atitude, outra coisa importante. Comer com a família, cuidar dos idosos, comem devagar, e comida plantada por eles; e com moderação, conversam. Como se conectar? Priorizam a família. Parceria, amor, cuidar e amar. Círculo de amigos – investem a vida toda. Ter os amigos certos! Para fazer as coisas certas!

Singapura é um país inteiro de longevidade saudável. Expectativa de vida mais alta do mundo. E até outro dia era uma Vila de pescadores. Trabalhar duro, ser honesto, ser humilde. Quem joga tênis, vive mais (viu Teca e Anthony?). Políticas públicas que melhora a vida das pessoas. Interações ocasionais com porteiros e pessoais em geral. Proporcionam pequenos povoados artificiais para idosos. Com centro médico, praça de alimentação, e promovem encontros. A solidão existe como função do nosso ambiente. Sair para interagir com pessoas , um remédio que se opõe ao sentar e assistir TV. Não se consegue viver sozinho. Criar moradias de proximidade, pais e filhos, o que se opõe veementemente às Casas de Repousos, impessoais e tristes. O investimento econômico de adesão gera mais saúde e se constitui num benefício humano.

Setembro foi o mês Amarelo/Saúde Mental, e vejo ao meu redor muita gente com depressão, ansiedade, e outras doenças da alma. Nesse filme, e a vida nesses lugares, todos os espaços do corpo e do espírito são preenchidos com sabedoria. Comida, descanso, pausa, tempo, diversão, comunhão, compartilhamento, olhar ao outro, sono, trabalho, propósito, destino, ritmo lento, e amor.

Eu que já estou quase dobrando outro cabo da esperança, vivo a pensar na vida. Nas realizações, nas faltas, nas conquistas, no tempo do dia, nos prazeres, nos amigos, no social que falta, no que sobra, nas recusas, nos filhos, e no bem estar deles, nas minhas responsabilidades, ou nas ausências, mas principalmente no amor, aquilo que nos define aqui e lá. Jovem ou velho. Nesta ou em qualquer outra vida.

O filme é fantástico. Conhecer esses mundos, esses povos e as suas vidas, nos mostra o que temos ou deixamos de ter. Sem reclamar, sem ser rabugento, sem amarguras, azedumes, mágoas ou recalques. Isso sim, nos faz adoecer e viver pouco e ruim. Viva as zonas azuis!

A mitologia da Grécia Antiga era transmitida oralmente e registrada pela escrita e manifestada por meio da arte para compreender o Univ...

Intolerância e autodestruição

mitologia proscuto inveja intolerancia
A mitologia da Grécia Antiga era transmitida oralmente e registrada pela escrita e manifestada por meio da arte para compreender o Universo e a natureza, como por exemplo, a existência e o propósito da vida humana. A literatura erudita auxilia na compreensão das tradições culturais e científicas que contribuem nas criações das identidades dos povos ao longo dos séculos. Essas referências analisam conceitos e são aplicados aos costumes, seja nas ciências humanas ou exatas, e são frequentemente encontradas na intertextualidade, que estabelece relações de significado entre um texto e outro, ou na transtextualidade, quando o texto vai além dos seus próprios aspectos e interage com outros textos.

Eusébio tinha obsessão pela língua portuguesa. Desde moço lia Eça, Rui, Camilo, que para ele eram os expoentes do idioma. A leitura dos...

Traição

casamento gramatica
Eusébio tinha obsessão pela língua portuguesa. Desde moço lia Eça, Rui, Camilo, que para ele eram os expoentes do idioma. A leitura dos clássicos incutira-lhe a ideia de que o uso do vernáculo devia ser apurado e solene. Nada de plebeísmos, nada da vulgaridade com que os incultos o maltratam no dia a dia.

Para Eusébio uma silabada, uma concordância malfeita, um pronome mal colocado eram crimes de lesa-pátria. Certa vez recusou-se a assinar um documento

Stefan Zweig tinha predileção por eles. Aos vitoriosos, preferia os perdedores, maiores e menores, não importava. Por isso, biografou...

Fascínio pelos perdedores

Stefan Zweig tinha predileção por eles. Aos vitoriosos, preferia os perdedores, maiores e menores, não importava. Por isso, biografou e perfilou de Maria Antonieta, a rainha guilhotinada, a Sebastião Castellio, personagem pouco conhecido que teve a coragem de enfrentar o todo-poderoso Calvino – e perdeu, claro. Nos livros desse austríaco triste que conheceu a glória e o exílio, os perdedores ganharam a compreensão e a admiração da posteridade, o que, no fim, não deixa de representar a melhor e mais definitiva vitória.

