“Uma esmola para meus pobres!” Porque adotou muitos mendigos, Padre José Coutinho percorria a cidade pedindo dessa maneira.

A lição de Padre Zé

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“Uma esmola para meus pobres!” Porque adotou muitos mendigos, Padre José Coutinho percorria a cidade pedindo dessa maneira.

Tenho lembranças deste padre, apesar de avistá-lo à distância. De pouca fala, com uma vontade enorme de servir, pedia esmolas para ajudar os desvalidos. Repetia o que passou a ser mantra, ao tocar com uma vara na pessoa: “Uma esmola para meus pobres”.

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Nathanael Alves ▪️ Arte: WJ Solha
Estas palavras, tão repetidas, tornaram-se familiares para mim. Ainda mais depois que Nathanael Alves, seu hóspede, contou que este padre, de gestos caritativos, atuava para oferecer agasalho aos pobres.

Após chegar para morar nesta cidade, observava este padre idoso percorrendo-a em cadeira de rodas, empurrada por duas pessoas. Padre José Coutinho ficava nas portas dos cinemas e clubes de festas pedindo esmolas para manter funcionando as casas de acolhimento que havia fundado.

Tratava-se de um mendicante que ajudava pobres e desprotegidos, residentes nesta capital e vindos do interior, como foram Nathanael, Manoel Raposo, Antônio Ivo de Medeiros, Simeão Cananéia e tantos outros que se acomodavam nessa árvore frondosa.

Nunca desejou acumular riqueza, abdicando de benefícios financeiros. As fazendas que herdou em Pocinhos e Serraria vendeu para investir no Instituto São José e no Hospital Padre Zé. O sítio recebido como doação, onde está parte do bairro de Mandacaru, permitiu que famílias construíssem residências.

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Hospital Padre Zé Coutinho ▪️ Instagram: @hospitalpadreze
Lembro essas passagens quando observo, na folhinha do calendário, a data da fundação do Instituto São José: 19 de março de 1935. Uma data emblemática para a Igreja na Paraíba e no Brasil, porque possibilitou executar um leque de ações em favor do povo sofrido, dos que não tinham travesseiro para recostar a cabeça.

Este Instituto foi o primeiro grande projeto de sua vida, ao qual dedicava tempo e esforço incomuns. Nessa casa de acolhimento, jovens repousavam e olhavam horizontes, descobriam caminhos para a vida. Aprendiam uma atividade profissional, estudavam e tinham a alimentação básica para a sobrevivência.

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Instituto São José ▪️ Fonte: @hospitalpadreze.org
Outra obra, idealizada e concretizada com a colaboração da sociedade, foi a fundação do hospital que, igualmente, tem a marca de suas mãos.

No tempo em que manter o Instituto era um deus-nos-acuda, foi socorrido pelos abastados da sociedade, que recebiam cartas solicitando ajuda.

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Padre Ibiapina, o Apóstolo do Nordeste, bacharel em Direito, advogado, juiz, deputado, consagrou-se como missionário e líder religioso do Nordeste brasileiro, no século XIX, a serviço aos mais pobres ▪️ Fonte: diocesedesobral.com.br
Cinco décadas antes, Padre Ibiapina mantinha uma das principais obras de caridade do Nordeste e talvez do país. Implantou uma ação caritativa porque sentiu as necessidades do povo dos rincões, assolados pela fome e desprovidos de qualquer providência governamental.

Acredito que as obras de caridade efetivadas pelo Padre Ibiapina tenham influenciado Padre José Coutinho, porque, quando criança, viveu em áreas por onde o Apóstolo do Nordeste esteve, e certamente seus familiares falavam deste Servo de Deus. Trazendo as marcas de Jesus Cristo, ambos cuidaram dos pobres, cada um a seu tempo e a seu modo.

Foram padres com ideais semelhantes, apesar de cada um ter vivido em épocas diferentes, mas com situação de penúria parecida. Cada um servindo a sopa ou o feijão sem mistura aos seus protegidos, quando muito um pedaço de rapadura e farinha como complemento da alimentação, porque a carne seca era produto de grã-finos.

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Padre Zé Coutinho ▪️ Foto: Arion Farias
Quando lembramos da fundação do Instituto São José, nosso olhar se volta para seu benfeitor. Este padre arengava quando defendia os pobres, para oferecer o mínimo de dignidade aos necessitados que estavam à sua sombra. Será lembrado como o “pai dos pobres”.

Despojado de pompas, catava donativos junto a homens e mulheres de boa vontade para evitar que centenas de pessoas passassem fome e tivessem onde recostar a cabeça, espichadas em uma rede no pequeno espaço da sede do Instituto São José.

Ele ensinou a viver a plenitude do Evangelho, deu visibilidade à Igreja dos pobres com práticas caritativas.

Precisamos fazer memória deste venerável homem de Deus. Um padre de elevada postura religiosa, que se curvava até ao chão para ajudar os pobres, um autêntico representante da Igreja servidora.

A cadeira de Padre Zé está vazia.

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