Não posso nem devo queixar-me da idade avançada ou de suas naturais limitações. Da janela de minha infância, em Alagoa Nova, privado...

Tão longe e tão perto

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Não posso nem devo queixar-me da idade avançada ou de suas naturais limitações. Da janela de minha infância, em Alagoa Nova, privado da soltura das ruas, perturbava-me acompanhar os passos miudinhos, arrastados, do velho Cazumba em direção à casa paroquial do sobrinho, apenas quatro ou cinco casas, uma pegada com a outra, do outro lado da rua.

Se a sua vista era fraca, se as passadas, sem firmeza nem equilíbrio, o obrigavam a não descolar os olhos do chão, mesmo assim, de tanto notar o olhar ou o interesse do menino em sua direção, terminou dirigindo-me sua veneranda atenção. Em seu costumeiro itinerário, já não passava sem dirigir as vistas para a minha janela. E passou a acenar-me, um aceno de mão ou um leve gesto de cabeça, incutindo-me a impressão de já ser uma pessoa considerada.

Coincidiu, um dia, fora do horário de sua penosa jornada, que ele me avistasse entrando em casa, de volta da escola, de tinteiro à mão e, na outra, numa reles sacola, o caderno, o livro e a caneta sem tinta, com seu bico de pena, pouco antes de se chegar à era do lápis-tinta.

Dessa vez, acenou chamando-me. Atravessei a rua, o coração aos pulos, temeroso de que fosse levar um carão ou qualquer reprimenda. Era sempre para isso que as crianças do meu tempo, ou do meio em que me criei, eram chamadas.

— Você é o menino de Antonina? — indagou, de rosto afável, pondo a mão rosada e larga sobre os meus cabelos de índio.

— Nunca mais pude ir à missa, nunca mais a vi — disse ele, referindo-se à minha mãe, com esse detalhe: — Sabia que ela criava um menino.

E pude entender a atenção que ele me dava, não só por mim, como por lembrança de minha mãe adotiva.

Ela fazia parte do coro no tempo da igreja velha, além de catequista, enquanto jovem beata da Casa de Caridade Padre Ibiapina. Os Borges, os Sales, os Gabínios, elite que frequentava a igreja e chegara ao paroquiato com o padre José Borges de Carvalho, orador sacro ardoroso, sabiam dos seus dotes, e não custa dizer que a admiravam.

— Dê minhas lembranças a ela — disse, sem tirar os olhos da minha janela.

Isto foi em fins de 1943, longe no tempo, longe nos costumes e bem presente nas passadas e no pensamento do menino velho de hoje.

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