O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença.
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Penso que a saudade é o contorno que o amor deixa quando a pessoa se vai. É o molde, em gesso macio, de uma estátua que não está mais na sala, mas cujo formato perfeito conhecemos de cor. E ao correr os dedos mentais por esse contorno, não sentimos o gesso frio. Sentimos o calor da memória do bronze que ali esteve.
Lembro-me do seu todo. Não de gestos isolados, mas da sinfonia que ele era. A risada que começava nos olhos antes de chegar aos lábios. A paciência de ouvir até o fim. A teimosia gentil
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E eis o conforto secreto desse reconhecimento. A saudade que dói é a que lamenta o que poderia ter sido, as palavras não ditas, os abraços sonegados. A saudade que conforta é a que celebra o que foi. Foi completo. Foi único. Foi dado e recebido. Ela é a prova, guardada a sete chaves no coração, de que não se trata de idealização, mas de um fato: houve, na minha vida, uma obra-prima.
Não quero ele de volta como era, pois isso seria roubar-lhe a paz e traí-lo com a nostalgia. Quero, sim, carregar esse contorno leve. Ele me ensina que a ausência não é um buraco, mas um vaso. E que esse vaso, moldado pela saudade boa, está sempre cheio do mel de que vivemos.
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Porque a saudade boa não prende no passado. Ela é um abraço de longe, que aquece o presente e me sussurra, sem palavras: foste amado de uma maneira que nunca se repetirá. E isso, longe de ser triste, é o mais belo dos legados. É uma exclusividade afetiva para toda a vida. A certeza de que, em algum lugar do tempo, existiu um ser insubstituível. E que eu tive a sorte de conhecê-lo.























