Esta nova viagem à Grécia – um breve périplo por Atenas, Corinto, Epidauro, Náuplios e Delfos – me fez refletir sobre pontos essencia...

A importância da Grécia para o Ocidente

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Esta nova viagem à Grécia – um breve périplo por Atenas, Corinto, Epidauro, Náuplios e Delfos – me fez refletir sobre pontos essenciais para entendermos a importância de sua cultura para o mundo ocidental. Aqui vão alguns tópicos.

1
O Mito
Zeus é o grande deus que, depois da criação do universo por Gaia, trava duas lutas importantes, para definir a sua ordem, o Cosmos (κόσμος). A primeira luta é contra o seu pai e seus tios, os Titãs, denominada Titanomaquia;
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a outra, contra o monstro Tifon ou Tifeu, chamada Tifeumaquia. Ambas são relatadas por Hesíodo, na Teogonia. Para instituir a cosmogonia, a origem da ordem, Zeus teve de enfrentar as forças divinas e as forças ctônicas, que representam tudo o que está em Gaia, a Mãe-Terra, e o que está fora dela, porque dela surgiu.

2
O Mar
Sem o mar, a Grécia é nada. A Odisseia não é apenas um poema épico, que exalta Odisseus/Ulisses, o herói que destruiu Troia. Trata-se, na realidade, de um poema civilizador, que narra uma navegação que se expande para o Ocidente, conforme se pode ver no Canto V, quando Odisseus se encontra na doce e paradisíaca prisão da ilha de Ogígia, onde reside a bela ninfa Calipso. Por decisão dos deuses, Odisseus deve voltar para casa e, depois de pacificar o seu reino, deverá fazer nova viagem, para dar a conhecer aos povos, que não conhecem o mar, o sal e a arte de navegar. Difundir, sobretudo, a necessidade de ser industrioso, de criar navios e de saber navegar pelas estrelas, de modo a expandir seus horizontes. É na Odisseia que se encontra a primeira orientação pelas estrelas, no mundo ocidental.

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O Nascimento de Afrodite ▪ Arte: Adolf Hiremy-Hirschl, 1893 ▪ Galerie Tibermont, Paris.
Antes, disso, no entanto, Pontos, o Mar, precisa existir, como uma divindade de que surge Afrodite, deusa do amor erótico, nascida da ejaculação do membro viril de Urano, que cria as espumas do mar. Dali, a deusa leva a vida para a terra, quando aporta na Ilha de Citera, de modo que os seres vivos possam existir. Pontos, como entidade primeva que envolve Gaia, torna-se, portanto, essencial para a vida dos homens mortais, como diz Homero.

3
O Touro Civilizador
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Touro micênico (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
O culto do touro está ligado ao mar, embora represente a força da terra, na sua capacidade de fertilidade e de reprodução. Nessa linha, estão o touro de Creta, o Minotauro e o rapto de Europa por Zeus, metamorfoseado em touro.

Europa, a princesa fenícia, raptada por Zeus e levada para Creta, marca o início da primeira civilização grega, a Minoica – Minos é seu filho, engendrado por Zeus. A busca da jovem pelo seu irmão Cadmo, a mando do pai, cria o mito de fundação da civilização Tebana, no continente helênico.

O mito do rapto de Europa é essencial, pois leva, da terra para o mar e do mar para terra, num movimento de retroalimentação, o alfabeto e a civilização, que não se erige sem uma linguagem escrita, que possa ser dominada por todos. Desse modo, a força da reprodução e da fertilidade se junta à necessidade da comunicação linguística, elementos seminais para a existência de uma civilização duradoura.

