Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá ...

O tempo das colheitas

Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá naquela cozinha inundada de sacos de milho verde, lá naquela cozinha povoada de aromas do campo, ela se concentrava num moinho ajustado a uma mesa de madeira bruta, o qual engolia o milho verdinho e vomitava bagaços amarelos.

Outras, por ela coordenadas como uma orquestra de sabores, ralavam o milho como um violinista com seu arco em vai e vem, como um percussionista tirando o som de um reco-reco. Outras, ajudadas pela molecada, faziam alegorias de palha de milho, como que para vestir uma ala. Saquinhos de palha e fitilhos de palhinha verde para o arremate dessa ala de pamonhas. Cumbucas, tachos, gamelas e colheres de pau entoavam os sons dessa ópera da colheita.

Burburinhos e fofocas faziam parte do coral desse evento. Fofocas são como sal: se usado com comedimento, dali sai a vida; se usado com exagero, a morte dali advém. Fofocas sobre a vida das moças casadouras, das moças velhas, das encalhadas, das chifreiras e também das quengas, tanto da vida quanto do coco depois de ralado. Havia lugar também para fofocas sobre os homens viris, os cornos, os raparigueiros e até para uns invertidos.

Lá fora, cerração e chuva se misturavam como uma cortina de teatro naquele Brejo de Areia, cantado e decantado em letras e em tintas dos seus Américos.

As festas da colheita são eventos de um mundo mágico. O império cristão tentou encobrir esse espetáculo místico com seus santos, santas e dogmas.

Porém, o encantamento é força do Tempo. Santos são alvos de troças, de levar castigo para arrumar casamento, de promessas cheias de moedas e orações a um, a outra. Com santos se negocia.

Ela se casou por força de Santana (que a empregada chamava de Oxum para desafiar as hierarquias da casa), uma vez que Santo Antônio lhe negou casório. Santana é voz feminina, mãe da mãe do Nazareno. Tem força. Casou-se com João, um boêmio que anunciava aos amigos nunca cair numa armadilha dessa.

Aos 19 anos, sangrou com faca virgem um tronco de bananeira. Rezou para não tirar a faca no outro dia e ver as iniciais JC num dos gumes da faca. JC, Jesus Cristo, significaria uma vida devocional, celibatária, vida de solteirona cuja libido seria carreada para as sagradas funções da Igreja.

As mais velhas a ensinaram também a guardar um tantinho de tudo o que comia sob o travesseiro para sonhar com seu bem-amado. Outras, num ritual quase secreto, pingavam vela virgem numa bacia d'água para revelar as iniciais do futuro noivo. Naquela noite, os pingos se deram as mãos e formaram as iniciais FB. Nada de João, nada de Otávio, tampouco Sebastião. Tempos depois, ao se encontrar com certo João, provou que estaria errada aquela mandinga dos pingos com as iniciais FB. Só não sabia ela que os amigos de João o haviam apelidado de Faixa Branca por causa das faixas que ele colocava no seu Karmann Ghia. Os pingos, como as cartas, não mentem jamais.

As festas da colheita inauguram o culto pagão dos quatro elementos da Natureza.

A Terra, que sustenta a vida, nutre a plantação e fixa os grupos em rituais de nascimento-vida-morte, nos quais a vida é devolvida à terra.

O Ar, que sopra a vida em canções, no resfolego da sanfona, nos silvos dos pífanos. O ar é a expansão da vida, o sopro que se torna som, se modela em palavras e se mistura em acalantos.

O Fogo é seu poder transformador. Amalgama o milho moído em pamonha, em canjica, em bolos e doces. As toras da fogueira anunciam que tudo se transforma em mais vida, como nos ensinamentos do Mestre de Nazaré: INRI, *Igne Natura Renovatur Integra*, “pelo fogo a Natureza se renova por inteiro”. Assim, o vulcão que cospe lavas que destroem tudo em volta é o mesmo que fertiliza os vales nos quais brotam as videiras dessa dádiva alquímica que é o vinho.

A Água, as chuvas redentoras, as gotas bailarinas se espocando no solo seco e o fertilizando. A Água que amolece a dura argila, plastificando-a em pratos, potes e esculturas. A Água que lambe os leitos secos, fazendo-se rio, escorrendo montes abaixo e fazendo-se mar.

Assim vivi essa magia, correndo solto na bagaceira, fazendo puxa de mel, ávido por lamber os tachos de canjica, febril depois de acompanhar a molecada pelos riachos d'água fria saída das biqueiras dos casarões da antiga Areia.

Assim fui eu, inebriado pelas tintas de Pedro, pelas palavras de José, ambos Américos, pelas lágrimas da Virgem da Conceição, pela cana amassada em doce caldo, pela embriaguez da mesma cana fermentada e destilada.

Agora, pego nesta pena e escrevo estas memórias de fogo, ar, terra e água.

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