Tenho me sentido triste ultimamente. Não é uma tristeza de choro ou soluço.
É uma tristeza quieta, do tipo que aparece quando a gente percebe que perdeu um hábito antigo: jogar conversa fora.
Estou perdendo companhias de pessoas queridas, com quem eu gosto de estar junto, sem pressa, sem assuntos definidos. Gente que aprendeu a ouvir o outro, a tentar entender, a perceber o outro e a trilha que seguiu a partir da escuta, da empatia, da crença no outro.
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Conversar, mesmo com *delay*, à distância, sem o olho no olho, mesmo sem o riso imediato que pega fogo quando o outro ri primeiro. São poucos esses momentos, mas existem. E existir esse diálogo já é muito. Às vezes, é muito pelo celular.
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Desde os primórdios, a gente se reúne ao redor da carcaça e do fogo. Nem sempre havia carniça para dividir, mas sempre havia necessidade de se agrupar. Para combinar, para correr atrás do alimento, para escutar. A fogueira, à noite, alimentava os medos da caçada. As sombras das labaredas dançavam. A sonoridade do crepitar das chamas criava um clima de mistério. E, a partir daí, nasceu a narração. Nasceu a escuta. Nasceu a proteção.
Dormia-se mais perto do fogo, longe do medo das sombras que atravessavam a noite. Acreditava-se que, depois da escuridão, nasceria o grande rei Sol. Assim o homem começou: jogando conversa fora. Contando o dia, inventando o amanhã, nomeando o medo para que ele ficasse menor. Fez o primeiro deus: o SOL.
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A amizade se faz assim: escutar, aprender, sentir um fio de inveja boa e, mesmo assim, emanar o desejo do bem. Bem comum. Bem do outro para mim; o rebatimento da volta; querer o bem meu, do eu, para o outro, sem receio e sem compromisso.
Horas e horas se vão assim. Viajamos do grego aos titãs, das mães de santo das águas à aridez da caatinga, ao solo pedregoso da Grécia; das mulheres do Jequitinhonha, que moldam o artesanato, até o sujeito que ficou rico sem criar nada, sem trabalhar, sem ter empresa ou negócios, e esbanja. Ficou rico e não sabe falar, não sabe entrar, não sabe sair.
A gente joga conversa fora olhando para o mundo. E, olhando para o mundo, a gente fica triste de perceber quanta injustiça.
Fica triste porque não enxergamos, por enquanto, um futuro fácil para os nossos bisnetos ou tataranetos, se tivermos. O que se constrói
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Eu sonhei com um sítio, sonhei com água e terra. Com netos plantando e comendo coentro, batata, inhame, macaxeira, cuidando das águas para se fartarem de água, para matar a sede e cozinhar o básico. Com espaço para ocupar e suar.
Não sei ainda se verei isso e quando teremos isso. Não sei se meus netos vão querer. Sonho de conversa jogada fora.
São perguntas que aparecem quando a gente conversa, vê os filhos crescerem e busca encontrar os netos. São histórias dos netos em que a gente precisa acreditar para contar.
Hoje, as crianças pensam muito rápido. São nativos digitais, não sobem mais em árvores, criam bichos com o veterinário da esquina, explorando sua carência, sua insegurança, como a do bicho.
Eu me pego pensando se os netos vão entender isso. Se vão saber o valor de uma tarde perdida conversando sobre nada. Sobre tudo. Sobre o preço do coentro e sobre o sentido da vida na mesma frase. Se vão ter paciência para o "jogar conversa fora" num mundo que cobra produtividade até do descanso.
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Na conversa jogada fora existe a narrativa. Existe o modo operacional do que ocorreu com o tempo. Existe a pessoa, não o "eu digital".
A conversa ficou de fora, foi jogada para a base de dados. Virou volume. Virou consumo. Comeu o ciclo e o tempo de raciocinar, de pensar.
As inteligências artificiais se alimentam de dados que se alimentam de narrativas que precisam ser armazenadas e, para tal, é necessária energia e água para resfriar o poder de processamento capaz de suportar esses dados. Muito consumo para poucos ficarem ricos.
Está difícil jogar conversa fora quando o seu ciclo viu o percurso do telégrafo à inteligência artificial. Mudanças extremas em curto espaço de tempo. E perceber afetos diluídos.
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Jogar conversa fora é ter tempo para o momento.
É brincar com o oportuno. É dar espaço para a escuta. É entregar a narração para que o outro acredite e devolva. Sem pressa de responder. Sem medo do silêncio. O silêncio, na conversa de verdade, também fala.
A gente precisa do encontro. Precisa do afeto. A tela aproxima, mas não aquece. O áudio manda a voz, mas não manda o cheiro do café, o toque no ombro, a lágrima que escorre sem aviso. O afeto é corpo, presença, risco. É escolher ficar, mesmo quando a conversa não rende piada.
Talvez por isso eu sinta falta. Falta de gente que segura a minha história sem julgar. Gente que me devolve a história maior, com um detalhe que eu tinha esquecido. Pessoas amigas que riem da minha bobagem e me corrigem com carinho: "Desce daí, balão", quando eu viajo demais e fico perdido em mim mesmo.
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Mas acredito. Acredito porque vi gente aprender a escutar depois dos sessenta. Vi gente dura amolecer no meio de uma história. Vi olhos brilharem quando alguém disse: "Eu te entendo".
Então, mesmo triste pela ausência, eu celebro o que ainda existe. Celebro o amigo que me manda mensagem depois do remédio. Comemoro no grupo, muito pouco, que comenta a notícia com raiva e depois com piada. Vibro quando alguém pergunta: "Lembra daquele dia?".
Jogar conversa fora é resistência. É dizer não à lógica do algoritmo que quer me prender em bolhas, no momento do agora.
É dizer sim ao caos bonito de uma conversa que começa em política e termina em receita de bolo. É aceitar que não vamos resolver o mundo hoje, mas vamos dividir o peso dele por um tempo, ou por um baseado.
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Eu quero isso para mim. Quero para os meus filhos. Quero para os meus netos, se eles vierem. Quero um mundo onde a gente ainda saiba perder tempo juntos. Porque perder tempo juntos é a forma mais honesta de ganhar vida, não de ganhar na vida.
Enquanto isso não volta por completo, eu vou guardando os pedaços. A mensagem de áudio de dois minutos. O "saudades". O meme que só aquele amigo entende. São migalhas, mas migalha também alimenta. É como trazer a trilha de Joãozinho e Maria para o caminho da volta, com pedaços de pão, doação. Um GPS que alimenta seres, e não dados.
E sigo acreditando que jogar conversa fora vai voltar. Não igual. Nada volta igual. Mas volta com outro James Webb, outra galáxia, com outro ritmo e outro fogo, de fogueiras. O importante é que tenha roda. Que tenha gente, SERES, que tenham escuta.
Desde a caverna até as redes neurais, a gente só queria isso: alguém por perto quando a noite escurece. Alguém que mostre que são só as suas sombras. Alguém que acredite que, depois da noite, o Sol nasce de novo.
E que vale a pena ficar acordado conversando até ele, o SOL, aparecer e clarear o TUDO, novamente.
À CIDA LOBO, WILSON GUERREIRO, KLEBER KRUBEL ("ALEMÃO"), PÔLA PAZZANESE, CÉSAR MENDES E BRUNO LINHARES















