POEMAS DO LIVRO “SONETOS EM CRISE”
(Editora Mondrongo – 2019)
Nota do autor
Crise do soneto ou crise do poeta? Falamos da imperfeição métrica, da inacurácia do esteta ou da pobreza técnica?
Impor-se a necessidade das formas fixas, de por “amarrados” os versos que se firmaram como libertos ao longo dos anos de produção poética – este o objetivo do poeta.
30.9.24
Bem aventurados os corajosos de plantão que seguem incontidos na emoção de uma nova experiência lúdica ou fugaz, para suas vidas, rest...
Bem aventurados os corajosos de plantão que seguem incontidos na emoção de uma nova experiência lúdica ou fugaz, para suas vidas, restando-lhes apenas enfileirar uma delas, na vez, oportunizada pela insistência.
30.9.24
A estética da subjetivação do “cuidar de si” refere-se ao processo de constituição da pessoa, no qual ela desenvolve um senso de perten...
A estética da subjetivação do “cuidar de si” refere-se ao processo de constituição da pessoa, no qual ela desenvolve um senso de pertencimento por meio de práticas estéticas, éticas e políticas, influenciando a formação da subjetividade. Filósofos franceses como Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995) contribuíram para os estudos sobre autocuidado, mostrando como ele se modifica ao longo do tempo, transformando os modos de pensar e de ser da existência humana. Esse processo envolve a interação da pessoa com a ética do cotidiano, priorizando a criação de valores próprios e a resistência contra normas e ideologias repressoras. Entre as principais características estéticas e subjetivas do “cuidar de si”, destacam-se:
30.9.24
Na capa do livro, logo abaixo do título, está escrita em letras pequenas mas perfeitamente visíveis a palavra ficção. Vejam bem. N...
Na capa do livro, logo abaixo do título, está escrita em letras pequenas mas perfeitamente visíveis a palavra ficção. Vejam bem. Não se optou por romance, novela ou memórias, mas por... ficção. E no entanto não é bem assim. Que há ficção, há, mas também, e talvez em maior parte,
29.9.24
Todos sofremos desencantos e passamos por momentos desafiadores, em temporadas de dificuldades que, às vezes, demoram um pouco mais.
Setembro era o mês de Nathanael Alves, 11 de setembro o seu dia. Se vivo fosse estaríamos levantando o cálice a estes 90 anos. Cálice, que sugere muitos sentidos, desde o sagrado aos extremos da dor.
29.9.24
Empoderamento. Neologismo criado por Paulo Freire que tem origem no termo inglês “empowerment” que define um conceito fundamental ...
Empoderamento. Neologismo criado por Paulo Freire que tem origem no termo inglês “empowerment” que define um conceito fundamental para entender as aspirações de alguns movimentos sociais. Esta é uma palavra que, para mim, de tão falada, logo começará a perder a força; o poder que ela deveria ter. Mas, como é a palavra do momento, vamos ter de ouvi-la muitas e muitas vezes ainda.
29.9.24
Descobri uma preciosidade. Pense num privilégio de desfrutar do convívio diário com o nosso ilustre escritor e político paraibano, Jos...
Inédito: Dr. Ítalo Kumamoto e a convivência com José Américo de Almeida
Descobri uma preciosidade. Pense num privilégio de desfrutar do convívio diário com o nosso ilustre escritor e político paraibano, José Américo de Almeida, durante a sua última década de vida. Muito mais que privilégio, isso foi uma honra para nosso renomado cardiologista Dr. Ítalo Kumamoto.
28.9.24
A configuração normal em língua portuguesa é SVO (sujeito-verbo-objeto). Qualquer alteração nessa ordem, por menor que seja, pode p...
A configuração normal em língua portuguesa é SVO (sujeito-verbo-objeto). Qualquer alteração nessa ordem, por menor que seja, pode perturbar a compreensão do falante. Uma frase simples como “Chegou o trem”, em que o sujeito é posposto, numa pequena alteração da ordem sintática, pode levar o falante a acreditar que “o trem” seja o objeto direto de “chegou” e não o sujeito.
28.9.24
Viva, Baubo! Não há nada mais feminino do que o humor erótico e sujo. Por que as mulheres aprenderam a se envergonhar disso? Por que ...
