A menina chora. Chora e não quer acordo, hostil ao que represente aceno, apelo, intercurso harmônico da linguagem. E chora com uma particular noção de ritmo, alternando ganidos com soluços e gemidos. Tudo isso compõe uma música cruel, disfonia enervante que estoura os ouvidos. É noite, e a menina trucida o silêncio a cutiladas roucas.
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Chora a menina, e como esse pranto é diferente do vagido inaugural com que saudou a vida! O choro ali era reação, um sinal imprescindível, a resposta ao primeiro sorvo de oxigênio e de mundo. Agora é uma queixa instruída e metódica, tem um alvo e todos os requintes da manha. Tem essa maldade inocente que, nem por isso, deixa de fazer doer.
A menina vai prosseguir nesse choro até cansar, espécie de cigarra às avessas querendo se consumir no pranto. Chora desesperada, consciente de que só tem esse instrumento para atingir e convencer. Sabe do seu efeito sobre o adulto impaciente e vulnerável, que para fazê-la se calar é capaz de qualquer acordo, do mais ridículo ao ominoso.
O choro da menina é uma espécie de delação. Ela talvez não suspeite, mas nesse momento os seus cúmplices são os vizinhos, a pública opinião do bairro, do quarteirão ou do edifício. Chorando,
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Acabam se dando conta de que, por esse choro, de alguma forma ela os nega. Não era o que haviam sonhado. “Tivesse puxado a mim, não ia aborrecer tanto...”, cada um parece pensar. As lágrimas são também uma prévia de futuras despedidas. Ao silenciar o pranto de agora, os pais apenas adiam o inevitável – o dia em que a menina será, por inteiro, uma terra estrangeira em que eles não possuirão o visto de entrada.
O choro é uma forma de ela se dizer... ela. E de fazer isso contra toda expectativa e conveniência. É uma prévia de outros protestos que virão. O que ele ensina, primeiro de tudo, é que a menina é coisa própria e distinta, alheia a esses pais que a queriam ressonante, uma quase extensão deles mesmos.
Esse choro antipático, enfim, é um primeiro desafio ao amor, que ao longo da vida se defrontará com outros – mesmo em silêncio. E tanto mais ruinosos, quanto mais secos.






