Na próxima quinta-feira (26), pela manhã, irei autografar meus dois livros: "Encontro com Consciências - Diálogo da unidade c...

Meus livros em exposição

espiritismo literatura espirita paraibana
Na próxima quinta-feira (26), pela manhã, irei autografar meus dois livros: "Encontro com Consciências - Diálogo da unidade com a diversidade" (2004) e "Infinito Amor: a Síntese da Vida" (2019), em stand, no pátio do estacionamento do centro administrativo estadual. O evento integra a programação da Semana do Servidor, promovida pela Secretaria de Estado da Administração.

Gosto, sempre gostei de anotar. Passando as folhas de um caderno de 2006 encontro essa fineza de recomendação num manual de jornalismo...

Negros, e daí?

raca preconceito discriminacao afrodescendente
Gosto, sempre gostei de anotar. Passando as folhas de um caderno de 2006 encontro essa fineza de recomendação num manual de jornalismo que evito classificar: “Não dizer negro, mas afrodescendente.”

Pergunto eu: a ofensa ao negro não será mais ostensiva? O afrodescendente esconde a cor ou o preconceito?

"Nasci Nasceu Cresceu Namorou Noivou Casou. Noite nupcial. As telhas viram tudo. Se as moças fossem telhas não se casariam."...

Anayde: o rosto feminino da Revolução de 30

anayde beiriz feminismo historia paraiba
"Nasci Nasceu Cresceu Namorou Noivou Casou. Noite nupcial. As telhas viram tudo. Se as moças fossem telhas não se casariam."
Anayde Beiriz

Esse poema foi um dos poucos que chegaram até nós da poetisa paraibana Anayde Beiriz. Foi engolida pelas turbulências da Revolução de 1930, movimento desencadeado quando seu noivo, o advogado João Dantas, assassinou João Pessoa, em 26.07.1930.

Nunca executara aquela cantiga do bom ouvir em planícies nem desertos. Porque o cantar já não lhe apetecia ou o uivo imenso de um lobo ...

O velho lavrador

cronica paraibana velhice solidao
Nunca executara aquela cantiga do bom ouvir em planícies nem desertos. Porque o cantar já não lhe apetecia ou o uivo imenso de um lobo isolado em suas meditações impedia imitar o passarinho engaiolado perto do quarto. O quarto onde curtia dores martelando na bigorna de seus ferimentos. Tanto trabalhara no roçado, as mãos inchadas, os pés rachados, a face riscada de rugas pela inclemência do sol. Escutava, ao longe, a sanfona tocada pelo compadre, o fole puxando o forró que ficara famoso nos fins de semana.

Quando o verde dos teus olhos Se espalhar na plantação Eu te asseguro, não chores não, viu Eu voltarei pro meu sertão. Luiz Gonzaga e H...

Quando o verde dos teus olhos...

sertao jacarei
Quando o verde dos teus olhos Se espalhar na plantação Eu te asseguro, não chores não, viu Eu voltarei pro meu sertão.
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Está aí uma metáfora vigorosa que retrata a mágica transformação que se processa nas paisagens do semiárido nordestino quando o verão inclemente vai dando lugar às primeiras chuvas na estação das águas.

O panorama pintado em cor de pátina ou de um marrom mortiço, vai tomando vida e nem vão lá muitos dias para que o cenário vá se esverdeando num testemunho inconteste do milagre da vida. É o verde “daqueles olhos” se espalhando na plantação.

Uma drosophila melanogaster , a popular mosca da fruta, apela para o álcool como uma maneira de compensação a sua carência de sexo. J...

De que importa saber o que é literatura?

helder moura arqueologia noite poesia leitura
Uma drosophila melanogaster, a popular mosca da fruta, apela para o álcool como uma maneira de compensação a sua carência de sexo. Já as drosophilae que estão saciadas sexualmente passam ao largo da tigela de mingau adicionada de 15% de etanol. Esta é a conclusão a que chegou um grupo de cientistas, a partir de uma experiência feita com 2 grupos de moscas dessa espécie. O primeiro grupo copulou com moscas virgens; o segundo grupo foi sistematicamente rejeitado pelas moscas, agora, fecundadas. Observou-se, então, que o grupo de machos fecundadores tinha um nível alto de um hormônio no cérebro, que os cientistas denominaram de neuropeptídeo F (NPF); o grupo de machos rejeitados, por sua vez, tinha um nível baixo do NPF, buscando no mingau adicionado com etanol uma compensação,

O PRESENTE O pacote chegou de manhã. Nenhuma referência ao remetente. Abri-o, mecanicamente. Bem na frente, um bilhete: “Antes de...

