Esta nova viagem à Grécia – um breve périplo por Atenas, Corinto, Epidauro, Náuplios e Delfos – me fez refletir sobre pontos essenciais para entendermos a importância de sua cultura para o mundo ocidental. Aqui vão alguns tópicos.
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O MitoZeus é o grande deus que, depois da criação do universo por Gaia, trava duas lutas importantes, para definir a sua ordem, o Cosmos (κόσμος). A primeira luta é contra o seu pai e seus tios, os Titãs, denominada Titanomaquia;
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O MarSem o mar, a Grécia é nada. A Odisseia não é apenas um poema épico, que exalta Odisseus/Ulisses, o herói que destruiu Troia. Trata-se, na realidade, de um poema civilizador, que narra uma navegação que se expande para o Ocidente, conforme se pode ver no Canto V, quando Odisseus se encontra na doce e paradisíaca prisão da ilha de Ogígia, onde reside a bela ninfa Calipso. Por decisão dos deuses, Odisseus deve voltar para casa e, depois de pacificar o seu reino, deverá fazer nova viagem, para dar a conhecer aos povos, que não conhecem o mar, o sal e a arte de navegar. Difundir, sobretudo, a necessidade de ser industrioso, de criar navios e de saber navegar pelas estrelas, de modo a expandir seus horizontes. É na Odisseia que se encontra a primeira orientação pelas estrelas, no mundo ocidental.
O Nascimento de Afrodite ▪ Arte: Adolf Hiremy-Hirschl, 1893 ▪ Galerie Tibermont, Paris.
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O Touro CivilizadorTouro micênico (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
Europa, a princesa fenícia, raptada por Zeus e levada para Creta, marca o início da primeira civilização grega, a Minoica – Minos é seu filho, engendrado por Zeus. A busca da jovem pelo seu irmão Cadmo, a mando do pai, cria o mito de fundação da civilização Tebana, no continente helênico.
O mito do rapto de Europa é essencial, pois leva, da terra para o mar e do mar para terra, num movimento de retroalimentação, o alfabeto e a civilização, que não se erige sem uma linguagem escrita, que possa ser dominada por todos. Desse modo, a força da reprodução e da fertilidade se junta à necessidade da comunicação linguística, elementos seminais para a existência de uma civilização duradoura.
O Rapto de Europa ▪ Arte: Hendrick van Minderhout, 1650 ▪ Museu de Belas Artes, Rouen, França
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A LínguaA linguagem é necessária para que os homens passem a se entender. Da oralidade, a linguagem passa à escrita, meio inequívoco de preservação da cultura e da tradição. A escrita alfabética, que o mundo ocidental utiliza, sai da Fenícia para a Grécia, como já vimos, através de Cadmo. Ela substitui uma escrita limitada chamada de escrita silábica, em duas formas arcaicas,
Tabuinha de argila, com a escrita silábica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
É tão importante a criação do fonema vocálico, que o grego chamava de bárbaro (βάρβαρος), todo aquele que não sabia falar a sua língua ou que falava uma língua com balbucios de criança. Vê-se, pelo exemplo, como o sistema linguístico tem a propriedade de mudar o significado dos termos com o tempo. Na sua origem, bárbaro não tem qualquer relação com selvageria ou crueldade. Zeus, Europa e Cadmo, portanto, farão da Grécia o centro do Cosmos, de onde se irradia a escrita que dominará o Ocidente.
Tabuinha de argila, com a escrita silábica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
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A OurivesariaComo trabalho técnico e artístico, a ourivesaria se desenvolverá paralelamente, a partir do século XVI a. C., na cultura helênica, mais especificamente na cultura micênica, no Peloponeso. Uma infinidade de anéis, colares, braceletes, brincos, cintos, sinetes, esculpidos em baixo-relevo, atestam a fineza de um trabalho que remonta a quase 4 mil anos.
Ourivesaria micênica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Fotos: Milton Marques Júnior
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O Culto FunerárioA arte da ourivesaria se estende ao culto funerário, com as máscaras mortuárias, os escudos, os cintos e peitorais, que, na inumação do morto o acompanham na sua tumba. Trata-se de processo anterior à incineração, e aos jogos fúnebres, celebrando a honra dοs heróis.
Máscara mortuária (Século XVI a. C.), dita de Agamêmnon, Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
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A ArteA música aparece desde sempre. A poesia é só o seu desenvolvimento. O épico, poema narrativo para ser cantado, aparece como a honraria máxima de exaltação heroica e divinização do humano; a tragédia, como a queda do herói, de modo a mostrar a sua condição meramente humana, expondo-a, mais do que nos papiros e pergaminhos, como a épica, na representação dramática que se vivifica e se atualiza, nos grandes anfiteatros, como o de Dionisos, no pé da Acrópole ateniense, e o de Epidauro, no Peloponeso.
ESQ: Ruínas do grande Teatro de Dionisos, na encosta da Acrópole (Século V a. C.), Atenas. DIR: Necrópole de Micenas (Século XVI a. C.) ▪ Foto: Milton Marques Júnior
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Os MuseusMuseu (μουσεῖον) é, literalmente, a casa das Musas. O périplo pelos museus, como o Nacional Arqueológico de Atenas e o da Acrópole, ajuda na compreensão dessa contribuição inestimável que o mundo grego nos legou.
ESQ: Lira em marfim (Século XIII a. C.); Estatueta de um primitivo violino, representando um corpo feminino (2800-2300 a. C.). DIR: Flautista (2800-2300 a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Fotos: Milton Marques Júnior





















