Eu adoro a imaginação dos gregos e a sua devassidão na criação do possível e do impossível. Adoro Anthony Quinn e Aristóteles Sócra...

Eu adoro os gregos

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Eu adoro a imaginação dos gregos e a sua devassidão na criação do possível e do impossível.

Adoro Anthony Quinn e Aristóteles Sócrates Onassis. Eles não eram Zeus, mas pareciam tão improváveis quanto Prometeu, Empédocles, Pitágoras e Platão. Os gregos começaram cedo a indagar como percebiam o homem no universo: os números, a água, o fogo, o ar, a terra, a maldade, a hipocrisia, o amante da boa vida, a sexualidade do animal e o guerreiro feroz.

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O homem é o que é: uma espécie predadora, empenhada em ocupar, tomar e destruir o que está ao redor.

Essa também é uma leitura possível da história da Grécia. Mas quem me fez amar os gregos foi Zorba, personagem de Nikos Kazantzakis, levado ao cinema por Anthony Quinn. Foi ele quem trouxe à minha imaginação certa fraternidade, uma inocência e um desejo de bem-estar com o outro, sempre diante da contradição entre a ganância de querer chegar aonde é impossível, a vontade de ter cada vez mais e a resistência necessária para viver bem.

O homem, além de fraco, padece de todas as condições inerentes ao humano. Na mitologia, porém, não era demasiado humano: era heroico, era deus. Era mito, tudo era perversão.

Adoro os gregos porque as mulheres de Atenas tecem e choram por seus maridos, os nobres guerreiros de Atenas. Mas quem primeiro me encantou foi Penélope, a da Corrida Maluca.

Depois veio a outra Penélope, a grega, que tecia enquanto esperava Ulisses. E vieram também as Moiras: Cloto, que fiava; Láquesis, que media; e Átropos, que cortava o fio da vida. Isso é muito interessante nos gregos. Talvez por isso eu seja tão apaixonado por eles.

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A narrativa de Homero chamou-me a atenção: como tantos homens disputavam uma mulher? O desejo emanava de Penélope; ela lançava todo cio nos fios e nas tramas; ao redor, homens podres farejavam o desejo. E o herói seguia entre a luta e a farra.

Na mitologia grega, Cronos engoliu os próprios filhos; Zeus enfrentou o pai e libertou os irmãos; Prometeu roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens. Os gregos imaginaram famílias divinas marcadas por violência, disputa, vingança e poder. Seus deuses não escondiam aquilo que os homens preferiam disfarçar.

E havia também um grego que atravessou o Atlântico e tomou para si um ícone da América: Jacqueline Kennedy, a viúva desejada. O homem dos mares, pequeno e baixinho, mas muito rico, parecia dizer aos americanos: sua diva será a musa de um grego. Jacqueline, ex-primeira-dama e uma das mulheres mais cortejadas do mundo, tornou-se Jackie O., uma diva midiática fora de Hollywood.

Hollywood, de algum modo, também é grega: em suas narrativas, o herói deve ser um ator americano e triunfar.

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Agora, fala-se da Odisseia de Homero e logo aparecem os intelectuais para lembrar que o filme não é o livro. É claro que não é. O cinema é uma imaginação coletiva transformada pela unidade de uma obra, enquanto a literatura nasce da unidade da escrita e se transforma na imaginação de cada leitor.

A Odisseia, a jornada do herói, retomou um pensamento muito antigo: o da caça, daquele que derrubava o bisão e transformava o feito em narrativa. Os gregos deram forma a essa necessidade humana de contar a conquista, a viagem, o retorno, o herói, a heroína e a farsa.

O grego é grego até no alfabeto, que não nos representa. É um mundo à parte. Na Grécia floresceram a narrativa, o teatro e a democracia. Floresceu também o desejo de beleza e de bem-estar, apesar da aridez de suas ilhas cobertas de pedras. Antes das catedrais dedicadas a um único Deus, ergueram templos para muitos deuses.

Esses deuses eram divinos e humanos ao mesmo tempo. Representavam diferenças, desejos, forças e fraquezas, mas todos podiam ser adorados. Mais tarde, a religião, instituída em Roma, também transformaria templos em arrecadação e poder. Quem não se lembra da ganância atribuída aos templários? Quem esquece as guerras travadas porque a religião do outro era diferente, porque o Deus de um estava
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de um lado e o do outro, do lado contrário? Roma era comandada de Roma e, poderosa, também copiou os mitos gregos. A mitologia romana retomou deuses, figuras e narrativas da Grécia: Zeus é Júpiter, Afrodite é Vênus e Poseidon é Netuno. Eles ocupam posições centrais no panteão e têm equivalentes quase diretos entre a Grécia e Roma.