Arco-íris

poesia paraibana marineuma oliveira

O PRESENTE

O pacote chegou de manhã. Nenhuma referência ao remetente. Abri-o, mecanicamente. Bem na frente, um bilhete: “Antes de morrer, ele me pediu para devolver as cartas que você lhe escreveu”. Nós nos conhecemos na quermesse. Era a primeira vez que aparecia na cidade. Vinha a trabalho, de passagem. Seus beijos, os únicos que experimentei na vida. Desse modo foi até a correspondência cessar, sem que ele voltasse uma vez sequer. Lembrei, com amargura, das últimas palavras que dissera a mim, num sussurro, por ocasião da despedida: “Talvez eu tenha encontrado quem procurava”. Toquei fogo no embrulho e fui tomar café.

Sempre que o STF decide qualquer questão com base no parágrafo 4º do artigo 60 da nossa Constituição é comum vermos os arreganhos de ...

São Thomas More em Brasília

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Sempre que o STF decide qualquer questão com base no parágrafo 4º do artigo 60 da nossa Constituição é comum vermos os arreganhos de ignorância de alguns parlamentares ameaçando modificar tais entendimentos através de uma PEC. O analfabetismo deles não compreende o que são cláusulas pétreas.

Meu amigo pensou em matar de inveja o casal da Pensilvânia de quem a menina mais velha foi hóspede no transcurso de um desses programa...

Vai um araticum, aí?

frutas brasil araticum
Meu amigo pensou em matar de inveja o casal da Pensilvânia de quem a menina mais velha foi hóspede no transcurso de um desses programas de intercâmbio. A coisa funciona assim: você despacha a filha com visto de intercambista para os Estados Unidos, França, Inglaterra, Austrália, ou outro País onde isso exista, à escolha dela. Já ali, a garota pode estudar por 12, ou 24 meses, sob a proteção e o abrigo de uma família anfitriã, de pais temporários, a bem dizer. Em troca, ela cuidará de crianças, seus irmãos ocasionais, e ajudará nas tarefas domésticas.

Geralmente, quando se fala em invasão holandesa no Nordeste, nos remetemos sempre a Pernambuco. Porém, é inegável a participação de Pot...

Pedro Poty

indios holandeses historia paraiba
Geralmente, quando se fala em invasão holandesa no Nordeste, nos remetemos sempre a Pernambuco. Porém, é inegável a participação de Potiguaras paraibanos que se aliaram aos batavos. Costuma-se minimizar a influência dos holandeses na Paraíba, pelo "curto" período de 20 anos que aqui passaram.

Estou ainda para ler "História das Lutas com os Holandeses no Brasil" de Varhagen. Ficará como leitura para o recesso forense.

A luz brilhava no céu feito a ponta de um lápis marcando uma página de azul escuro. A luminosidade fazia uma longa curva. Os olhos mal ...

Várias luzes

guerra luzes ceu misseis
A luz brilhava no céu feito a ponta de um lápis marcando uma página de azul escuro. A luminosidade fazia uma longa curva. Os olhos mal puderam perceber o rabisco do corpo celeste em deslocamento. Beleza celestial. De volta à terra e a pseudo normalidade, a visão era de uma paz tranquilizadora. Os espaços vazios entre as cidades assemelhavam-se como vácuos da loucura humana, um intervalo para apenas observar a calmaria, escutar o silêncio. Logo, as luzes artificiais ofuscarão o céu e impossibilitarão observar as infinitudes do espaço.

A deusa de róseos dedos põe cores no céu da Califórnia enquanto leio “I am” (Eu sou), de John Clare. Tristeza, solidão e o desejo de...

