Minha primeira lembrança conduz ao térreo do Paraíba Palace Hotel, onde o profissional das tesouras, Cruz, sempre repetia o mesmo cort...

Os queridos barbeiros

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Minha primeira lembrança conduz ao térreo do Paraíba Palace Hotel, onde o profissional das tesouras, Cruz, sempre repetia o mesmo corte: alemão. Usava uma máquina que raspava as laterais do couro cabeludo e deixava apenas uns poucos cabelos no cocuruto, algo bem militar. Em seguida, besuntava minha cabeça com uma porcaria chamada petróleo.

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De lá para cá, muita coisa mudou, até mesmo os profissionais, que chegaram ao requinte de se autodenominarem designers de barba, numa evolução que levou aos salões muita sofisticação, inclusive serviço de bar.

Quanto a mim, enquanto puder, serei fiel a Santana, que esconde na sua discrição um tremendo gozador, daqueles cabeleireiros com quem vale a pena conversar baixinho, para que os circunstantes não ouçam nossas... deixa pra lá.

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Porém, estou arrodeando para contar duas histórias fantásticas. A primeira delas ocorreu em São João del-Rei, onde o então jovem advogado Tancredo Neves começou sua profissão como promotor de Justiça. Porém, entrou na política e foi para Belo Horizonte. Muitos anos depois, retornou a São João del-Rei para pedir votos em sua campanha para governador. Como de praxe, dirigiu-se à barbearia acompanhado de um séquito de admiradores. Sentou-se na cadeira de madeira e o barbeiro, depois de espalhar espuma por seu rosto, começou a usar a navalha. Quando chegou ao pescoço do Dr. Tancredo, perguntou-lhe se lembrava do seu primeiro júri, ali na cidade. Tancredo respondeu que sim e até acrescentou que conseguira uma condenação de 30 anos de cadeia para o acusado. Naquele momento, o barbeiro passava a navalha na altura da jugular do futuro governador e disse:

— Ah, Dr. Tancredo, era eu o réu. Passei muitos anos na cadeia, porém nunca me esqueci... de como o senhor falou bem.

Maldosos dizem que Tancredo só não... porque não havia... pronta.

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A segunda história dá conta de que, no interior da Paraíba, havia um barbeiro caprichoso que, ao terminar de fazer a barba do cliente, colocava em suas bochechas duas bolas de madeira, dizendo que serviam para esticar a pele. Certa feita, um viajante, que acabara de ser atendido pela primeira vez e já retirava as bolas da boca, perguntou-lhe se alguém já havia engolido alguma delas, ao que o barbeiro respondeu:

— Vez por outra, mas as pessoas daqui são educadas, sempre devolvem. Essa amarela aí foi devolvida hoje cedinho.

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