Nada tenho contra quem lê um texto literário apenas pelo prazer de ler e expresse a sua opinião ou faz um comentário que, embora se queira crítico, não é. Em geral, a regra é esta: o prazer de ler, ainda que a arte não tenha como finalidade precípua proporcionar prazer, mas a de mexer com as nossas sensações. Arte é, tout court, estesia. Resulta daí a necessidade de se ler cada vez mais, pois sempre é melhor ter lido do que não ter lido. Se as leituras suscitam uma escrita, ótimo,
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são os comentários e as opiniões que ajudam a pensar e a ver criticamente um texto.
Sinto-me, no entanto, na obrigação de dizer que opiniões e comentários, ainda que pertinentes, estão longe de ser crítica. Esta exige uma atitude diferente, tratando o texto como uma estrutura, não como um amontoado de palavras, que não dialogam entre si. Fazer a crítica de um texto é, pois, diferente de comentar um texto. É nesse ponto que se estabelece a diferença milenar entre opinião (doxa, δόχα) e conhecimento (episteme, ἐπιστήμη), já discutida e definida por Platão, sobretudo em um diálogo saborosíssimo, que se chama Íon.
Para se ler criticamente é imperioso que se vá ao texto, que ele seja citado, que se faça a sua análise e que se tente chegar à sua interpretação, que nem sempre é única. A interpretação é uma possibilidade de leitura, devendo ser guiada pela subjetividade do texto, não pela subjetividade do leitor. Tomemos como exemplo a poesia de Augusto dos Anjos, objeto de uma recente discussão, a partir de um texto de Paulo Mendes Campos sobre o poeta, publicado neste espaço.
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Se queremos alcançar uma compreensão do que o autor do Eu escreve, temos que mergulhar no texto e nos seus detalhes, porque, ao crítico, não basta a sensação boa ou má da leitura de superfície. Quem quer apenas sentir o poema, sem ter necessidade de entendê-lo, entregando-se à estesia, ótimo! É como alguém que gosta de uma música estrangeira, sem conhecer o idioma e, quando o conhece, poderá se decepcionar com a banalidade da letra. Para quem quer saber o porquê do poema e identificar a poesia ali existente, é necessário buscar as camadas profundas, à procura do que não foi dito de modo explícito, porque é assim que funciona a linguagem artística, escondendo mais do que esclarecendo. O prazer da superfície traz um significado, mas a procura de sentidos mais profundos traz a significação e nos leva à significância, na complexidade que liga a análise (significação) à interpretação (significância). Posso assegurar que, quando estamos no campo da crítica e descobrimos como se constroem os múltiplos sentidos de um texto, a estesia é redobrada; não raro, muitas vezes redobrada.
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Falar de um poeta como Augusto dos Anjos e de tantos outros, sem ir a seus versos, sem explicitá-los, é falar no vazio, é ficar na superfície, é não descer ao que se esconde atrás da porta, cuja chave poderá nos conduzir a outras sensações. Não é à toa que Carlos Drummond de Andrade nos ensina isto, na metalinguagem de “Procura da Poesia” (A rosa do povo):
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Claro, os conselhos ao candidato a poeta também se estendem ao candidato a crítico. O interessante não é ter a resposta, mas fazer perguntas que podem nos levar a respostas. Perguntar ao texto é, sem dúvida, tentar fazer o próprio texto falar, por ser ele a chave de toda interpretação, de toda leitura crítica. Não é gratuito o fato de que interpretar é estar numa luta entre o valor, o preço e a recompensa (inter, pretium). A recompensa não está no preço, mas no valor do que se lê.
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O preço é material; o valor é essencial; a recompensa, a estesia. De modo que, sem chave, não há penetração profunda “no reino das palavras”, haverá apenas um borboletear na superfície. Interpretar é deixar de fora os ruídos externos, por isso o penetrar deve ser “surdamente”, só aquilo que o texto diz e esconde é que deve ser ouvido.
Retornemos a Augusto dos Anjos. A ilustração do que discutimos aqui virá da leitura de uma quadra do poeta sobre a morte, um conceito dos mais importantes da sua poesia, dentre tantos que ele nos apresenta. São muitas as representações, no Eu, da “Atra dissolução que tudo inverte” (As Cismas do Destino, estrofe 38, verso 150), da “costureira funerária” (Asa de Corvo, verso 13), da “carnívoras assanhada”, “faminta e atra mulher” (Poema Negro, estrofe 4, versos 19-22); da “velha nefasta”, da “Semeadora terrível de defuntos” (Poema Negro, estrofe 9, verso 49; estrofe 10, verso 55). Destacamos apenas algumas, para centrarmos na representação contida na quadra abaixo (Os Doentes, estrofe 30, versos 115-118):
Porque a morte, resfriando-vos o rosto,
Consoante a minha concepção vesânica,
É a alfândega, onde toda a vida orgânica
Há de pagar um dia o último imposto!