Tristeza, solidão e o desejo de encontrar a paz

crepusculo arvores solidao paz
A deusa de róseos dedos põe cores no céu da Califórnia enquanto leio “I am” (Eu sou), de John Clare. Tristeza, solidão e o desejo de encontrar a paz são os temas desse rico poema, talvez o mais famoso de Clare, um romântico inglês do século dezenove que escreveu seus versos enquanto estava internado em um hospital psiquiátrico. As palavras pungentes me comovem e eu me deixo conduzir. Aprendi recentemente uma nova economia, a das lágrimas: entrego-as tão-somente como tributo aos que me iluminam. O mal que me fazem ou as dores do corpo não merecem receber a emoção líquida que habita os meus olhos. Evito ao máximo desperdiçá-la com autopiedade ou rancor.

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K. MacKinnon
Tantas coisas me ocorrem diante da beleza agoniada dos versos escritos há mais de 150 anos. “Eu sou – mas o que eu sou ninguém sabe” e “mesmo os mais queridos, os que eu mais amei, são estranhos – mais estranhos que os demais” soam familiares a tantos humanos que anseiam por ser compreendidos. Conhecer o vasto e tortuoso território do coração alheio é ilusão que a realidade e a maturidade retiram. Não é apenas o poeta deprimido que se sente um estranho para os amados. Cá estamos nós todos carregando a solidão do ser e, à medida que envelhecemos, cada vez mais conscientes de que a riqueza dos fios entrelaçados que compõem o nosso espírito é captada superficialmente, como um novelo de muitas linhas que, visto de longe, permite identificar apenas um ajuntamento de cores e o formato redondo.

“Eu sou o autoconsumidor das minhas aflições” é um verso que gosto demasiado. Diz tanto sobre o hábito de cultivar e aprofundar as dores. Clare transita pelas flutuações da mente, expondo o tormento das sombras que surgem e desaparecem: agonias delirantes e sufocadas do que chamamos amor – esse tão ansiado sentimento que, mal se assenta à nossa mesa com seu cortejo de plumas e canções, não raro é convertido em chicote e espada. Prova máxima da nossa vocação para o paradoxo, o auto boicote ou a estupidez.

Ponho os versos mais sofridos de John Clare na conta da depressão do poeta. Assim como van Gogh e Virginia Woolf, Clare batalhava contra a própria mente. Transpôs tudo para versos impactantes (“no mar vivo dos sonhos despertos não há sentido da vida
crepusculo arvores solidao paz
G. Ritchie
ou alegrias”) e depositou suas esperanças em um futuro pós-morte, em que adormeceria docemente, como na infância, aconchegado nos braços de seu Deus, em cenários tecidos de sonho e jamais tocados pelas paixões humanas. Um lugar em que se deitaria, imperturbável, sentindo a grama abaixo do corpo, e tendo acima a abóbada do céu. Tal imagem me remete a outra cena criada por um escritor brilhante, Liev Tolstoi, em “Guerra e Paz”: a do príncipe Andrei caído no campo de batalha, sereno, contemplando o céu azul, pondo a existência em perspectiva, focado no que realmente importa.

Retiro da ordem e subverto o sentido de um verso para encerrar este texto: “E, ainda assim, eu sou e vivo”. Afasto as tristezas do poeta e celebro a minha própria vida, transbordando de gratidão por esse tempo curto em que experimento a alegria única de existir.

Eu sou. Eu vivo. Nas minhas veias ainda flui o sangue, meu rosto se ruboriza de prazer ou de vergonha, carrego experiências únicas. Eu sou um mundo semidesconhecido, um planeta inteiro de sonhos e tropeços, que gira como bailarino em uma galáxia imensa. Ao meu redor há tantos vizinhos. Neles percebo a vida pontuada por delícias, aflições e espantos. Não disfarço o encantamento. Nada pode ser mais fascinante que estar aqui, agora, testemunhando o teatro cósmico, pleno de som, fúria e flertes com a felicidade.

Propondo-se a uma arqueologia da noite, Helder nos conduz poeticamente a um mergulho no escuro de que nos constituímos e que é a próp...

Os Noturnos de Helder

poesia paraibana helder moura arqueologia noite
Propondo-se a uma arqueologia da noite, Helder nos conduz poeticamente a um mergulho no escuro de que nos constituímos e que é a própria luminosidade em sua força mais intensa. A noite remete à tragicidade própria da existência, à questão do nada, do abismo no qual estamos suspensos, como finitos que somos, mas do qual fugimos, perdidos na agitação incessante e superficial da vida pública, impessoal.

