Na década de 1990, o Brasil atravessava um tempo de virada, desses em que a História parece abrir uma janela e dizer: “entrem depressa,...

Zabé, a maestrina

Na década de 1990, o Brasil atravessava um tempo de virada, desses em que a História parece abrir uma janela e dizer: “entrem depressa, antes que a esperança desista”.

O Plano Real chegava com promessa de conter a inflação que corroía o prato da maioria, mas, no sertão nordestino, a mudança não atravessava a caatinga com a mesma velocidade. No Cariri, no Sertão, no Curimataú e no Agreste, a miséria continuava palpável, entranhada no chão, nas casas de taipa, nos rostos marcados pelo sol e nas moradias improvisadas.

Comunidade rural Santa Catarina, localizada no município de Monteiro, no Cariri Paraibano ▪️ Instagram: geografia_da_paraiba
Foi nesse cenário que conheci Dona Isabel, a Zabé da Loca, no assentamento dos sem-terra da Fazenda Santa Catarina, em Monteiro, na Paraíba. Atendendo ao convite de Ronald Queiroz, à época superintendente do Incra, que me disse que eu precisava conhecer um lugar ímpar e uma mulher sábia, e deveria correr para lá fazer um documentário, uma proposta de projeto cultural.

Aquele latifúndio improdutivo, na caatinga, foi sendo ocupado por homens, mulheres e crianças que chegavam, ficavam e tentavam sobreviver. Não era uma chegada sem história. Cada família trazia memórias, modos de viver, tradições, cansaços antigos e uma cultura de resistência que não cabia nas estatísticas.

Chamavam-na Zabé da Loca. Não por acaso. Sua casa era uma loca, cavidade na pedra, gruta e abrigo natural onde vivia com filhos e netos. Para muitos, aquilo parecia improvável: “como alguém pode morar numa loca?”. Para ela, era a possibilidade concreta de habitação. A dignidade, porém, não se media pelos tijolos que faltavam, nem pela taipa ausente, mas pelo gesto cotidiano de permanecer, limpar, cozinhar, educar, tocar e resistir.

Casa de Zabé da Loca (Monteiro-PB) ▪️ Foto: Evandro Pereira (A União)
Zabé vivia com o mínimo dos mínimos. Um fogão de pedra sustentava uma lata de água onde fervia, repetidas vezes, o mesmo pó de café. Ao redor, havia lençol gasto, criança chorando, utensílios improvisados e a precariedade tentando sufocar qualquer esperança. Mas, naquele espaço de pedra, ela guardava um segredo: uma zabumba e três canos de pife. Era música o que carregava como reserva de vida.

E era nesse ponto que a narrativa encontra seu eixo. Zabé não apenas vivia; ela regia. Era maestrina de uma banda de pífano. Fumante inveterada, soprava no pife, ora de bambu, ora de cano de PVC improvisado, e dali nascia uma banda. Ao seu redor se reuniam Levino, Mané Beiçola, os filhos Zé Maria e João e, vez ou outra, o neto Júnior. Tocavam excelências, forrós e louvores. Tocavam para Santa Catarina, padroeira do lugar. Tocavam a própria sobrevivência.

“Ninguém é de ferro, meu fi, e a goela e o beiço secam.” A frase, dita entre um sopro e outro, não era folclore, nem graça; era ironia dela mesma. Era filosofia de beira de pedra, sabedoria de quem compreendia o corpo, o cansaço, a festa e a necessidade.

Cena do vídeo-documentário Terra de Morada, fragmentos de indentidade (adap), dirigido por Durval Leal Filho ▪️ Fonte: Correio da Paraíba
Um gole de cachaça, vez ou outra, não diminuía a maestrina; apenas lembrava que a santidade popular também sua, soa, transpira e seca a boca.

A música ecoava no sertão como lembrança de um tempo suspenso entre sonho e necessidade. “Eu tenho casa, eu tenho ouro, tenho dois navios do mar, tenho uma mulata bonita. Meu Deus, para que trabalhar?”

A letra simples falava de casa, ouro, navios e desejos, mas, na voz da caatinga, virava ironia da sobrevivência. Zabé não tinha casa no sentido comum, não tinha ouro, não tinha navios. Tinha uma loca, um pife e uma autoridade cultural que nenhum cartório ou estúdio registrou.

Outra cantiga chamava: “Oh de casa, oh de fora… Maria, vai ver quem é… É um cantador de fora… Quem mandou foi São José.” A devoção entrava pela música como forma de ordenar o mundo. São José, padroeiro do trabalho e da esperança, parecia visitar aquela geografia onde a terra era pouca, a água era rara e o futuro, quando aparecia, vinha de sandália gasta.

Zabé da Loca não era apenas sobrevivente da miséria; era guardiã de uma arte ancestral. Sua banda não era ornamento de assentamento, nem distração de pobreza. Era prática comunitária, memória coletiva e afirmação sociocultural.

Zabé da Loca: prática comunitária, memória coletiva e afirmação sociocultural.▪️Instagram: @meu_nordestearretado
Ao formar grupos, celebrar devoções, reunir vizinhos e tocar para sua gente, ela construía pertencimento. Não se trata de romantizar a pobreza, esse vício elegante de quem olha de longe. Trata-se de reconhecer a dignidade construída dentro dela.