Viva, Baubo! Não há nada mais feminino do que o humor erótico e sujo. Por que as mulheres aprenderam a se envergonhar disso? Por que falaram que isso é feio para mulheres? A Mitologia Grega e a Japonesa (Usume) nos trazem as Deusas do Humor (Erótico sobretudo) que salvam o mundo da melancolia, tristeza, da morte. Foi Baubo a única que tirou Deméter de seu sofrimento e depressão.
28.9.24
O motor ainda não havia esfriado. Pudera, depois de uma considerável quantidade de quilômetros de percurso, o anjo de duas rodas apen...
O motor ainda não havia esfriado. Pudera, depois de uma considerável quantidade de quilômetros de percurso, o anjo de duas rodas apenas descansava, imaginando recuperar-se para outra viagem adiante.
28.9.24
O eu-lírico, na poesia de Augusto dos Anjos, não é pessimista in totum , embora possamos detectar um certo grau de pessimismo, ...
O eu-lírico, na poesia de Augusto dos Anjos, não é pessimista in totum, embora possamos detectar um certo grau de pessimismo, por exemplo, no soneto “Psicologia de um Vencido”. Há, no entanto, uma causa plausível para isso, determinada pela situação de que o eu-lírico toma consciência.
27.9.24
Talvez os leitores lembrem de uma história que contei sobre um americano que chega numa pequena cidade, procura a pensão xexelenta e...
Talvez os leitores lembrem de uma história que contei sobre um americano que chega numa pequena cidade, procura a pensão xexelenta e adianta mil reais por um mês de aluguel pelo único quarto existente. Na sequência o dono da pensão vai até o supermercado e quita sua dívida de exatos mil reais. Por sua vez, o dono do supermercado vai até o açougue e paga o que deve, no mesmíssimo valor. Segue-se uma sequência de devedores pagando aos seus fornecedores até que a dona do cabaré recebe dos donos da farmácia os mil reais que eles deviam à custa de frequentarem suas moças. Ela vai à pensão onde periodicamente alugava aquele mesmo quarto do americano para exercer seu mister e quita sua dívida no valor de mil reais. Logo em seguida o americano procura o dono da pensão, diz que não pode ficar ali, pega seus mil reais que dera para pagar antecipadamente o aluguel do quarto e vai embora.
27.9.24
A última chuva abraça a primavera trazida por ventos que lembram agosto. Contudo, as pessoas continuam a seguir em frente...
A última chuva abraça a primavera trazida por ventos que lembram agosto. Contudo, as pessoas continuam a seguir em frente alheias às passadas do tempo. Flores, carros e relógios são dispositivos da vida rumo a uma finitude desconhecida, por mais que se finjam certezas sobre o instante seguinte ao fechar os olhos.
27.9.24
“Cego danado, esse Geminiano. Já velho roubou moça para casar e deu dois bacharéis a Pilar”. O comentário do Coronel José Paulino...
“Cego danado, esse Geminiano. Já velho roubou moça para casar e deu dois bacharéis a Pilar”. O comentário do Coronel José Paulino assaltou a lembrança do menino Carlinhos, personagem autobiográfico do romancista José Lins do Rego, ao contemplar do trem um sobrado antigo à beira da linha férrea entre os municípios de Pilar e Itabaiana, na zona agropastoril do Baixo Vale do Rio Paraíba.
26.9.24
Para meu filho Lucas Foi em 1985. Estava com o meu primeiro filho, Lucas, com pouco mais de um ano. Mas tomei coragem e deixei-o na ...
Foi em 1985. Estava com o meu primeiro filho, Lucas, com pouco mais de um ano. Mas tomei coragem e deixei-o na casa da minha mãe, com toda a infra necessária. Partimos eu, o pai de Lucas, e mais um casal amigo. De carro, rumo ao Rio. Lá ficaríamos hospedados na casa do amigo, Zé Palhano, na Tijuca, e outros chegariam. Juca, o meu futuro companheiro também viria de São Paulo onde morava na época.
26.9.24
A vida é uma caminhada repleta de altos e baixos, onde cada experiência, seja positiva ou negativa, tem um papel fundamental em nossa ...
A vida é uma caminhada repleta de altos e baixos, onde cada experiência, seja positiva ou negativa, tem um papel fundamental em nossa formação e crescimento pessoal.
