Ascendino Leite nasceu em Conceição do Piancó, Paraíba, em 21 de junho de 1915, e faleceu em João Pessoa, no dia 13 de junho de 2010. Filho de Manuel Cândido Leite e de D. Ana Caçula de Figueiredo Leite, esta chegou aos 102 anos de idade. Certo dia, ela comentou ao filho que viver muito aborrece, sendo isso constatado por ele, conforme me contou em um dos nossos diálogos. Um dos maiores poetas paraibanos, também foi
Carlos Drummond de Andrade ▪️ Fonte: IMS
romancista e crítico literário. Iniciou a carreira jornalística muito cedo, exercendo funções públicas e trabalhando em jornais paraibanos antes de embarcar para o Rio de Janeiro, com atividades em grandes jornais cariocas ao lado, inclusive, de Carlos Drummond de Andrade.
Recebeu o título de “Mestre do Jornal Literário”, sendo amplamente reconhecido em vários estados. O Engenho Santa Inês lhe deu uma infância forte (os engenhos fazem isso), seguindo os traços do Engenho Corredor, de José Lins do Rego, bem como os de João Cabral de Melo Neto (Poço do Aleixo), Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala) e Joaquim Nabuco (Massangana). Aforismos e euismos eram marcantes também em suas obras literárias. Conquistou a imortalidade na Academia Paraibana de Letras, apesar de alguns de seus pares deixarem claro que era merecedor de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
No ano de 2000, Ascendino, ao completar 85 anos, recebeu uma bela homenagem de A União, com sua Série Histórica, Nomes do Século, edição 25, com 133 páginas, sendo um exemplar repassado a mim por suas próprias mãos. Aliás, homenagens a ele nunca faltaram. Grandes personagens da
Ascendino Leite ▪️ Fonte: Editora Ideia
literatura memorizaram seus escritos, a exemplo de
Joacil de Britto Pereira (Convívio Literário de Ascendino Leite), Hildeberto Barbosa Filho (Ascendino Leite: a paixão de ver e sentir), Sonia van Dijck (Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa), José Rafael de Menezes (O poder reflexivo de Ascendino Leite), José Nunes e Angélica Nunes (Ascendino Leite, vida e obra), entre outros, inclusive monografias sobre sua vida e seus escritos, afora prefácios, apresentações e textos diversos, como os de Gonzaga Rodrigues, Chico Viana e Astier Basílio. Mas a lista seria enorme; não caberia toda aqui. Ascendino tinha a sensibilidade de plantar asas e raízes nos leitores.
Segundo listagem do seu acervo bibliográfico, organizado por sua assistente Ivonete Souza, foram várias publicações no Rio de Janeiro, como “Durações”, pela Vozes (1963), e “Um ano no outono”, pela Cátedra (1983). De modo simples, acanhado, chegou, em 1993, à editora Ideia, solicitando que fizessem rapidamente o livro, pois não teria muito
tempo de vida. Ao longo dos 17 anos seguintes, publicou 27 títulos apenas com esse selo editorial. Apesar de não registrada, possuía o selo da EDA Edit, que constou na capa dos primeiros títulos, ficando apenas “Ideia” nos títulos seguintes. Alguns dos seus jornais literários, lançados na década de 1980, foram relançados nas décadas de 1990 e 2000, a exemplo de “As coisas feitas”, “Os dias esquecidos” e “Os dias memoráveis”. Entre os romances estão “O brasileiro” e “A viúva branca”. Entre as obras publicadas, eu destacaria 22 títulos do Jornal Literário, 4 romances e 12 títulos de poesia.
Em Poemas do fim comum, escreveu:
“O verdadeiro destino da palavra é, com certeza, a poesia. É o seu rumo, o seu objetivo, o seu ponto de chegada. Mas seu agente, sua força ejetora por excelência, é o intimismo do artista, baseado no realismo linguístico e na imaginação criadora desatada.”
GD'Art
Destacando seu lado poético, é prazerosa a leitura de “Poesia ou morte”, lançado em 2006 (Ideia), edição de luxo para a época, como ele ressaltou: dupla capa, alto-relevo, 682 páginas, iluminuras coloridas de Mercedes Cavalcanti, reunindo 8 livros de poesia (Jardim Marítimo, Visões do vale, Os juízes, O nariz de Cíntia, Por uma saudade azul, Poemas do fim comum, À flor da terra e Loas a Chile) e que demonstra o quanto ele se dedicava à poesia nos últimos anos de sua existência. No texto das orelhas, Ascendino ressalta os elogios que a escritora Raquel Naveira fez ao ler sua vasta literatura:
“Escuse-me, querida Raquel Naveira, estou comunicado dessas divinas descobertas; e, comigo, uns tantos camaradas e sonhadores que, como eu, acreditam na força e no mistério da palavra; pois, se assim não fosse, poetas, cantadores e seresteiros não mereceriam o terceiro céu.”
