Nonato Guedes , um dos grandes expoentes do jornalismo da Paraíba, completou 68 anos no último dia 14 de março, com muitos motivos pa...

Quando Nonato Guedes tirou a rádio Alto Piranhas do ar

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Nonato Guedes, um dos grandes expoentes do jornalismo da Paraíba, completou 68 anos no último dia 14 de março, com muitos motivos para comemorar. Ele, que vinha passando por um momento delicado de saúde, tem demonstrado brio e galhardia na superação das circunstâncias adversas.

Filho do comerciante Joaquim Nonato de Aquino e da dona de casa Josefa Guedes de Aquino, nasceu em Cajazeiras, no sertão do estado — “a cidade
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O jovem jornalista Nonato Guedes, na década de 1970. ▪ Fonte: A União
que ensinou a Paraíba a ler”. Seus pais tiveram nove filhos: três homens e seis mulheres. Dois de seus “manos” — como se tratam carinhosamente —, Lenilson e Linaldo, seguiram seus passos no batente do jornalismo profissional.

Desde criança, Nonato demonstrou vocação para o jornalismo. Ajudava o pai na mercearia da família, em um bairro pobre de Cajazeiras, e, quando não havia clientes, simulava estar em um estúdio de rádio, diante de um microfone imaginário, lendo as manchetes do Correio da Paraíba, jornal que o senhor Joaquim Nonato comprava duas vezes por semana.

Com a venda da mercearia, foi orientado pelo pai a procurar outra ocupação, de preferência no rádio. Seu primeiro emprego, registrado na Carteira de Trabalho do Menor, foi como auxiliar de recepcionista na Difusora Rádio Cajazeiras, em 1971, aos 13 anos. No ano seguinte, foi admitido como redator auxiliar da Rádio Alto Piranhas, mantida pela Diocese de Cajazeiras. Não demorou muito para ser promovido a locutor-entrevistador e, em seguida, a locutor-noticiarista.

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Ilustração da fachada do prédio que abriga a Rádio Difusora de Cajazeiras, retratada com a feição arquitetônica típica dos anos 1970. ▪ Fonte: História de Cajazeiras (adapt.)

A prisão de Cajá
Como a Rádio Alto Piranhas pertencia à Diocese, Nonato convivia de perto com o clero progressista de Cajazeiras, experiência que ajudou a forjar seu caráter. Além de estar à frente dos microfones, integrou a Comissão de Justiça e Paz
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Padre Gervásio Fernandes de Queiroga, na década de 1970.
diocesana, por indicação do padre Gervásio Fernandes de Queiroga, que também era apresentador do programa Verdade e Vida, na mesma emissora radiofônica. Foi também idealizador do cineclube Vladimir Carvalho e do jornal Tribuna Popular, impresso em mimeógrafo e conhecido por incomodar os poderosos de plantão.

Em maio de 1978, Nonato noticiou na rádio a prisão de Edival Nunes da Silva, enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Edival militava no Partido Comunista Revolucionário (PCR) e era ligado a dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lhe dera o apelido de “Cajá”, pelo qual se tornaria conhecido. Cajá também integrava a Comissão de Justiça e Paz e era coordenador da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife.

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O paraibano Edival Nunes da Silva, o "Cajá", durante pronunciamento. O registro fotográfico documenta a atuação do estudante como orador em mobilizações populares.
Naquele final de semana, Nonato estava no Recife participando de um encontro da juventude com dom Hélder Câmara. Acompanhava-o sua então namorada, a também jornalista Lena Guimarães, além de outros militantes. Em determinado momento, eles seguiam de ônibus pela cidade quando Cajá comentou que tinha a impressão de estar sendo seguido. Inquieto, pediu para descer antes do destino previsto.

Era por volta das 20 horas do dia 12 de maio de 1978, quando um veículo subiu a calçada da Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife. Agentes dos órgãos de repressão saltaram do carro e arrastaram Cajá para o interior do veículo, levando-o para a Superintendência da Polícia Federal no Estado de Pernambuco, onde foi torturado.

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Edival Nunes da Silva (Cajá) recebe a visita de sua mãe durante o período de detenção em 1978, nas dependências do 7º Batalhão da Polícia Militar, no Recife.
A notícia da prisão chegou a Nonato por meio da rádio-escuta da BBC, que transmitia, em ondas curtas e em português, informes preparados em Londres a partir de denúncias enviadas por correspondentes no Brasil.