26.9.24
Acabo de ler Rita Lee: uma biografia (GloboLivros, 2016), já em sua 17ª impressão. Consta-me que teria já vendido, contando todas ...
Acabo de ler Rita Lee: uma biografia (GloboLivros, 2016), já em sua 17ª impressão. Consta-me que teria já vendido, contando todas as edições, mais de 400 mil cópias, o que é um estrondoso sucesso editorial, aqui, em terras tupiniquins.
Rosariumpara Jeannette Priolli
Portal da Coroa de Rosas
Íntimo ritual sagrado
corola da rosa fechada
nas pétalas orvalha o segredo
o beijo do olhar guardado
mistérios da luz
25.9.24
Bem, é só um pequenino momento fotográfico. Em poses, uns de pé, outros sentados. Não me lembro quem acionou a Kodak. Um de nós. Ficou...
Bem, é só um pequenino momento fotográfico. Em poses, uns de pé, outros sentados. Não me lembro quem acionou a Kodak. Um de nós. Ficou ausente do grupo, da turma do ginásio. Sei que a pequenina foto me carregou à Praça São Francisco e de olhos úmidos. Revolvi a cena tão passageira, desinteressante a quem está lendo esta crônica. Mas volto atrás: quase todos tiveram esses encantos grupais dos colegas de escola. Duvido que, me lendo agora, deixe de retroagir no tempo e captar a cintilação, mesmo rápida, de algum lugar no passado.
25.9.24
Perguntaram-me qual é a minha métrica para escolher livros. Fiquei pensativo, porque nunca parei, de fato, para “medir” as escolhas...
Perguntaram-me qual é a minha métrica para escolher livros. Fiquei pensativo, porque nunca parei, de fato, para “medir” as escolhas que faço no âmbito da minha bibliomania. Mania se mede? Reflito, então, que os livros mais marcantes foram justamente aqueles que me escolheram e não os escolhidos. Na nossa vida de leitores, há livros que são imprescindíveis, dado que são clássicos, essenciais para a formação acadêmica, de professores a advogados, passando por psicólogos,
24.9.24
Os escritores José Américo de Almeida e José Lins do Rego eram amigos inseparáveis. Entre ambos, existia uma amizade literária que per...
Os escritores José Américo de Almeida e José Lins do Rego eram amigos inseparáveis. Entre ambos, existia uma amizade literária que perdurou por toda a vida. Amizade transformada pela confidência pessoal, pelo aconselhamento.
24.9.24
Meu caro amigo e confrade José Mário. Inicio agradecendo a sua participação, mesmo estando distante, no meu curso, Uma Introd...
Inicio agradecendo a sua participação, mesmo estando distante, no meu curso, Uma Introdução a Os Lusíadas, programado para dois sábados (21 e 28/09), num total de seis horas-aula, aberto a qualquer público interessado e ministrado no âmbito de nossa Academia Paraibana de Letras, patrocinadora do evento, em comemoração ao quinto centenário de nascimento de Luís Vaz de Camões.
24.9.24
Era a época do carrancismo, de muito apego as tradições e aos costumes, do poder pela força. Quando o adulado coronel, barrigudo, manda...
Era a época do carrancismo, de muito apego as tradições e aos costumes, do poder pela força. Quando o adulado coronel, barrigudo, mandava no juiz, no delegado e no prefeito. Prendia e mandava soltar. Tempo em que o sentimento de honra aflorava. Qualquer desfeita era tomada como desonra e exigia reparo. Uma filha ofendida dentro de casa era o pior que podia suceder, o maior dos ultrajes. Para sanar a ofensa só havia duas saídas: casamento ou tragédia. Feito o casório, não se falava mais no assunto, botava-se uma pedra em cima; caso se negasse a reparar o mal feito, era morte na certa.
24.9.24
Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das ...
Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.
23.9.24
POEMAS DO LIVRO “O ORNITORRINCO DO PAU OCO” (Editora Cousa – 2018) CUMULUS Quero te dizer de uma nuvem acontecida, das l...
Na ausência de um momento saudável regado à saúde, família, amigos e um lar, desenhamos uma história com muitos instantes em um vazio criado para ser preenchido a partir das possibilidades mais secas. Alguns questionam: lutar para quê? Para tudo. Lutar pela vida ainda presente.