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O Rapto de Europa ▪ Arte: Hendrick van Minderhout, 1650 ▪ Museu de Belas Artes, Rouen, França
4
A Língua
A linguagem é necessária para que os homens passem a se entender. Da oralidade, a linguagem passa à escrita, meio inequívoco de preservação da cultura e da tradição. A escrita alfabética, que o mundo ocidental utiliza, sai da Fenícia para a Grécia, como já vimos, através de Cadmo. Ela substitui uma escrita limitada chamada de escrita silábica, em duas formas arcaicas,
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Tabuinha de argila, com a escrita silábica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
a Linear A e a Linear B, esta já decifrada, foi utilizada para a documentação da vida palaciana. A escrita silábica expande os horizontes, tendo em vista a capacidade ilimitada de combinar os fonemas. O mundo helênico recebe a escrita fenícia, basicamente formada por consoantes, à qual anexa as vogais, concedendo suavidade à leitura e, sobretudo, ao falar.

É tão importante a criação do fonema vocálico, que o grego chamava de bárbaro (βάρβαρος), todo aquele que não sabia falar a sua língua ou que falava uma língua com balbucios de criança. Vê-se, pelo exemplo, como o sistema linguístico tem a propriedade de mudar o significado dos termos com o tempo. Na sua origem, bárbaro não tem qualquer relação com selvageria ou crueldade. Zeus, Europa e Cadmo, portanto, farão da Grécia o centro do Cosmos, de onde se irradia a escrita que dominará o Ocidente.

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Tabuinha de argila, com a escrita silábica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
5
A Ourivesaria
Como trabalho técnico e artístico, a ourivesaria se desenvolverá paralelamente, a partir do século XVI a. C., na cultura helênica, mais especificamente na cultura micênica, no Peloponeso. Uma infinidade de anéis, colares, braceletes, brincos, cintos, sinetes, esculpidos em baixo-relevo, atestam a fineza de um trabalho que remonta a quase 4 mil anos.

 
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Ourivesaria micênica (Século XVI a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Fotos: Milton Marques Júnior
6
O Culto Funerário
  A arte da ourivesaria se estende ao culto funerário, com as máscaras mortuárias, os escudos, os cintos e peitorais, que, na inumação do morto o acompanham na sua tumba. Trata-se de processo anterior à incineração, e aos jogos fúnebres, celebrando a honra dοs heróis.

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Máscara mortuária (Século XVI a. C.), dita de Agamêmnon, Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Foto: Milton Marques Júnior
7
A Arte
A música aparece desde sempre. A poesia é só o seu desenvolvimento. O épico, poema narrativo para ser cantado, aparece como a honraria máxima de exaltação heroica e divinização do humano; a tragédia, como a queda do herói, de modo a mostrar a sua condição meramente humana, expondo-a, mais do que nos papiros e pergaminhos, como a épica, na representação dramática que se vivifica e se atualiza, nos grandes anfiteatros, como o de Dionisos, no pé da Acrópole ateniense, e o de Epidauro, no Peloponeso.

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ESQ: Ruínas do grande Teatro de Dionisos, na encosta da Acrópole (Século V a. C.), Atenas. DIR: Necrópole de Micenas (Século XVI a. C.) ▪ Foto: Milton Marques Júnior
8
Os Museus
Museu (μουσεῖον) é, literalmente, a casa das Musas. O périplo pelos museus, como o Nacional Arqueológico de Atenas e o da Acrópole, ajuda na compreensão dessa contribuição inestimável que o mundo grego nos legou.

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ESQ: Lira em marfim (Século XIII a. C.); Estatueta de um primitivo violino, representando um corpo feminino (2800-2300 a. C.). DIR: Flautista (2800-2300 a. C.), Museu Nacional Arqueológico de Atenas. ▪ Fotos: Milton Marques Júnior
As narrativas teogônicas e cosmogônicas, que herdamos do mundo helênico e nos chegou através da cultura latina, mostram a ligação entre terra e mar, proporcionando ao homem a capacidade de expandir-se e de fundar civilizações. Resta-nos aprender que civilização significa, sobretudo, a busca do conhecimento para o crescimento conjunto e harmônico, o sentido que se encontra na palavra Cosmos, que o latim traduziu como Mundus. Ainda há tempo.

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