Lendo a crônica da jornalista Rosa Aguiar, “O Grande Portinari”, em A União de 18 de julho, eis que comecei a passear pelos assuntos de Rosa. Qual o seu pintor favorito? Rosa inicia o seu passeio. E fala de Renoir, de Archidy Picado e de Portinari e do seu lugar de nascimento, Brodowski (SP). Pronto, foi o meu ponto de partida! E lá vou eu para 1972, para uma viagem de carro até Ribeirão Preto, onde moravam os meus cunhados, Lela Melquíades e Zezinho Tavares (Dr. José Arnaldo Tavares de Melo, in memoriam). Viajamos eu, o namorado Flávio Tavares, meu cunhado Sérgio Tavares (*in memoriam) e a minha sogra, D. Otaviana.
O lavrador de café ▪️ Arte: Cândido Portinari, 1934
Na casa dos meus pais não havia objetos de arte, nem reproduções. Na adolescência, devo, no máximo, ter pregado na parede um pôster de Alain Delon ou Steve McQueen, quem sabe. Mas havia uma estante de livros do meu pai e o *Tesouro da Juventude*. Assim como a casa de Rosa, a minha casa, toda minha, também tem quadros, objetos de arte popular e livros. Todo trabalhador que por aqui aparece para consertar uma pia ou qualquer objeto doméstico, noto que fica embevecido com o colorido e me pergunta se sou artista. Respondo que sou professora, mas que gosto das artes. O último veio buscar o meu colchão king antigo e, na hora de levá-lo, eu pedi um minuto para as despedidas e me atraquei com o colchão para os abraços finais.
Coleção Tesouro da Juventude, enciclopédia infantojuvenil das mais famosas e nostálgicas do século XX no Brasil e em Portugal, lançada em 1920 ▪️ Fonte: anosdourados.com.br
Vitrais de Marc Chagall (Igreja de Fraumünster, Zurich) ▪️ Fonte: patrickcomerford.com/
Também sou muito admiradora de Matisse e, assim como Picasso, a Tate Modern de Londres exibiu os seus sketchbooks maravilhosos. Compro sempre os cartões e camisetas, já que jamais poderia pensar em adquirir qualquer pincel que fosse. Marc Chagall, nos vitrais de Zurique, foi outra paixão, em 1987. Aqueles noivos todos voando e flutuando nas paixões efêmeras ou não. Sem falar em *O Beijo*, de Klimt; em *O Beijo*, de Rodin, em Paris; e nas *Ninfeias*, de Monet, no Museu de l'Orangerie, também em Paris; ou nas *Quatro Estações*, de Mucha, em Praga.
Já na Provence, em 2023, não resisti às amendoeiras de Van Gogh, aos jardins ensolarados de Arles e a toda a história da sua loucura, da orelha, do irmão e da melancolia. Também às folhagens sombrias de Paul Cézanne, em Aix-en-Provence. Coisa para se pensar enquanto subia as ladeiras para visitar a sua casa/ateliê em 2023.
Ana Adelaide no Museu Magritte (Bruxelas, 2024) ▪️ Facebook: Acervo da autora
Mulheres conheço poucas. No mundo da invisibilidade, citarei apenas Frida Kahlo como representante das Artemísias, Tarsilas, Anitas, Heloísa Maia e tantas outras. Corpos. Corpos disformes. Fraturas. Ângulos. Cores fortes. Sombras e luzes.
*And last, but not least*, toda a trajetória de Flávio Tavares, que primeiro me apresentou quadros, terebintina, pincéis, pintores, museus e o gosto por admirar uma tela em branco. Ou rabiscada e pintada. E, mais ainda, pela sua obra, iniciada ainda criança e que, com o passar do tempo, vem sendo admirada e reverenciada pela nossa cidade e pelo mundo afora. São tantos quadros belos de Flávio que não saberia escolher um, mas cito *As Mulheres Embaixo do Cajueiro*, que abrilhantava a agência do Banco do Brasil, no Centro. Além de tê-lo visto pintá-lo, ainda ia lá de quando em vez admirá-lo. De uma beleza e singeleza desconcertantes.
Ana Adelaide Peixoto e Flávio Tavares ▪️ Acervo da autora