23.9.24
A angústia, conforme apresentada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788–1860), está relacionada à sua visão pessimista da exis...
A angústia, conforme apresentada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788–1860), está relacionada à sua visão pessimista da existência humana e do mundo. Segundo ele, os seres humanos são escravos de seus próprios desejos. Ao satisfazer um desejo, imediatamente surge outro, de modo que se vive em um estado de insatisfação constante. Além disso, o pensador observa que o mundo está repleto de injustiças e violências,
Schopenhauer CC0
tornando a existência uma fonte contínua de sofrimentos. Sua obra mais conhecida, O Mundo como Vontade e Representação, publicada em 1819, explora esses temas. O livro é dividido em quatro partes: o primeiro capítulo é dedicado à teoria do conhecimento, o segundo à filosofia da natureza, o terceiro à metafísica do belo e o quarto à ética.
Não sei por que me lembrei dele ao ler o mais recente livro de Aldo Lopes de Araújo, Memorial do esqueleto e outros contos, Sebo Vermelho Edições, Natal, 2024. Refiro-me ao poeta e contista português Miguel Torga, tão grande que o nosso Jorge Amado considerava-o merecedor do Nobel, só para se ter uma ideia do valor desse médico taciturno, cujo nome verdadeiro era (e é) Adolfo Correia da Rocha. Nascido em São Martinho de Anta, Trás-os-Montes, viveu, trabalhou e morreu em Coimbra, onde se formou. Entretanto, quando jovem, viveu uns tempos em Leopoldina, Minas Gerais, o que nos remete ao nosso Augusto dos Anjos que lá viveu seus últimos dias como diretor de um colégio. Coincidência? Sabe Deus.
22.9.24
Tudo começou à época em que eremitas viviam em um monte chamado de “Tumba”, banhado e abraçado pelas marés cheias, quando se tornava...
Tudo começou à época em que eremitas viviam em um monte chamado de “Tumba”, banhado e abraçado pelas marés cheias, quando se tornava uma ilha, e lá ergueram duas capelas dedicadas aos mártires cristãos Santo Estêvão e São Symphorien.
22.9.24
Onde os índios se esconderam, se enfurnaram para subsistir está sob chamas. Atingidos pela fornalha ambiental da poluição , ateada pe...
Onde os índios se esconderam, se enfurnaram para subsistir está sob chamas. Atingidos pela fornalha ambiental da poluição , ateada pelo desmatamento incontrolável ou por mãos incendiárias?
22.9.24
Vivemos tempos de grandes mudanças. O conceito de transição planetária, embora possa parecer abstrato para muitos, reflete uma realid...
Vivemos tempos de grandes mudanças. O conceito de transição planetária, embora possa parecer abstrato para muitos, reflete uma realidade que já se manifesta em nosso cotidiano. Este momento de transformação marca a passagem da Terra de um estado de provas e expiações para um mundo de regeneração. Até então, nosso planeta servia como cenário para desafios e provas espirituais, mas agora caminha rumo a uma era em que o amor, a fraternidade e a evolução moral serão os pilares da convivência humana.
22.9.24
“No princípio fez-se a poesia, e a prosa era a excepção. No princípio fez-se o mar, e a terra era a excepção. No princípio fez-se ...
“No princípio fez-se a poesia, e a prosa era a excepção. No princípio fez-se o mar, e a terra era a excepção. No princípio fez-se o seio, e o sopé era a excepção. No princípio foste tu... então se fizeram as mulheres.”Nizar Tawfik Qabbani, diplomata, poeta, escritor e editor sírio (21.03.1923 — 30.04.1998)
21.9.24
A meu ver, nenhum outro cantor entrou em cena, atravessou gerações, tornou-se "rei" e nunca perdeu a Majestade. Esse car...
A meu ver, nenhum outro cantor entrou em cena, atravessou gerações, tornou-se "rei" e nunca perdeu a Majestade. Esse cara é Roberto Carlos.
Reconhecido mundialmente, ele é quase unanimidade, com seu carisma, emoções e detalhes. No auge dos seus bem vividos 83 anos, hoje conquista até a admiração dos descendentes de filhos e netos de seus fãs de outrora.
21.9.24
Pleonasmo é o nome que se dá à repetição de ideias ou à redundância, no âmbito do elemento que constitui a significação básica de u...
