Prolegômenos
(Da Série: Deixemos Homero falar)
(Da Série: Deixemos Homero falar)
A Ilíada e a Odisseia são poemas milenares, produzidos numa época distante (século VIII a. C.), enfocando uma época bem anterior à sua criação. Estima-se que o assunto desses épicos recue para um mundo pré-helênico do século XII a. C., quando existiam, no Mediterrâneo oriental, duas civilizações pujantes: a micênica, no Peloponeso, e a cretense, no meio do mar Egeu.
GD'Art
Antes que me falem, no entanto, deixo claro que a polêmica sobre a existência de Homero é irrelevante. Apenas posso afirmar que, depois de duzentos anos na oralidade (séculos VIII-VI a. C.), as obras homéricas receberam uma versão escrita, a pedido de Pisístratos (século VI a. C.), de modo a fazer retornar o poema ao seu estado original, versão que foi a base para a vulgata dos gramáticos (entenda-se aqui o termo gramáticos como estudiosos do texto literário para a fixação da estrutura da língua), para as edições pré-alexandrinas (século V a. C.) e, sobretudo, para as edições alexandrinas dos
GD'Art
Esclareço, ainda, que o “deixar o texto/autor falar” diz respeito a determinados recursos que integram a estrutura do texto literário, não à sua superfície. Esses recursos, como a verossimilhança e a necessidade, que se encontram na Poética de Aristóteles, não foram inventados pelo filósofo. Aristóteles observou-os surgindo dos textos lidos, tanto os épicos quanto os trágicos. Originando-se, portanto, do texto, trata-se de uma criação do poeta, não do analista ou do crítico. O crítico apenas os observa e define como se estruturam, criando um sistema.
O que significam verossimilhança e necessidade? Significam que a estrutura de um texto poético, seja ele epopeia, tragédia, comédia ou lirismo, deve ser acompanhada de um pacto com a sua estrutura interna, de modo a não apresentar ilogicidades, incongruências ou incoerências com aquilo que o poeta, ele próprio, estabeleceu. A verossimilhança é, portanto, interna, não necessariamente externa. É o que dizem as Musas ao pastor Hesíodo: sabemos dizer mentiras com aparência de verdade (ἴδμεν ψεύδεα πολλὰ λέγειν ἐτύμοισιν ὁμοῖα, Teogonia, verso 27).
GD'Art
GD'Art
Aproveito o momento e insisto nos questionamentos: qual a necessidade de uma Helena negra? Helena, na Ilíada, é descrita por Homero com o epíteto “a dos braços brancos” (λευκωλένῳ, Canto III, verso 121). O debate que se deveria impor, tendo como lastro a argumentação, não a vontade, a emoção ou a militância identitária, é qual o papel reservado para essa Helena negra, humilhada, torturada e
GD'Art
Esclareça-se, ainda, que a Odisseia não é a continuação da Ilíada, pois os dois poemas têm objetivos diferentes, mas precisamos da Ilíada para poder entender algumas passagens da Odisseia e vice-versa. Para quem não sabe, uma das partes estruturais do poema épico é o Proêmio, composto de Invocação e Proposição. A Invocação é o pedido de auxílio às Musas para o desenvolvimento do poema; a Proposição diz, de modo sucinto, qual é a sua proposta.
Na Ilíada, a Proposição (Canto I, versos 1-9) é cantar a fúria funesta de Aquiles, que levou muitas almas de heróis ao Hades; fúria funesta a ambas as partes, argivos e troianos, cumprindo-se a vontade de Zeus (Διὸς δ’ ἐτελείετο βουλή, verso 5). O poema não aborda a guerra de Troia, mas um período de, aproximadamente, 60 dias, no início do décimo ano da dita guerra. Quem o lê não encontra a morte de Aquiles, o cavalo ou a queda de Troia; apenas sabe, através de prolepses, do adiantamento da narrativa, que Aquiles morrerá e que Troia será destruída.
GD'Art
GD'Art
Como se pode constatar, o que estamos tentando construir é uma fundamentação de leitura, tendo a argumentação como estrutura. Não há necessidade de se criar nenhuma narrativa, pois esta já foi criada por Homero e está devidamente consagrada pelo tempo. Toda adaptação da obra passará. A Odisseia permanecerá, como vem fazendo há quase três milênios. A discussão, portanto, não é sobre purismo ou fidelidade canina das adaptações, quaisquer que sejam elas, mas sobre o respeito à estrutura e à essência do texto, que deve ser visto em seu contexto e deve ficar imune a invencionices e militâncias.
Em suma, de modo a concluir estes prolegômenos para uma introdução às obras homéricas, digamos que a poíesis estabelece um pacto consigo própria, não com a realidade, que pode vir a comparecer, claro, mas com os critérios de verossimilhança e necessidade. Se assim não fosse, a narrativa de Eneias corroboraria a destruição de Troia; no entanto, ele a lamenta, ainda que tenha sido pela decisão inclemente dos deuses, a diuom inclementia (Eneida, Livro II, versos 601-603), pois o foco narrativo e o ponto de vista não são mais os do vencedor, como ocorre na Odisseia, mas os do derrotado e exilado errante.