Conhece-se de muito tempo o que esse poema traz, na sua concepção de uma cidade doente mais da alma do que do corpo. O corpo só traduz, em degradações abomináveis da matéria, a doença do espírito que contamina tudo, inclusive “os sáxeos prédios tortos” (estrofe 105, verso 416). Esta é uma concepção platônica, que se vê na República (Livro IX): a alma doente contamina o corpo, que, por sua vez, contamina o Estado. O eu-lírico vê em tudo isso uma “negra eucaristia” (estrofe 82, verso 324), oxímoro que reclama o paradoxo de “a podridão me serve de evangelho”
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(Monólogo de uma Sombra, estrofe 5, verso 27), através dos quais se consegue ler que a redenção, a boa graça, a boa nova, enfim, virá pela consciência da origem do sofrimento que aflige a alma da humanidade. Sem a consciência de que somos os responsáveis pelo nosso infortúnio, não conseguiremos nos libertar do que nos faz sofrer.
É desse modo que o eu-lírico, apesar de tanta degradação, de tanta podridão, sente o “prazer secreto” de acompanhar, “com os pés atolados no Nirvana”, “a gestação daquele grande feto,/que vinha substituir a Espécie Humana” (Os Doentes, estrofe 110, versos 435-438). É outra espécie, agora de ordem espiritual, que, tendo aprendido com o sofrimento, será gestada no “letargo larvário da cidade” (estrofe 109, verso 431).
É a partir dessa concepção na parte final do poema que a estrofe aqui citada ganha uma compreensão nova. A morte não é o fim. A morte é uma transição que permitirá a consciência de renovação. Aliás, a morte é ilusão, porque o espírito não morre e a matéria se transforma.
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A metáfora da morte com “alfândega” é perfeita. O sistema aduaneiro não permite que se passe para dentro de suas fronteiras o que é ilegal, submetendo o produto ilícito na nova fronteira a um confisco. No caso da morte, o último imposto a ser pago é a retenção da matéria, deste lado da vida, por não ser permitida a sua entrada na vida espiritual. Observe-se que o poeta é bem explícito: o imposto que se cobra, no caso a retenção do ilegal é “a vida orgânica”, o que dá margem a pensar na existência, não de uma vida inorgânica, afinal a vida orgânica vem do inorgânico, mas em uma vida para além da matéria, que não está submetida
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à retenção na fronteira entre os dois mundos. Em outras palavras, o espírito se vai, a matéria fica.
Nesse ponto, reside a genialidade de Augusto dos Anjos como poeta. A vida orgânica permanece neste lado da fronteira, porque é aqui que ela será reprocessada. Já dissemos que a morte não existe, porque, de acordo com a lei da substância universal, o universo está em movimento e o que rege o universo é a vida. A matéria passará pelo processo natural de transformação, para geração de novas vidas. Em suma, permanecemos, mas diferentes, sob outras formas, que alimentarão novos espíritos, em novas cascas orgânicas, chamadas corpos. Quem não aprender com o sofrimento viverá eternamente nesse cárcere das almas, como chama Platão, submetido indefinidamente à roda do Sansara até que um dia possa alcançar a libertação do Nirvana. Aqui, vemos os dois veios que nos levam a considerar a poesia de Augusto dos Anjos como evolutiva: a evolução natural e a evolução espiritual.
A concepção de uma morte que cobra apenas a matéria, que deverá transformar-se e gerar nova vida, pode ser vista no belo soneto Vozes da Morte, em que a simbiose eu-lírico/tamarindo é a consciência de que ambos são da mesma natureza, apenas sendo produtos orgânicos diferentes. Por isso mesmo, diz o eu-lírico ao tamarindo, “depois da morte ainda teremos filhos!” (verso 14), uma verdade incontestável, seja do ponto de vista natural, seja do ponto vista espiritual.
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Do mesmo modo, em As Cismas do Destino (estrofe 58, versos 229-230), a ideia da separação platônica de corpo e alma é clara:
Morte, ponto final da última cena,
Forma difusa da matéria imbele,
Minha filosofia te repele,
Meu raciocínio enorme te condena!
Nessa condenação da morte como fim, última cena de um corpo geral degradado – Homem e Estado –, vê-se que a matéria é imbele, fraca, o que reclama a compreensão de um espírito aguerrido, que deve procurar a sua transformação para melhor. Como se diz, a carne é fraca, mas cabe ao espírito lutar contra essa fraqueza. A carne ficará, se degradará, se transformará em nova matéria orgânica, o espírito retornará e terá como nova prova a matéria que o aprisionará, até que ele aprenda que a podridão que o rodeia é produto de suas ações (As Cismas do Destino, estrofe 103, versos 413-416):
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
Como se vê, a leitura literária impõe a necessidade de se buscar a articulação de sua estrutura. Ao se enfrentar um poeta como Augusto dos Anjos, havemos que considerar que o Eu é um grande poema, que deve ser lido no seu conjunto, e que tem nos poemas longos, a parte essencial de sua significação. Sem isso, ficaremos condenados à superficialidade do dizer generalidades ou de repeti-las, no que eu chamo de síndrome da inércia, o que é bem pior.