Pleonasmo é o nome que se dá à repetição de ideias ou à redundância, no âmbito do elemento que constitui a significação básica de uma palavra. Isso quer dizer que o pleonasmo, em princípio, diz respeito ao léxico, à significação externa das palavras, sem levar em conta as relações gramaticais. Seriam pleonásticas, originalmente, expressões como: entrar para dentro, sair para fora, subir para cima, gritar alto, sussurrar baixinho, surpresa inesperada, encarar de frente, há anos atrás, cárie no dente, elo de ligação, etc. Os linguistas e filólogos estenderam
para a gramática o sentido da palavra pleonasmo, de maneira inadequada, pois, na sintaxe do português, a concordância é sempre redundante.
A variedade de expressões pleonásticas do tipo lexical levou os estudiosos a estabelecer uma distinção mais ou menos tênue (ainda) entre pleonasmo vicioso e pleonasmo aceitável. Aceitável, por força das regras da sintaxe, é todo pleonasmo gramatical.
21.9.24
Meu caríssimo amigo José Nêumanne Pinto , Ao longo da minha vida profissional de professor de Língua e de Literatura, uma boa parte...
Sem fim, não há começo ou A relevância de alisar as coisas ásperas
Ao longo da minha vida profissional de professor de Língua e de Literatura, uma boa parte do tempo levei a seguir os preceitos formais da análise e da crítica literária. Adianto que, mesmo não sendo crítico literário, para o exercício da minha função de professor, preciso saber manejar a sua técnica, com a finalidade de, tendo analisado um texto, eu possa ter uma visão fundamentada sobre ele. Dizendo de outro modo, a análise literária, que proporciona uma reflexão crítica, é, no meu caso, um meio, para atingir a finalidade maior de ser uma espécie de mediador entre o livro e os leitores, sobretudo com relação àqueles que se projetam professores na área da linguagem.
Leonid Pasternak
De uns tempos para cá, passei, gradativamente, a abrandar certa rigidez da técnica de leitura em grau mais verticalizado, para buscar outra maneira de ler, sempre procurando ser criterioso, tendo em vista que o texto literário requer um olhar que penetre o reino surdo das palavras, como diria o poeta de Itabira. Procurei dar vazão a uma sensibilidade e emotividade que, às vezes, a formalidade tende a passar por cima. É assim que vejo meus textos, hoje. Não me furto a deixar aflorar o sensível que me belisca e me encanta no que leio, sentindo-me mais perto do leitor, a quem meu texto se dirige, do que dos padrões formais que funcionam, muitas vezes, ao contrário do intentado, afastando-o da leitura do texto de base.
Com essa nova concepção em mente, meu amigo, enfrentei a leitura do seu belo livro de poemas Antes de atravessar (Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2022). Não espere, portanto, que eu me detenha nas muitas referências literárias do seu texto – Drummond, Bandeira, Lorca, Rosa, Horácio, o mito greco-latino, a Bíblia..., só para ficar em algumas – porque o que espicaçou a minha sensibilidade foi o resultado que você conseguiu, transformando um livro de poemas, em um livro-poema.
Leonid Pasternak
Estou habituado, de há muito, à leitura dos livros mais densos e longos. Gosto dos poemas narrativos. Atrai-me o poeta que gosta de escrever e de espraiar-se em versos. Não sou o que se pode chamar de leitor da poesia contemporânea, principalmente no que diz respeito aos poetas paraibanos. Digo-lhe, no entanto, Nêumanne, que conhecendo muitos dos nossos poetas, nossos coevos, agradou-me mais a sua maneira de encarar o fato poético. Quem o conhece e assiste aos seus posts políticos, reconhece imediatamente o tom que ali se encontra nos seus poemas, que não fazem questão de ser econômicos ou de se perder em joguinhos de palavras. Senti algo como se o amigo procurasse deixar o poema respirar, em lugar de sufocá-lo com minimalismos. Deixar o poema falar é abrir a porteira da poesia. E isto você faz com conhecimento de causa, meu amigo. Não se trata só de habilidade, aquilo que Camões chamou de “arte”, mas daquilo que o nosso maior poeta da Língua Portuguesa, chamou de “engenho”. A arte deve subordinar-se sempre ao engenho, para que dali o poema se transforme em poesia, única forma possível de eternizar a sua sobrevivência.