GD'Art
Há uma sinestesia quando as palavras, trazendo um forte cheiro de história, me remetem aos anos de puberdade da editora.
Francisco Carvalho, poeta e crítico cearense, escreveu:
“Em Ascendino Leite, um dos maiores humanistas deste país de tecnocratas globalizados, ‘há uma virilidade genética que a poesia converte em ternura e sensualidade de patriarca bíblico’.”
No livro “O nariz de Cíntia (poesia antiépica)”, Hildeberto Barbosa Filho comentou:
Hildeberto Barbosa Filho
“É curioso como um escritor, que ao longo da vida se exercitou na crítica literária, na ficção e no gênero singular da literatura intimista, parece querer concluir o vasto edifício de sua verbalização estética com as argamassas e cores de líricos portais, entrevisto em uma poesia, se, por vezes, circunstancial, quase sempre, no entanto, caracterizada pelo olhar crítico, irônico, distanciado, reflexivo.”
Joacil de Britto Pereira ressalta seu Jornal Literário:
“No convívio literário, Ascendino fortalece o espírito. Com pessoas de perto ou bem distantes, faz confissões, permuta ideias, troca segredos, tudo como ocorre aos sonhadores. Há muito romantismo nesse coração de velho que permanece jovem.”
Joacil de Brito Pereira
Poderia citar tantos outros comentários sobre Ascendino, a exemplo de João Bigotte Chorão, Vasco Mariz, Gerson Vale, Antônio Carlos Villaça, Luiz Carlos Lisboa, Ivo Barroso e Tristão de Ataíde, mas prefiro ressaltar os escritores ligados à sua terra natal, que melhor podem traduzir suas palavras.
Entre todos os amores a que se dedicou, nunca esqueceu sua verdadeira e única amada, Rosa. Foi um amor intenso, como ele me confidenciou. E, para ela, ressaltou a poesia “Rumores”, descrita a seguir:
Só se morre uma vez;
Só uma vez se morre;
Como a flor, no campo, aflora
No meio das coisas:
A pedra, a argila seca,
Outra flor e os bichos
À espera das tumbas
(ou cárceres)
Já que estás morta,
Com todos os sentidos,
Pés e mãos, e a língua
Que dá força ao verbo
E só, rápido, perfeito:
– Rosa, entre duas pedras,
E divino, lembrando o além,
Sem que nos afastemos.
Em “Os pecados finais”, escreveu:
“Nasci livre, inclusive para escolher minha forma de morrer. Vivi verticalmente sempre e pouco dormi, para ter a sensação de viver mais.
O saber me faz medo.”
Ascendino Leite
ÁGUA VIVA
Toquei a tua boca,
água viva que me queima;
toquei o dorso liso,
côncavo instável
de teu seio fervilhante;
toquei a tua língua,
gosto de suor e de mar.
Água viva, água viva,
que o torso envolve,
onda, alga, musgo
prendem teu colo,
arquipélago de suspiros,
ilha de meu amor;
pudesse só eu ser
abandonado despojo
de remotos mares.
Água viva majestática,
dentre deltas ignotos,
voz de mil suicidas,
saliva de afogados,
envolvei-me, envolvei-me
em vossos braços letais.
As coisas feitas, 1980
Um ano no outono, 1983
Os dias esquecidos, 1983
Visões do vale – poesia, 1993
Jardim marítimo – poesia, 1995
Euismos, 1997
Os pecados finais, 1997
O nariz de Cíntia – poesia, 1998
Os juízes – poesia, 1998
Por uma saudade azul – poesia, 1999
Surpresas na partida, 1999
Doces vozes do silêncio, 2000
Poemas do fim comum – poesia, 2000
Caracóis na praia, 2001
Visões do Prata, 2001
Vulgata – poesia, 2002
Aforismos da precisão, 2003
À flor da terra – poesia, 2003
O princípio das penas, 2003
Os pesares, 2004
As pessoas, 2004
O jogo das ilusões, 2004
Loas a Chile – poesia, 2005
O brasileiro, 2005
A viúva branca, 2006
Poesia ou morte – poesia, 2006
Na ciência dos fatos, 2007
Os dias memoráveis, 2008
* Texto selecionado para fazer parte da Coletânea dos Poetas Mortos, da Confraria dos Bibliófilos da Paraíba.