OS INFLUXOS PERENES DA VOCAÇÃO MÉDICA Toda carreira exige, é evidente, seja ela qual for, uma série de predicados daquele que pretend...

Minha homenagem alusiva ao Dia do Médico

gregorio maranon medicina humanista dia medico
OS INFLUXOS PERENES DA VOCAÇÃO MÉDICA

Toda carreira exige, é evidente, seja ela qual for, uma série de predicados daquele que pretenda exercê-la, para dar cabal desempenho às suas obrigações. Mas a medicina é, sem a menor dúvida, a que reclama, mais do que qualquer outra, maior soma de predicados específicos para bem desempenhá-la. Além disso, o seu exercício implica em dedicação plena, abnegação, desprendimento e espírito de sacrifício. Ao demais, deverá ainda o médico possuir sólidos conhecimentos básicos, técnica apurada, apego à investigação científica e amor ao próximo.

No livro O futuro do ódio (2008), o psiquiatra e psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun (1945) analisa o embrutecimento humano e o dese...

Invisibilidade do ódio

raiva desespero inveja
No livro O futuro do ódio (2008), o psiquiatra e psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun (1945) analisa o embrutecimento humano e o desejo ao crime. Sobre o tema, o autor afirma:

“O ódio está lá, na vida cotidiana, nas cóleras, na violência, na agressividade, claro, mas também nos enganos,

Na redação de A União, onde repousei minhas esperanças de repórter, Carlos Aranha se revelou guru para jovens, dando-nos o prazer ...

A ideia é outra

carlos aranha jornalismo paraibano tropicalismo
Na redação de A União, onde repousei minhas esperanças de repórter, Carlos Aranha se revelou guru para jovens, dando-nos o prazer de ouvir sua conversa. Alegrávamos com o que saia de sua boca. Alguns não eram do meio, mas outros aspiravam seguir a profissão de jornalista.

Em meio à turbulência e caos de uma guerra, é necessário lembrar daquilo que muitas vezes passa despercebido: as famílias que estão p...

Em uma guerra todos perdem

guerra humanidade destruicao
Em meio à turbulência e caos de uma guerra, é necessário lembrar daquilo que muitas vezes passa despercebido: as famílias que estão por trás dos "lados" envolvidos nesse conflito. É fácil olhar para um campo de batalha e ver apenas os vencedores e perdedores, mas a realidade é muito mais complexa.

Josué Montello dizia que escrever para jornal exig...

Dos humores da crônica

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Josué Montello dizia que escrever para jornal exige sobretudo disciplina. Não apenas a disciplina de se sentar semanalmente diante do computador e produzir o texto, mas o exercício diário de observar os fatos, as pessoas, e atentar no ritmo tumultuário da vida. Pois jornal é instante, urgência, celebração contraditória do hoje. O mesmo pode se dizer dos blogs e portais coletivos cujos colaboradores (a grande maioria no exercício da crônica) prolongam e às vezes revigoram essa vertente jornalística.

Com o passar do tempo construímos nossos lares e relações humanas, temperando com expressões populares baseadas em acontecimentos curio...

Nau dos Quintos

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Com o passar do tempo construímos nossos lares e relações humanas, temperando com expressões populares baseadas em acontecimentos curiosos, que carregam muita história e verdades. Nosso folclore mostrou caminhos que levaram à literatura e modificou o comportamento do povo, desenhando estradas baseadas em vidas doloridas e marcantes, ao ponto de expressões curiosas se tornarem de uso muito frequente.

A filosofia de Leibniz é de discussão problemática, uma vez que grande parte de sua obra é fragmentária, faltando-lhe, muitas vezes,...

Leibniz e a Contemporaneidade (conclusão)

leibniz filosofia

A filosofia de Leibniz é de discussão problemática, uma vez que grande parte de sua obra é fragmentária, faltando-lhe, muitas vezes, o devido cuidado de um processo de revisão, que poderia eliminar do corpo de sua obra certas inconsistências e incongruências. De outra banda, Leibniz aceita a lógica aristotélica de sujeito-predicado, o que, de certo modo, confundiu, para o público em geral, o sentido de seus estudos sobre a lógica matemática, tendo boa parte de sua obra produzida nesse campo vindo à tona somente no início do século XX. Uma de suas concepções

Neste 12 de outubro de 2023 o escritor Fernando Sabino, se vivo fosse, estaria completando cem anos de nascimento. Em condições norm...

