Já começo dizendo que ando com vontade de matar o Moacir, Sempre fui homem da paz, da boa convivência, e essas histórias de resolver a...

Cuide-se, Moacir

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Já começo dizendo que ando com vontade de matar o Moacir, Sempre fui homem da paz, da boa convivência, e essas histórias de resolver as coisas no tapa ou no chumbo não é da minha praia. Fujo de uma encrenca como o diabo foge da cruz. Mas tenho meus limites, e como dizem, se eu me esparramar fica difícil juntar depois. Moacir esparramou a minha raiva e agora não consegue juntar os cacos. Estou por aqui com ele.
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Não admito traição e Moacir deu mancada, desmereceu minha confiança, abusou da minha paciência. Tudo começou algumas semanas atrás. Vou contar tudo nos mínimos detalhes e depois me digam se devo ou não despachar esse biltre para ele ir morar com o tinhoso, pois é onde ele deve ficar depois de ser devidamente despachado.

Vou lembrar a todos que me leem o seguinte: segundo nosso romancista cearense, o José de Alencar, Moacir, significa “filho da dor”. Foi pensando nisso que comecei a chamar a criatura de Moacir porque desde que o vi pela primeira vez o achei com uma carinha muito triste, uma aura de sofredor. Era de dar pena.

Minha consorte, mulher prevenida e de muita perspicácia, sempre me alertou para que eu ficasse esperto com essa qualidade de indivíduo. Não se pode confiar, foi o que ela sempre disse. Como é de se supor, eu confiei e deu nisso.

Depois do que vou contar, hoje acordei com vontade de colocar um freio de arrumação em Moacir. Pensem num sujeito debochado; estou falando dele e não de mim. E o tolo aqui,
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achando que poderíamos, se não grande amigos, pelo menos ter uma convivência civilizada e respeitosa.

Vou aos poucos apresentando essa polêmica figura. Tenho quase certeza que Moacir é lá do Instituto Federal. Andei pesquisando de onde ele poderia ter vindo. Não dá para cogitar outras hipóteses da origem dessa criatura que resolveu se hospedar em minha casa.

Para entenderem melhor, algumas explicações preliminares. Um muro alto faz divisa de minha residência com essa instituição. E me está parecendo que por lá eles não estão nem aí com a saúde pública. Pois está difícil combater os caramujos africanos, essa praga exótica que tento exterminar no meu quintal, espalhando iscas venenosas. Neta, minha vigilante vizinha, diz que esses moluscos asquerosos veem de lá. E de lá também veio Moacir. De onde mais poderia ter vindo? Na natureza nada se cria, nada se perde, já dissera Lavoisier antes de perder a cabeça na guilhotina. Moacir não pode ter surgido do nada e pronto!

A primeira vez que vi Moacir, estava eu esparramado no sofá da sala grudado na Netflix, quando o vi saindo ligeiro da cozinha; chegou à sala e me encarou por alguns segundos. Não sei se foi uma simples empatia, ou algo mais complexo. O certo é que entendi seu rogo, era como me dissesse:
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"Por favor, não me machuque, prometo não trazer transtornos e me comportar como um cavalheiro Irei me alimentar de pequenas sobras que o descuido de vocês deixe cair atrás do fogão, no máximo irei garimpar algo no cesto de lixo. Meu paladar não é exigente. Se o senhor tiver alguma ousadia, poderei até ser seu bichinho de estimação, seu pet".

Foi o que entendi. Já perceberam. Moacir é um camundongo, pequenino de dar dó. Foi dessa aparência mirrada que me sugeriu o nome de batismo. Nesse primeiro encontro, estavam presentes à minha sala um casal de labradores dormindo o sono dos justos e nem perceberam quando Moacir correu para atrás do piano.

Naquele momento, tomei a mais irresponsável decisão de minha vida: não incomodar a criaturinha. Poderíamos até ser parceiros e ocasionalmente seria capaz de deixar um petisco na trajetória do dentuço.

Mas Moacir não cumpriu a palavra. Atacou o saco de ração dos meus cães, andou mordiscando maçã e banana na fruteira. E isso é coisa que faça com um amigo?

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Sábado, o que passou, o sacripanta correu ali na minha frente e nem fez a costumeira pausa que vinha ocorrendo antes dele descumprir nossos acertos. Estava eu, assistindo o jogo da Seleção e com uma vassoura disponível. Se Moacir passasse por ali... Imaginem a minha raiva que eu estava.

Agora, mais calmo, meus amigos, minhas amigas, deixo isso para lá ou arrebento Moacir com uma vassourada?

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