Leonid Pasternak
Vejo o seu livro, meu amigo, como uma preparação ritualística e bem ensaiada, na compreensão de que a vida é uma travessia inevitável, que ninguém pode fazer por nós. Cada um tem que enfrentar a sua própria, sempre diferente das demais e, frequentemente, diferente do traçado que, um dia, quisemos lhe dar. A idade, entretanto, tem, quase sempre, o condão de nos fazer experientes, para que preparemos uma viagem que começou há muito e que está longe de terminar, porque estaremos sempre fazendo travessias até aprendermos o caminho que nos acomodará na última morada espiritual.
Começo por confessar, Nêumanne, que gosto muito de capas e quando elas são bem escolhidas, tornam-se uma complementação do sentido do livro, não apenas uma parte integrante, para muitos, descartável. E que beleza de capa para Antes de atravessar! O frágil bote, à margem pedregosa, contrastando com a fluidez do rio, em cuja margem oposta, descortinam-se colinas verdes, sobre as quais o céu fulvo predomina, numa indefinição ambígua, que se adequa ao livro, como um fio condutor do poema: é o pôr-do-sol, findando o dia/vida, ou é a homérica Aurora
dos dedos cor de rosa, no prenúncio de mais um começo? Parabéns a Romildo Castro Gomes e a Chico Pereira, os envolvidos na sua elaboração.
É aí, Nêumanne, que entra o seu verso, parte do título de minha leitura: sem fim, não há começo, porque cada fim nos leva a outro começo e assim sucessivamente, afinal de contas, rosianamente falando, só existem travessias. A outra parte do título – a relevância de alisar as coisas ásperas –, também verso seu, me leva a dois autores, ainda Rosa e o meu querido Virgílio. No Grande sertão, Riobaldo diz, compreendendo a dificuldade das travessias, que “não convém, a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro” (22ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 141). Já o poeta da Eneida, exige de seu herói, Eneias, em sua fuga de Troia, ordenada pelos deuses, que ele “are o mar”, para poder chegar ao seu novo destino. Assim são as travessias que fazemos e que você, meu amigo, estrutura de uma forma sutil, deixando a encargo do leitor a percepção de uma viagem com preâmbulo, origens, a travessia em si, testamento, despedida e transcendência, que não aparecem necessariamente nessa ordem e nem são estanques, interpenetrando-se o mais das vezes, porque, afinal de contas, a sua criação poética revela um fluxo irrepresável, seja no fundo, seja na forma.
Ivan Aivazovsky
Para que tudo isso possa tornar-se compreensível e se realizar, o leitor deve começar com o poema Será uma vez, uma Consoada às avessas, em que nada está preparado, porque a morte é apenas uma transição, entre tantas travessias a fazer, e não, com todo respeito a Bandeira, o fim de todos os milagres. Não escapa ao poeta a ironia, com referência ao choro falso dos “inimigos eventuais”, contrapondo-se ao lirismo “dos doces instantes”, que devem ser guardados pelo seu amor. Aliás, ver o Amor como a possibilidade de renascimento (Juventude a três), como um despertar que transforma (Isabel, Mar e Minas), sendo uma ousada celebração da amada (Manual de pintura, cartografia e anatomia), é uma condição sine qua non, para enfrentar com sabedoria a vida. O Amor Eros, que sai do ideal espiritualizado dos Cantares de Salomão, para encarnar na Musa Isabel; Amor maiúsculo, que faz frutificar no ser estéril, uma vida que só ele é capaz de conceder:
Isabel, Mar e Minas
O Brasil pisado pelos pés de Isabel,
o país moldado pelas mãos de minha mulher,
é tudo que eu queria legar pro futuro
como uma herança só de paz,
sem medo nem desesperança.
Ai, que delícia!
Estéril como a figueira da Bíblia,
meu amor por você
dá flores e frutos
nas quatro estações.