Os gregos não tiveram pudor diante da imaginação. Dela fizeram nascer invenções que a humanidade ainda carrega: a conquista, as histórias, as narrativas, os heróis, as heroínas, a farsa, a dramaturgia e um Olimpo malvado, terrível, demasiadamente humano. Foram eles que imaginaram e perguntaram o que é possível e o que é impossível para o ser humano.

Mas os gregos não pararam por aí. Depois de reconhecerem nossos defeitos nos deuses, resolveram dar corpo aos desejos. Inventaram as ninfas e os sátiros; os faunos vieram depois, pela mão dos romanos, porque até a devassidão precisava de personagens.

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E que personagens! Elas se banhavam nas fontes; eles rondavam os bosques com chifres, cascos e uma flauta que, pelo visto, não servia apenas para tocar música.

Na Grécia imaginada, ninguém precisava vestir o desejo com a túnica da culpa. Os deuses desciam do Olimpo para seduzir mortais, enganar maridos, engravidar donzelas e depois voltar ao céu como se nada tivesse acontecido. Zeus, então, era uma calamidade pública. Virava touro, cisne, chuva de ouro e o que mais fosse necessário. Não lhe faltava imaginação nem lhe sobrava respeito pela vontade alheia.

Se vivesse hoje, não governaria o Olimpo: seria investigado no Inquérito das Fake News, percorreria os meandros dos gabinetes na jornada de Lulinha e participaria dos estranhos conchavos milicianos dos Bolzóloides.

Os gregos contemplaram o corpo humano sem pedir desculpas. Esculpiram músculos, quadris, nádegas, seios e pequenas dignidades masculinas com a seriedade de quem procurava a medida da beleza. O corpo não era apenas carne: era proporção, movimento, equilíbrio e desejo. Tudo ficava exposto, mas ninguém parecia escandalizado.

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O escândalo, como tantas outras mercadorias, seria aperfeiçoado mais tarde, nos gabinetes do Planalto Central, enraivados por ervas daninhas da polarização.

Enquanto imaginavam ninfas correndo nuas pelos bosques, erguiam a Acrópole. Souberam levantar colunas sem perder o interesse por outras formas de ereção. A pedra subia, o pensamento também. Construíram templos, teatros e estátuas com uma engenhosidade que ainda nos obriga a olhar para cima.

Talvez essa tenha sido sua maior perversão: fazer da inteligência uma forma de prazer.

Inventaram o drama porque compreenderam que a vida precisava de palco. Nele colocaram o incesto, o assassinato, a vingança, a ambição, a traição e a desgraça familiar. A plateia assistia a tudo e chamava aquilo de tragédia. Hoje, assistiríamos ao mesmo enredo pela televisão e chamaríamos de programa político para a família.

Também imaginaram entregar a autoridade ao povo. Era uma utopia com porteiro: mulheres, escravizados e estrangeiros ficavam do lado de fora.

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O “povo” era uma parcela escolhida dos homens livres. Lembra aqueles imortais que manipulam ementas secretas e as tais emendas PIX?

Ainda assim, num tempo em que a barbárie dominava e governar significava quase sempre mandar, conquistar e degolar, reunir cidadãos para discutir os destinos da cidade já era uma ousadia.

Os gregos não eliminaram a barbárie. Apenas colocaram uma praça no meio dela e começaram a fazer perguntas. Entre uma guerra e outra, discutiam justiça. Entre uma orgia divina e uma tragédia humana, procuravam a beleza. Entre o corpo nu e a cidade armada, inventavam ideias.

Talvez eu adore os gregos por isso. Eles nunca fingiram que o homem era puro. Deram-lhe músculos, desejos, contradições e uma praça para falar. O problema é que, tantos séculos depois, continuamos querendo o corpo das estátuas, o poder de Zeus e a democracia de Atenas, principalmente quando somos nós que decidimos quem pode entrar.

Eu adoro os gregos. Lembro-me deles tanto pelo que criaram quanto pelo que revelaram de ruim em nós: a fraternidade e a farsa, a beleza e a violência, a imaginação e a vontade de poder. Talvez seja essa contradição que ainda nos faça olhar para a Grécia e reconhecer, nos deuses e nos homens, aquilo que continuamos sendo: o melhor e o pior da humanidade.

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