O romance que destruiu o romancista

fernando sabino zelia cardoso mello livro
Neste 12 de outubro de 2023 o escritor Fernando Sabino, se vivo fosse, estaria completando cem anos de nascimento. Em condições normais, imagino que a data talvez viesse a ser não apenas lembrada mas também celebrada nos meios culturais brasileiros, dada a importância do mineiro nas letras nacionais. Acontece que, como bem sabem alguns, as condições desse centenário não são propriamente “normais”, dada a catástrofe literária que se abateu sobre o autor com a publicação, em 1991, de seu livro Zélia,
fernando sabino zelia cardoso mello livro
uma paixão (Editora Record, Rio de Janeiro, 1991), cujo imaginoso subtítulo era “Romance da figura mais surpreendente de nossa vida política nos últimos tempos”. Essa figura, que na verdade não tinha nem tem nada de romanesca, é a ex-ministra da Economia no governo de Fernando Collor, Zélia Cardoso de Mello, de triste memória, ressalte-se.

      Coisa estranha é o amor Quando te falava que teu corpo não era o mais importante que nossos sentimentos eram mais valio...

Coisa estranha é o amor

poesia paraibana vania farias castro
 
 
 
Coisa estranha é o amor Quando te falava que teu corpo não era o mais importante que nossos sentimentos eram mais valiosos Não acreditavas. Querias ser forte, jovem e viril Ainda não entendias de amor platônico Do amor que existe, que é correspondido mas que o corpo pode ser irrelevante.

A herança é a maneira mais pertinente de formar uma biblioteca (Walter Benjamin, Desempacotando minha biblioteca ) À pergunta ...

Para quem ama livros e quadros

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A herança é a maneira mais pertinente
de formar uma biblioteca

(Walter Benjamin, Desempacotando minha biblioteca)

À pergunta que alguém me fez recentemente diante das minhas estantes cheias de livros - A senhora já leu todos esses livros? - dei a seguinte resposta: li muitos desses livros para escrever textos, outros fiz apenas a leitura de determinados capítulos e há aqueles que permanecem fechados aguardando a hora da leitura. Foi essa pergunta que me conduziu até ao ensaio de Walter Benjamin, Desempacotando minha biblioteca. Um discurso sobre o colecionador, inserido no livro Rua de mão única. Ele conta que está desempacotando os livros de sua biblioteca e afloram muitos pensamentos e lembranças.

No prédio do Tribunal de Justiça da Paraíba, até algumas décadas atrás — segundo me contou certa vez o historiador Humberto Mello —, ha...

100 anos do amor trágico de Ágaba e Sady

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No prédio do Tribunal de Justiça da Paraíba, até algumas décadas atrás — segundo me contou certa vez o historiador Humberto Mello —, havia um buraco provocado por um dos tiros desferidos contra Sady Castor.

Em 22 de setembro de 2023, a tragédia de amor de Ágaba de Medeiros, normalista de 16 anos, e Sady Castor, estudante do Lyceu Parahybano, morto aos 23 anos, completou 100 anos. No dia 22 de setembro de 1923, Sady foi assassinado na atual Praça Joao Pessoa, onde estudantes do Lyceu Parahybano e da Escola Normal se encontravam. O Lyceu funcionava no prédio que posteriormente serviu à Faculdade de Direito da UFPB; a Escola Normal é o atual edifício do TJ da Paraíba, no centro histórico da capital do estado.

Rótulos são inevitavelmente limitantes. Qualquer um. Por vezes eivados de classificação preconceituosa, quando não equivocados, viraram...

Rótulos, estilos e conceitos

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Rótulos são inevitavelmente limitantes. Qualquer um. Por vezes eivados de classificação preconceituosa, quando não equivocados, viraram moda. Hoje rotula-se, generaliza-se, classifica-se tudo, um festival de sectarismo.

Vivemos tempos cascudos, no Brasil e no mundo. Lá fora, uma guerra sanguinária, desencadeada por quem só tem ódio no coração, e que vem...

Façam um desejo! A turma de medicina de 1978

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Vivemos tempos cascudos, no Brasil e no mundo. Lá fora, uma guerra sanguinária, desencadeada por quem só tem ódio no coração, e que vem agindo com pura crueldade. E levada adiante por quem tem o coração também empedernido.

Ela afeta principalmente quem não tem culpa de nada, e que não pode se defender. Muito cruel, mesmo.

