A fêmea, na acepção científica que a antropóloga Fátima Quintas descreve em “A Civilização do Açúcar”, coletânea de estudos com o selo...

A nossa cachaça

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A fêmea, na acepção científica que a antropóloga Fátima Quintas descreve em “A Civilização do Açúcar”, coletânea de estudos com o selo da Fundação Gilberto Freyre, mais me convence da intuição de um velho cronista biriteiro sobre a origem da cachaça. O modo como a
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escritora anima a nossa cunhã luzidia, de cabelos sempre molhados, deslumbrada com o garanhão aportado de longas viagens salgadas, afogueado de todas as hiperestesias do trópico, me faz acreditar no “cajual da sodomia” em que demora a História da Paraíba, do velho Horácio de Almeida, noticiando os festins da indiada no seu veraneio primitivo.

A afrodisia do caju não é imaginária. Tanto não era que os monges construtores da Igreja da Guia, em Lucena, diante de outras frutas e essências naturais e importadas, cedem ao caju as paredes sagradas do templo carmelita do século XVI.

Antes de se entregar aos portugueses (e não é improvável que eles a tenham estuprado), a cunhã potiguar deixou-se transar, sem nenhuma dúvida, pelo apetite do normando que se apossava, maneirosamente, do nosso pau de tinta e das nossas mulheres. Descobriram a rede e quem nela se deitasse, enquanto os machos cortavam a mercadoria das nossas matas e da cobiça corsária.

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GD'Art
Na história encomendada por Assis Chateaubriand a Almeida Prado, “A Conquista da Paraíba”, pouco lida e nunca citada entre nós, é onde melhor se percebe a primazia dos barcos franceses em praias da Paraíba e do Nordeste, a julgar pelo batismo francês de algumas delas.

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Veiga Cabral, um cronista das letras e das artes, leitor apaixonado de Zé Lins e ouvinte embriagado das “Bachianas Brasileiras”, jornalista que a Paraíba esqueceu, desconfiava seriamente de que a Paraíba se antecipara a Itamaracá e ao resto do Brasil na invenção da cachaça. Justamente por esse demorado convívio do nativo com o aventureiro francês. Faltando a borra de vinho para as suas libações, descobriu a borra da cana para a cachaça.

Num trabalho que escrevi para a Associação dos Produtores de Cachaça da Paraíba, a convite do seu então presidente, Vicente Otávio Lemos, aparece um Pyrard de Laval,
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Fátima Quintas, antropóloga, ensaísta, pesquisadora, cronista e escritora pernambucana, pós-graduada em Antropologia Cultural (Lisboa) ▪️ Foto: Rafael Furtado
francês que viu fazer vinho do suco de açúcar. Vinho branco, cristalino e forte, faltou dizer. E Erwin Weimann, levando a cachaça a sério num trabalho patrocinado pela Volkswagen, descobre a Paraíba, numa ilustração holandesa, dando nome ao primeiro engenho do Brasil, o “Paraíba” de Itamaracá. Com a índia “anestesiada como criança diante do brinquedo recebido (...) vigorosa na capacidade de entregar-se inteira, cabelos molhados, pele bronzeada (...) pronta para a oferenda do prazer”, como imagina Fátima Quintas.

Encontrei, já depois de impresso o esboço histórico intitulado “Carta / Cachaças da Paraíba”, a mais autorizada confirmação, assinalada na História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, livro de 1627:

“Digna é de todos os louvores a terra do Brasil, pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de outras terras. Senão pergunto eu: de Portugal vem farinha de trigo? A da terra basta. Vinho de açúcar se faz mui suave e, para quem o quer rijo, com o deixar ferver dois dias, embebeda como o de uva.”

Cachaça que a pujança do Nordeste açucareiro e revolucionário abastecia e ensinava o Brasil a biritar.
  *Publicado no jornal A União em 14/06/26

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