Em conversa com meu neto Arthur, ele, falando de animais, a sua mais recente paixão, referiu-se à jaguatirica como “o jaguatirico”. Para que ele pudesse, futuramente, fazer uso do normativo, disse-lhe que ele deveria dizer “a jaguatirica macho”, pois não existe o par opositor jaguatirico/jaguatirica. É importante frisar que não mencionei se era certo ou errado, mas o que era mais adequado, de acordo com a norma vigente.
A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino nativo das Américas, de hábitos predominantemente noturnos. ▪ Foto: G. Laurent
Desse modo, jaguatirico, ainda que não abonado pela norma, é perfeitamente viável, por estar no sistema da língua. Arthur não sabe disso, mas intui, porque o sistema linguístico aponta-lhe uma lógica desfeita pela norma dos homens, cuja gramática se pretende melhor e maior do que a gramática natural da língua.
Uso o exemplo de meu neto, para chegar a João Guimarães Rosa (utilizamos contos de Sagarana, 72ª. ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2017). É sabido o jogo linguístico desse autor, traço diferencial de seu estilo narrativo. Rosa retoma o uso, colocando novamente em circulação o arcaísmo, que se encontra no passivo da língua. Ao mesmo tempo, ele cria e, sobretudo, recria novos termos, devidamente contextualizados,
João Guimarães Rosa (1908–1967) médico, diplomata e escritor mineiro, nascido em Cordisburgo, autor de Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas.
Acredito que é preciso dizer uma palavra a mais, a respeito do arcaísmo e do neologismo. Não é nesses dois recursos que se esgotam a criatividade e expressividade da linguagem literária de Guimarães Rosa. O escritor também se utiliza de regionalismos de uso informal, de palavras não corriqueiras, porém, em uso, apesar de datação muito antiga na língua, e de expressões eruditas. Há uma infinidade, de que daremos alguns exemplos. Vejamos inicialmente a utilização do arcaísmo. Os arcaísmos se tornaram, curiosamente, peças eruditas, como é o caso de trôço (usaremos aqui sempre a grafia de Guimarães Rosa, “O duelo”, p. 147), termo do século XVI (1513). No sentido de ajuntamento de pessoas, bando ou tropa de guerreiros, como acontece na sua utilização por Gonçalves Dias, em “I-Juca-Pirama”, no canto de morte do guerreiro Tupi, prisioneiro dos Timbiras (Parte IV, estrofe 9):
“Então, forasteiro,
Caí, prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja, – dizei!”
E, porque conhece bem a língua que maneja, Guimarães Rosa sabe os mistérios, por exemplo, do erudito que se tornou popular, mas, como se transformou em arcaísmo, é termo raro, com ar de erudição. Um belo jogo. É o caso de parabellum e meizinha, ambos compondo a narrativa de “O duelo” (p. 145 e 164, respectivamente). O primeiro termo foi aportuguesado e tomou a forma de parabélum. Guimarães Rosa preferiu a forma erudita e original – parabellum –
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O termo meizinha é a ditongação natural da forma aceitável mezinha. Diz-se aceitável, porque de acordo com as transformações operadas pelas leis fonéticas. Diferentemente daquilo estabelecido como norma pelos gramáticos, a fonética tem as suas leis, atuando com a regularidade de um relógio, em favor de uma lei maior chamada Lei do Menor Esforço. Mezinha ou meizinha (século XIII) nada mais é do que a evolução do termo latino medicina, cujo significado é medicamento. A mezinha conhecida nos rincões desse Brasil é o medicamento caseiro, mas a sua origem, nem sempre abonada pelos médicos, é a palavra medicina, cuja evolução, para a língua portuguesa, se dá da seguinte forma:
medicinam > medicina > meicina > mezina > mezinha
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Com relação aos neologismos, temos que explicar que há dois tipos deles, aqueles que são originários de um paradigma existente no sistema linguístico, e aqueles que são verdadeiros neologismos, criação de João Guimarães Rosa, como Manuel Bandeira criou o verbo teadorar, no poema “Neologismo”, para o livro Belo belo:
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
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“Segue-seguindo, a ativa junta do pé-da-guia: Capitão, salmilhado, mais em branco que em amarelo, dando a direita a Brabagato, mirim-malhado de branco e de preto; meio chitado, meio chumbado, assim cardim. Ambos maiores do que os da junta da guia.”
O segundo tipo de neologismo é aquele previsível, por estar no sistema linguístico, o que não exclui a criatividade. João Guimarães, como conhecedor da língua tem a consciência dos neologismos desse tipo. Ele os emprega, por saber que o paradigma existe e permite a realização. A diferença está no fato de que os personagens que usam tais paradigmas não o fazem por ser conhecedores da língua, mas por serem seus usuários e, de certo modo, intuirem que existe uma lógica ou uma coerência na sua utilização. Bom ouvinte e atento aos registros linguísticos, nas suas andanças pelos gerais mineiros, Rosa cria em cima da possibilidade,
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O sistema apresenta, conforme já vimos, a oposição masculino /feminino, quando há relação de sexo, com a desinência de gênero /-a/ se contrapondo à vogal temática /-o/. O dicionário só abona laranja, revelia e sovina, mas, como no conto esses termos são empregados para homens ou para bois, todos para o masculino, portanto, opera-se na mente do falante uma hipertrofia da correção, levando-o a dizer laranjo, revelio e sovino, assim como se diria menino, moço e velho. É semelhante ao que faz Jorge Amado, ao colocar na boca de Pedro Arcanjo, personagem de Tenda dos Milagres, o termo camarado. A recriação da linguagem faz o escritor utilizar desfrear (“A volta do marido pródigo”, p. 107), no sentido de tirar o freio; mesmando (“O duelo”, p. 168), a partir de cismando ensimesmado, e desageração (“Conversa de Bois”, p. 288), em lugar de exagero.
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