Continuamos a triste história da bela Thereza, mulher do povo, vítima de feminicídio no fim da tarde de 30/07/1801. Na outra postagem sobre a história de Thereza, informamos que seu crime aconteceu na antiga Fonte dos Milagres. A antiga Fonte dos Milagres ficava localizada na atual Rua Augusto Simões – Parque da Pólvora – João Pessoa. A referida fonte foi a primeira da cidade a servir à população.
Em José Leal, em seu “Itinerário da História: Imagem da Paraíba entre 1518 e 1965”, temos uma menção ao seu primeiro proprietário, Francisco Pinto, no ano de 1595, lembrando que a cidade havia sido definitivamente conquistada e iniciada a povoação em 1585:
Antiga Bica dos Milagres, uma das primeiras fontes de água da cidade, essencial para o abastecimento nos séculos iniciais, que ao longo dos anos sofreu descaso e intervenções urbanas, sem preservação adequada e terminou sendo emparedada e incorporada a construções ▪️ Fonte:
@paraibanopassado (YT)
“1595. (...) Neste ano foi concedida uma sesmaria em benefício do Mosteiro de São Bento, cujos monges haviam assumido a obrigação da catequese dos silvícolas, com expulsão dos jesuítas e franciscanos, resultante das pendências desses religiosos com o governador. A sesmaria se refere a ‘o sítio que está junto das terras de João Neto, no arrabalde e termo desta cidade, convém a saber, para a edificação do Mosteiro, oitenta braças em quadro no alto, para a banda do sul e para a cêrca abaixo da várzea, com águas vertentes a oeste, leste e sul, indo entestar no rio Eitiry, da banda do norte, ficando dentro da dita demarcação a fonte que está na roça nova que fez Francisco Pinto, a qual fonte ficará por marco da banda leste’. A fonte referida nesse documento é a que chamavam de Milagre.”
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“1801. (...). Crimes e atos de violência geralmente não impressionavam a população, acostumada com a frequência dessas ocorrências brutais, mas, a 31 de julho, causou profunda comoção a descoberta do cadáver de uma mulher entre um cerrado espinhoso de unhas-de-gato, terrivelmente mutilado. O fato monopolizou as conversas na Fonte do Milagre, que era o ‘Ponto de Cém Réis’ daquele tempo. O crime fora praticado com requintes de perversidade pelo frade franciscano, amante da assassinada, por ocasião de um banho que ambos tomavam naquela fonte, à meia-noite, e assistido por uma criança de três anos, filha da mulher.”
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Fonte de Santo Antônio (convento dos franciscanos, João Pessoa-PB )▪️ Facebook: @BrasilisRegnum
O crime ocorreu, segundo relatado na sentença, nas proximidades da Fonte de Santo Antônio, no Mosteiro de Santo Antônio (Centro Cultural São Francisco), embora Otacílio Nóbrega de Queiroz chame a atenção para o fato de que Irineu Pinto também aponta o local do crime como sendo a Fonte dos Milagres.
Como vimos anteriormente, antes de 1595, a fonte que viria a se chamar dos Milagres já existia no roçado de Francisco Pinto e passou, em 1595, a pertencer à sesmaria dos beneditinos. Mas, segundo Otacílio Nóbrega de Queiroz, o nome “dos Milagres” e as obras de melhoramento para criação de uma bica, chafariz etc. só ocorreram em meados do século XIX, quando a fonte já se encontrava soterrada, podendo mais informações serem obtidas lendo a obra “Roteiro Sentimental de Uma Cidade”, de Walfredo Rodriguez. O local do crime, portanto, foi nas proximidades da Fonte de Santo Antônio, próximo ao Convento de Santo Antônio, e não na antiga fonte que passou a pertencer aos beneditinos em 1595, posteriormente denominada dos Milagres.
Walfredo Rodriguez, fotógrafo, cineasta, documentarista, diretor e pesquisador paraibano (1893-1973) ▪️ Fonte: Sebo Cultural (PB)
“Apaixonado pela mulata Teresa, certo dia, indo visitá-la, depara-se, logo depois, com outro pretendente à infeliz mulher, que o agride e insulta-o. Após regressar ao claustro, cerca das 21 para as 22 horas, o frade sai de sua cela, desce por sua corda do convento, de chapéu branco, calça e camisa, levando por cima apenas o manto que usava. E, encontrando o escravo angolês Francisco, manda que este vá à casa da amante, chamá-la para um banho ou encontro juntos, em sítio dali, talvez próximo ‘ao portão do carro’. O escravo vai duas vezes. Finalmente aparecem Teresa e a filha menor, de sete anos. Daí por diante, basta ler o texto da sentença para se ter uma noção do caráter sádico e desapiedado daquele ‘incrível’ irmão de São Francisco (...).”
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