Joachim Patinir
Da visão do Amor como essência da vida, surge o preâmbulo da travessia (Antes de atravessar), pois enganar Caronte e alongar a vida só tem sentido se for pela grande arte de amar. Já nas origens, estão dois magistrais poemas, um em verso (Stabat Mater), outro em prosa (Fundação do Pai), este último que denomino um Stabat Pater. São poemas que revelam a consciência de que não morremos e que os nossos vivem em nós e se transmigram sem cessar. Mãe Mundica e Pai Anchieta, meu amigo, não são apenas a genetrix e o genĭtor, que vivem e se multiplicam eternamente em cada célula dos seus descendentes; que vivem espiritualmente no renascimento; são, sobretudo, o mito fundador, com ambos glorificados na poesia. Sob todos os aspectos, o casal mater/pater transcende o tempo e o espaço. E como eu gostaria de ter escrito alguns versos/frases que se encontram nos poemas acima citados:
Fundação do Pai
“Eu fui tu, antes de ser eu mesmo.” (p. 104)
“Éramos matéria em movimento, almas em harmonia.” (p. 105)
“Sem ti, meu pai, gênese e deuteronômio, fui deserdado da genética” (p. 106)
“E estaremos rondando por aí, quando mundos novos se dispersarem numa poeira de estrelas, que se fundirem num gás, engendrando novas galáxias e um universo novinho em folha, novinho em fé, novinho em falhas.” (p. 111)
O melhor desse poema em prosa, Nêumanne, guardei para o final:
“Tu não me sabias ainda, mas eu já era teu, então, quando ainda nem havia.” (p. 103)
William-Adolphe Bouguereau
Qual a compreensão, senão a poética, para sentir o saber e o sabor do maior presente que o Universo nos deu, a Vida, fundidos em um verbo de significado duplo e instigante?
Já em Stabat Mater, surge o retrato mais fiel da mãe, que amalgama as torturas do sofrer e as tonturas do prazer, diante da geração e da criação dos filhos. Mãe, que não estava (stabat), como escolheu o frei Jacopone Da Todi, mas que está (stat), como escreveu João, aquele que foi dado à Virgem, como filho, por Cristo, na hora dolorosa; mãe que está, como processo contínuo, porque jamais deixará de estar presente:
“E, aí, minha mãe vai renascer
nos filhos que eu tiver,
e vai crescer de novo
nos netos que eu lhe der,
e vai viver pra sempre
nos versos que eu fizer:
cantigas de amor
na terra bruta,
na grama dura,
o infinito grão.”
Joachim Patinir
O testamento está em Legado, expondo aos descendentes a consciência da miséria que nós geramos, o que, porém, é melhor do que deixar a ilusão de que o paraíso foi reencontrado. A despedida encontra-se em A volta de novo; a transcendência, que já se anuncia nos poemas aos pais, revela-se em No Oito, deitados. No meio de cada momento desse, aquilo que chamamos travessia, está a costura de sofrimentos e prazeres, que se fundem e se confundem, fornecendo o fio e o sentido da vida, porque é na exiguidade do espaço-tempo que se decide e se a vida se esvai ou se constrói; se se revela vã ou profícua; se cada um encontra a sua Isabel e, assim, há a remissão, no Amor que alivia como bálsamo, ou se a cada um cabe a sua Medeia e recebe a danação, consumido pelo fogo da miséria e abjeção de um mundo/país que não se ajeita (Medeia aqui e agora):
“E, entretanto, fora de nós,
o humano se reinventa
no sórdido bis da barbárie
e na sublime beleza renovada.”
Simon Vouet
Destaque-se, portanto, nesse costurar, meu amigo, a travessia, esse louvor ao Amor, encarnado na Musa Isabel, que desperta os gozos e a memória, fusão essencial de Érato e Mnemósine, cujo umbigo rouba à Delfos Apolínia a primazia de ser o “centro do universo” (Manual de pintura, cartografia e anatomia). Destaque-se o Amor, porque alguns teimam em fazem da travessia uma linha sem sentido, com finalidades pífias, deixando o Amor para as vias marginais. E a vida, como você bem o diz, meu amigo, a “vida é pra viver/e não há tempo que se possa perder”, no já citado e magnífico poema Manual de pintura, cartografia e anatomia. Chega de perder tempo, no embrenhado das vias transversas e oblíquas.
Afinal, o compromisso maior é o Amor, exposto sem pejo e sem medida, em seus versos, meu amigo, e amar é saber a “relevância de alisar as coisas ásperas” (Magister dixit). Sem Musa, sem Amor, sem compromisso, sem memória, não há travessia, só fatuidade, e, no dizer de Riobaldo, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente, é no meio da travessia” (op. cit., p. 53).