Vim ver quem era Sivuca na casa de Nathanael Alves. Ele voltara dos Estados Unidos, onde havia experimentado a fama internacional, e...

O grande Sivuca

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Vim ver quem era Sivuca na casa de Nathanael Alves. Ele voltara dos Estados Unidos, onde havia experimentado a fama internacional, e viera matar a saudade de sua Itabaiana na casa de Félix Galdino, vizinhos de sítio. Félix era vizinho de Nathanael, aqui em Tambauzinho, e como era lá que nos reuníamos todos os sábados à noite, arrastamos Sivuca para o nosso papo. Um papo que não se repetirá mais neste mundo. Como se vê, eram Nathanael, Ednaldo do Egito, José Souto, ás vezes Durval Leal, e o Félix já citado, todos na comissão de recepção da então última turnê de Sivuca.

Os capítulos II e III de “A Terra” são curtos, em relação aos outros três que ajudam a compor a primeira parte de Os sertões . Este tra...

Os sertões, um livro didático (Parte III)

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Os capítulos II e III de “A Terra” são curtos, em relação aos outros três que ajudam a compor a primeira parte de Os sertões. Este trata do clima e de suas variações, durante o período de estio, “no fastígio das secas” entre “dias queimosos e noites enregeladas” (Capítulo III, p. 38); aquele trata da topografia, desdobrando-se na orografia e na hidrografia. Euclides da Cunha chega a falar das “influências recíprocas” entre a topografia e o clima do sertão, sem que possa “afirmar qual o preponderante”, mas ciente de que o “perene conflito feito num círculo vicioso indefinido,

BACALHAU DA PAIXÃO Sexta-feira Santa. A família, em burburinho infernal, estava à mesa para comer peixe. Para o filho doente, a m...

Não sinto gosto de nada

conto literatura paraibana marineuma oliveira

BACALHAU DA PAIXÃO

Sexta-feira Santa. A família, em burburinho infernal, estava à mesa para comer peixe. Para o filho doente, a mãe fez bacalhau, mesmo com o preço do quilo a exorbitar. Cada um que dissesse do que mais gostava, dentre as comidas ali expostas. Menos ele. Engolia devagar, taciturno, talvez constrangido de ter iguaria diferenciada só para si. Até que, num átimo de silêncio, falou: “Deve estar uma delícia esse bacalhau”. Alguém inquiriu: “Deve estar?!”. Ao que redarguiu: “Desde que o câncer se instalou e precisei fazer o tratamento, não sinto gosto de nada”. Todos voltaram a seus pratos. E comeram calados.

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DE AMORES PROVISÓRIOS

Jamais quis criar animal algum. Não cogitava se apegar a um ser que certamente iria viver menos do que ela. Preferia não se comprometer. A neta ganhou um cãozinho. Deixou-o com ela, sem pedir licença, alegando que a avó morava só, numa casa espaçosa, entre jardim e quintal. A rotina assim se estabeleceu: colocar comida, trocar a água da vasilha, retirar o cocô da caixa de areia e dar banho, uma vez por semana. Dele não gostava nem desgostava. Apenas o aturava, sem sentimentos nem aproximações. Juntos, no entanto, passavam horas a fio, estando ele na beira do fogão, ao pé da máquina de costura ou dormindo no tapete ao lado de sua cama. Isso até o cão adoecer e morrer. Para surpresa de si mesma, uma lágrima correu no canto de cada olho. Agora, sozinha de tudo, resmungava: “Bem que eu não queria bicho aqui”.

Berkay Gumustekin

O ENCONTRO

Estava decidido a morrer naquela noite. A questão era como. Queria uma morte perfeita, sem dores, sangue jorrando, danos a outrem e vestígios. Cansara de ser um velho sozinho, doente e sem ânimo para lutar contra o que lhe oprimia o peito. Chovia fino e, enquanto caminhava a esmo, arquitetava. Foi quando a viu num cantinho escuro, por trás de uma lata de lixo, tremendo de frio e, agora, de medo também. Ela quis se esquivar, para se proteger de uma possível agressão, o que já lhe era natural. O homem se abaixou, pegou-a no colo e a protegeu, entre a camisa de algodão e o surrado casaco de lã. Naquela noite, ela não miou desesperadamente. Ele não mais pensou em se matar.

conto literatura paraibana marineuma oliveira
Mourad Saadi