Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um ...

O livro que não queria ser meu

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Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um drible digno de Copa do Mundo. Nossa história começou em julho de 2000, sob o pretexto de um romance que o tempo, com sua sabedoria costumeira, transformou em uma daquelas amizades que a gente carrega para a vida inteira.

Na época, ela era minha namorada. Numa conversa despretensiosa, daquelas que precedem as grandes despedidas temporárias, ela me perguntou se eu conhecia a tal obra. Diante da minha negativa, confessou, com os olhos brilhando de curiosidade, que tinha um desejo enorme de lê-la. Guardei o segredo no bolso e a promessa na mente: eu daria aquele livro a ela.

No dia seguinte, embarquei para São Paulo. Entre uma reunião política e outra, esticando o tempo na pressa da metrópole, escapei até uma livraria. Achei o volume. Comprei-o com o orgulho de quem cumpre uma missão secreta e pedi à atendente que fizesse um belo embrulho de presente. Eu tinha o troféu em mãos.

A lógica dizia que eu deveria guardá-lo na mala, já que enfrentaria uma epopeia de três dias de ônibus de volta para Natal. Mas a ansiedade é uma conselheira caprichosa. Ainda na rodoviária do Tietê, sob o pretexto de "espiar só a primeira página", rasguei o papel de presente. Rompi o lacre do destino. Entre o tumulto do embarque e o balanço do asfalto, o livro simplesmente sumiu. Evaporou no ar da rodoviária.

Desembarquei em Natal com as mãos abanando e o orgulho ferido. Obstinado, fui direto a uma livraria local. Comprei o segundo exemplar. Ao sair da loja, com o pacote reluzente nos dedos, o inacreditável aconteceu: balancei os braços e o livro escorregou, direto para o vão escuro de um bueiro de esgoto. Ali, entre a lama urbana, afundou minha segunda tentativa.

Sem o livro, restaram-me as flores. O namoro sobreviveu àquela viagem, mas não ao desgaste natural dos dias; um ano e meio depois, terminamos. Ela seguiu sem ler a obra, e eu segui assombrado por ela. Jardim Brasil havia se tornado meu fantasma literário pessoal, uma espécie de lenda urbana particular.

Anos mais tarde, em uma viagem a Goiânia, entrei em um charmoso café-livro. Lá estava ele, me encarando na estante como um deboche do passado. Comprei-o, não mais para presente, mas por pura teimosia: eu precisava decifrar aquele mistério. Levei-o para o hotel, decidido a ler à beira da piscina. Bastou um descuido, um sopro de vento ou um movimento desastrado para que a gravidade agisse novamente: o livro mergulhou na água clorada, transformando-se em uma massa de papel ilegível.

Voltei para Natal convicto de que o livro me rejeitava. Havia uma força cósmica que impedia o nosso encontro. Até o dia em que o destino resolveu fechar o ciclo. Reencontrei aquela ex-namorada, agora minha grande amiga. Com um sorriso enigmático, ela me estendeu um pacote: "Tenho uma coisa para você".

Era ele. O mesmíssimo Jardim Brasil.

Comi as páginas com os olhos naquela mesma noite. A leitura era, de fato, fascinante e genial, talvez ainda mais saborosa por ter sido maturada por tantas perdas. O mais curioso é que, depois que a barreira foi quebrada, o feitiço virou contra o feiticeiro. Nos anos seguintes, ganhei a mesma obra de presente de pelo menos cinco pessoas diferentes, em situações completamente distintas.

Hoje, guardo todas as versões na minha estante, lado a lado. O livro que passou anos fugindo de mim, agora se recusa a ir embora. E eu, de bom grado, o recomendo a todos, de preferência, bem longe de bueiros e piscinas.


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