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Cartaz de protesto estudantil denuncia a tortura de Cajá (Edival Nunes) e convoca à mobilização. Espalhada nos muros da UFPE, a mensagem direta traduz o clima de tensão e resistência política no período da ditadura militar.
A repercussão foi imediata. Como consequência, o Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) suspendeu o sinal da Rádio Alto Piranhas por 48 horas.

A medida ainda rendeu ao jovem locutor uma severa reprimenda do monsenhor Vicente Freitas, diretor da emissora, e até do bispo de Cajazeiras, dom Zacarias Rolim.

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Rádio Alto Piranhas, em Cajazeiras, na década de 1970.

O clero progressista de Cajazeiras e sua atuação no rádio
Nonato Guedes iniciou sua carreira numa época de grande turbulência política e de estrita vigilância do regime militar, então vigente no país. Apesar de dirigida pelo monsenhor Vicente Freitas, ligado à ala conservadora da Igreja local,
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Monsenhor Vicente Freitas (1914—1982) ▪ Fonte: Cajazeiras de Amor (adapt.)
a Rádio Alto Piranhas dava espaço para integrantes do clero progressista.

Um exemplo era o programa Evangelho no Campo, transmitido às sextas-feiras, das 11h30 ao meio-dia, e apresentado pelo padre Mauro Carli, que atuava na cidade de Cachoeira dos Índios. No programa, o sacerdote comentava a vida no campo, respondia consultas de trabalhadores rurais e orientava os chamados “rurícolas” sobre o Estatuto da Terra, além de divulgar cartas pastorais do arcebispo da Paraíba, dom José Maria Pires, muitas delas críticas à política agrária vigente.

O trabalho do padre passou a despertar a atenção do regime. Um informe confidencial produzido em abril de 1976 pela Agência Recife do Serviço Nacional de Informações (SNI) registrava
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Fonte: Arquivo Nacional
“divergências entre rurícolas e proprietários rurais na Paraíba” e mencionava nominalmente o padre Mauro Carli. O documento observava ainda que o sacerdote celebrava missas em casas de trabalhadores rurais e costumava percorrer o campo usando traje civil.

Outro relatório da Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Agricultura, datado de 13 de setembro de 1976, classificava como “intensa atividade perturbadora” a atuação de padres ligados à Diocese de Cajazeiras. Além de Mauro Carli, eram citados Giuliano Pellegrino (padre Julião) e Albino Donatti, missionários italianos que desenvolviam trabalho pastoral junto aos trabalhadores rurais.

Padre Julião atuava na Paróquia São João Bosco e substituía ocasionalmente Mauro Carli na apresentação do programa Evangelho no Campo, enquanto padre Albino Donati trabalhava na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima.

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Fonte: Arquivo Nacional
O trabalho desenvolvido pelos missionários italianos passou a incomodar setores conservadores da região, e eles acabaram retornando à Diocese de Trento, na Itália. Os religiosos embarcaram no Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife e, de lá, enviaram correspondência a Nonato — que já atuava na imprensa da capital — agradecendo a mobilização que ele fizera ao denunciar à opinião pública a perseguição sofrida pelos padres.

Nonato, guardião da Memória
Em 1994, quando era Superintendente do jornal A União, Nonato foi o idealizador e um dos organizadores do livro O Jogo da Verdade: Revolução de 64, 30 anos depois, ao lado de José Octávio de Arruda Melo, Sebastião Barbosa,
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Carla Mary S. Oliveira e Evandro Nóbrega.

O parágrafo inicial do Prefácio, assinado por Nonato, é lapidar. E é com ele que este texto é encerrado:

Há quem ache ocioso exumar o passado, sobretudo quando esse passado, ainda bem recente, deixou traumas, cicatrizes profundas e controvérsias intermináveis. A História, no entanto, é insepultável. Ela precisa ser revisitada frequentemente,
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Nonato Guedes, jornalista paraibano, natural de Cajazeiras. ▪ Fonte: Os Guedes
ou a qualquer época, não só para que se aclarem as verdades, mas para que dos seus registros extraiam-se lições que possam tecer a moldura dos tempos contínuos.
Seja na divulgação da prisão de Cajá, seja na defesa dos missionários italianos, Nonato Guedes demonstrou o compromisso de um jornalista que se recusava a aceitar o silêncio, mesmo diante dos “traumas”, “cicatrizes” ou “controvérsias” que viesse causar.

Ele veio da “terra que ensinou a Paraíba a ler”. Cada cajazeirense carrega, por assim dizer, uma vocação magisterial. Aos 68 anos, Nonato ainda tem muito a ensinar — e os jornalistas paraibanos ainda têm muito a aprender com sua trajetória. De sua memória extraímos as “lições que possam tecer a moldura dos tempos contínuos”.

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