O assentamento mostrava as marcas do abandono. Casas de taipa abrigavam famílias. O açude, raso e quase seco, mal garantia água para beber. O gado havia desaparecido. A terra, outrora produtiva, estava reduzida ao mínimo. Ainda assim, havia vida. E, onde havia vida, havia criação: campo de futebol, rendeira, bordadeira, escultor, artesão, doceira, louceira.

As mãos dos moradores organizavam uma economia silenciosa, paralela e necessária.

Foi desse reconhecimento que nasceu o projeto Terra de Morada – Fragmentos de Identidade, realizado pela Organização Não Governamental PARAÍWA, em convênio com o INCRA, com apoio da COEX/UFPB, e a Prefeitura de Monteiro, na gestão do prefeito Carlos Batinga, que viabilizou a impressão do livro. O objetivo era compreender a subsistência não apenas pela terra, mas pela cultura, diversidade e desenvolvimento do território.

Zabé da Loca ▪️ Foto: Durval Leal Filho
O caririzeiro e o sertanejo não eram somente agricultores; são também artistas, narradores, artesãos, músicos, trabalhadores da memória. Zabé da Loca encarnava essa síntese: mulher, pifeira, maestrina, moradora de uma loca e ativista sociocultural sem crachá e sem mecenas.

Ainda como aspirante a documentarista, minha ferramenta não era apenas a palavra, mas a lente. Carregava comigo a câmera Nikon 35 mm e o aprendizado do NUDOC, da UFPB, onde o cinema documental ensinava a enquadrar a vida do outro sem invadi-la. A câmera, diante de Zabé, não podia ser superior. Precisava escutar. Precisava compreender que filmar aquela mulher era registrar uma presença histórica, não uma curiosidade regional.

A década de 1990 também trouxe uma revolução silenciosa: videocassete, câmeras VHS, locadoras, acesso a filmes, registros comunitários. O audiovisual deixava de ser apenas luxo técnico e passava a servir como prova, memória, denúncia e elo de difusão de conhecimentos.

Na Paraíba, essa intuição vinha de longe. “Aruanda” já havia apontado o abandono das populações invisibilizadas. Zabé, décadas depois, continuava a dizer, com seu pife, que invisível não é quem desaparece; é quem a sociedade insiste em não ver.

Zabé da Loca ▪️ Jornal GGN
Em Santa Catarina, as mulheres tinham papel central. Não eram apenas donas de casa; eram trabalhadoras, artistas, artesãs, doceiras, louceiras. Enquanto muitos homens sucumbiam ao ócio ou à bebida, eram elas que guardavam a memória do fazer.

Zabé, nesse conjunto, ocupava lugar singular: fazia da música uma forma de liderança comunitária. Sua autoridade vinha do sopro, da persistência e da capacidade de transformar precariedade em encontro.

Como lembrava Milton Santos, a organização do espaço não pode ser entendida apenas pelos elementos físicos, mas pelas relações sociais. A Fazenda Santa Catarina revelava isso com clareza. A terra não era apenas solo árido; era território de disputa, uso, esperança e abandono. A reforma agrária, muitas vezes, parecia distribuir sem estruturar, conceder sem garantir futuro. Mesmo assim, no vazio deixado pelo Estado, a cultura teimava em organizar sentido.

A natureza também sofria. A caatinga, explorada para carvão, transformava-se em deserto. Os invernos irregulares não garantiam lavouras. Restava a terra como abrigo mínimo e restava a cultura como morada simbólica. Zabé não tinha quase nada, mas possuía uma coisa que a miséria não conseguiu confiscar: a capacidade de reunir pessoas em torno de uma música.

Zabé da Loca ▪️ Foto: Wikipedia (desc)
Enquanto o mundo se transformava, a globalização entrava pelas antenas parabólicas. Uns assistiam a “Parque dos Dinossauros”; Zabé tirava som de uma taboca, bambu sertanejo. O contraste parecia absurdo, mas era profundamente brasileiro. De um lado, o espetáculo tecnológico; de outro, uma mulher em uma loca de pedra, soprando um pife e ensinando que desenvolvimento sem dignidade é apenas propaganda com trilha sonora cara.

Revisito essas imagens hoje e percebo que a História não é linear. O que parecia atraso era memória ancestral. O que parecia avanço não garantia dignidade. O projeto Terra de Morada cumpriu sua missão ao mostrar que a subsistência também está na arte, no ofício, no canto, no barro, na renda, no pife e na coletividade. Zabé da Loca não foi apenas personagem documentada; foi sujeito histórico que dimensionou uma realidade.

No fim, o estudo da Fazenda Santa Catarina se organiza como síntese: terra e cultura se entrelaçam como condições mínimas de sobrevivência. Entre zabumbas tocadas em locas de pedra, campos de futebol improvisados e mulheres que sustentavam a continuidade da vida, ergue-se a figura de Zabé.

A Maestrina Pifeira, guardiã de uma arte ancestral e ativista sociocultural pela prática. Viveu com dignidade e resignação. E, registrada em vídeo, permaneceu no tempo não como retrato da pobreza, mas como prova da grandeza humana diante da escassez.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas