Prolegômenos (Da Série: Deixemos Homero falar ) A Ilíada e a Odisseia são poemas milenares, produzidos numa época distante (sécul...

Deixemos Homero falar (I)

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Prolegômenos
(Da Série: Deixemos Homero falar)
A Ilíada e a Odisseia são poemas milenares, produzidos numa época distante (século VIII a. C.), enfocando uma época bem anterior à sua criação. Estima-se que o assunto desses épicos recue para um mundo pré-helênico do século XII a. C., quando existiam, no Mediterrâneo oriental, duas civilizações pujantes: a micênica, no Peloponeso, e a cretense, no meio do mar Egeu.

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Diante de tantas discussões atuais sobre a Odisseia, motivadas por mais uma adaptação para o cinema, achei por bem falar desse poema por partes, mas sempre com os olhos no conjunto, inclusive na Ilíada, porque não se pode falar isoladamente de uma obra que supõe narrativas interdependentes. Eis a explicação para o subtítulo deste artigo. Aprendi com o meu saudoso professor de grego, Henrique Murachco, que a melhor tradução de um autor é deixar a língua falar, o que só veio servir de confirmação para anos de estudos do texto literário, que se firmam numa estrutura textual que se lê, explicita e, sobretudo, implicitamente, buscando o subentendido. Desse modo, faço um apelo a todos os leitores das obras homéricas para ouvir o autor: deixemos Homero falar.

Antes que me falem, no entanto, deixo claro que a polêmica sobre a existência de Homero é irrelevante. Apenas posso afirmar que, depois de duzentos anos na oralidade (séculos VIII-VI a. C.), as obras homéricas receberam uma versão escrita, a pedido de Pisístratos (século VI a. C.), de modo a fazer retornar o poema ao seu estado original, versão que foi a base para a vulgata dos gramáticos (entenda-se aqui o termo gramáticos como estudiosos do texto literário para a fixação da estrutura da língua), para as edições pré-alexandrinas (século V a. C.) e, sobretudo, para as edições alexandrinas dos
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filólogos da Biblioteca de Alexandria (a partir do século IV a. C.), os primeiros a iniciar o processo de fixação e referenciação de um texto, resultado de um longo caminhar na oralidade, de acordo com Paul Mazon, um dos tradutores da Ilíada e grande estudioso do mundo helênico (Introduction à l’Iliade, Paris, Les Belles Lettres, 1967).

Esclareço, ainda, que o “deixar o texto/autor falar” diz respeito a determinados recursos que integram a estrutura do texto literário, não à sua superfície. Esses recursos, como a verossimilhança e a necessidade, que se encontram na Poética de Aristóteles, não foram inventados pelo filósofo. Aristóteles observou-os surgindo dos textos lidos, tanto os épicos quanto os trágicos. Originando-se, portanto, do texto, trata-se de uma criação do poeta, não do analista ou do crítico. O crítico apenas os observa e define como se estruturam, criando um sistema.

O que significam verossimilhança e necessidade? Significam que a estrutura de um texto poético, seja ele epopeia, tragédia, comédia ou lirismo, deve ser acompanhada de um pacto com a sua estrutura interna, de modo a não apresentar ilogicidades, incongruências ou incoerências com aquilo que o poeta, ele próprio, estabeleceu. A verossimilhança é, portanto, interna, não necessariamente externa. É o que dizem as Musas ao pastor Hesíodo: sabemos dizer mentiras com aparência de verdade (ἴδμεν ψεύδεα πολλὰ λέγειν ἐτύμοισιν ὁμοῖα, Teogonia, verso 27).

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Já a necessidade diz respeito a algo que, por surgir com certa insistência na narrativa, deve fazer parte de sua estrutura. Se não é assim, não há motivo para insistir sobre aquele assunto. Ele passa a ser simplesmente dispensável, tornando-se uma excrescência factual que bem pode ser retirada da narrativa, por não fazer qualquer falta. Qual a necessidade de Sínon, na Odisseia? Nenhuma. Ele não é parte estrutural do poema. Não aparece, sequer, na Ilíada. Ele faz parte de um todo denominado Guerra de Troia. O personagem se encontra na Eneida, Livro II, quando Eneias narra à rainha Dido, em Cartago, o episódio do cavalo
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de madeira (versos 12-16), a atuação fingida de Sínon para convencer os troianos a colocar o cavalo para dentro das muralhas, a destruição de Troia e a fuga dos restantes heróis sob o seu comando, vagando pelo mar. Contrariamente ao que se leva a pensar, Sínon não é enganado por Odisseus; Sínon engana os troianos, convencendo-os com um discurso verossimilhante e, depois que o cavalo se encontra dentro das muralhas, estando os troianos comemorando o fim da guerra, é o próprio Sínon que liberta os companheiros de dentro da barriga do cavalo (“inclusos utero Danaos... furtim / laxat claustra Sinon”, Eneida, II, versos 257-260). Registre-se que o discurso de Sínon, cheio de mentiras que parecem verdade, é uma aula do significado de verossimilhança, que deveria ser usada nas aulas de Teoria da Literatura, mas delas está totalmente ausente...

Aproveito o momento e insisto nos questionamentos: qual a necessidade de uma Helena negra? Helena, na Ilíada, é descrita por Homero com o epíteto “a dos braços brancos” (λευκωλένῳ, Canto III, verso 121). O debate que se deveria impor, tendo como lastro a argumentação, não a vontade, a emoção ou a militância identitária, é qual o papel reservado para essa Helena negra, humilhada, torturada e
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mutilada por Menelau, na adaptação feita, quando, na Odisseia (Canto IV), Homero lhe reserva uma entrada triunfal, comparando-a à deusa Ártemis da roca de ouro (Ἀρτέμιδι χρυσηλακάτῳ, verso 122), com Menelau tendo-lhe ofertado presentes lindíssimos (κάλλιμα δῶρα, verso 130), ocupando, portanto, um lugar de destaque no palácio, reinando ao lado do esposo Menelau.

Esclareça-se, ainda, que a Odisseia não é a continuação da Ilíada, pois os dois poemas têm objetivos diferentes, mas precisamos da Ilíada para poder entender algumas passagens da Odisseia e vice-versa. Para quem não sabe, uma das partes estruturais do poema épico é o Proêmio, composto de Invocação e Proposição. A Invocação é o pedido de auxílio às Musas para o desenvolvimento do poema; a Proposição diz, de modo sucinto, qual é a sua proposta.

Na Ilíada, a Proposição (Canto I, versos 1-9) é cantar a fúria funesta de Aquiles, que levou muitas almas de heróis ao Hades; fúria funesta a ambas as partes, argivos e troianos, cumprindo-se a vontade de Zeus (Διὸς δ’ ἐτελείετο βουλή, verso 5). O poema não aborda a guerra de Troia, mas um período de, aproximadamente, 60 dias, no início do décimo ano da dita guerra. Quem o lê não encontra a morte de Aquiles, o cavalo ou a queda de Troia; apenas sabe, através de prolepses, do adiantamento da narrativa, que Aquiles morrerá e que Troia será destruída.

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Na Odisseia, a Proposição (Canto I, versos 1-10) tem como objetivo narrar a volta de Odisseus a Ítaca, devido a dois pontos importantes: a grande astúcia do herói (ἄνδρα πολύτροπον, Canto I, verso 1) e o seu métron, atendendo também à vontade dos deuses, cumprindo, nesse trajeto longo, sofrido e complexo, um papel de mito civilizador, diferente da insensatez (ἀτασθαλίῃσιν, verso 7) de seus companheiros. Não há lugar, portanto, para se falar em quebra das leis de Zeus, mas no seu cumprimento. Troia deverá ser destruída de qualquer jeito, pela coalizão argiva ou por outros meios. No entanto, qualquer que seja o meio, a destruição acontecerá pela irreflexão dos homens. Os homens, eles próprios, como os companheiros de Odisseus, são os únicos responsáveis pela queda de Troia. Os deuses, e especificamente Zeus, apenas fizeram cumprir as leis de Thêmis.

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Veja-se, por exemplo, o Canto XX da Ilíada (versos 293-308), em que Posídon resolve salvar o magnânimo Eneias (μεγαλήτορος Αἰνείαο, verso 293) das mãos de Aquiles, por conhecer a sua missão divina de fundar uma nova Troia, com a permissão dos deuses, após a destruição daquela em cuja planície se travou um combate de dez anos. A impulsividade de homens ímpios os leva a desmedidas e gera a sua própria ruína. Essa destruição gera heróis, pois a épica visa à divinização dos heróis, não à sua queda.

Como se pode constatar, o que estamos tentando construir é uma fundamentação de leitura, tendo a argumentação como estrutura. Não há necessidade de se criar nenhuma narrativa, pois esta já foi criada por Homero e está devidamente consagrada pelo tempo. Toda adaptação da obra passará. A Odisseia permanecerá, como vem fazendo há quase três milênios. A discussão, portanto, não é sobre purismo ou fidelidade canina das adaptações, quaisquer que sejam elas, mas sobre o respeito à estrutura e à essência do texto, que deve ser visto em seu contexto e deve ficar imune a invencionices e militâncias.

Em suma, de modo a concluir estes prolegômenos para uma introdução às obras homéricas, digamos que a poíesis estabelece um pacto consigo própria, não com a realidade, que pode vir a comparecer, claro, mas com os critérios de verossimilhança e necessidade. Se assim não fosse, a narrativa de Eneias corroboraria a destruição de Troia; no entanto, ele a lamenta, ainda que tenha sido pela decisão inclemente dos deuses, a diuom inclementia (Eneida, Livro II, versos 601-603), pois o foco narrativo e o ponto de vista não são mais os do vencedor, como ocorre na Odisseia, mas os do derrotado e exilado errante.

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