Muito se tem falado no recente filme de Christopher Nolan, A Odisseia. Note-se a forma como escrevi "odisseia" no título – com letra minúscula. No caso, é um "caminho tortuoso". Não o título do poema ou do filme.
Muitas pessoas me perguntaram se eu iria ao cinema para assistir "A (tal) Odisseia". Não pretendo, mas também não gosto de dizer a palavra "nunca". Estudantes de Letras, Filosofia e Psicologia saberão que A Odisseia faz parte
Pôster de A Odisseia (2026), filme dirigido por Christopher Nolan, inspirado no poema épico de Homero.
E, para não destoar dos(as) colegas, então também eu me rendo: vamos a uma crônica sobre A Odisseia. Só que não completamente – que, aliás, é uma expressão da qual gosto muito. O que é. O que não é. Que sim. Só que não. Não, não pretendo falar sobre a "factual" (?) Penélope. Mas talvez conectá-la a Freud ou Lacan.
Penélope ▪ Arte: Dante Rossetti, 1869 ▪ Col. particular: Andrew Lloyd Webber
Vou falar sobre algo muito banal. Mas, ainda assim, uma odisseia. A minha. Conforto, estudo, trabalho, pintura, livros, etc. Quem não gosta de tudo isso? Aparentemente, eu não devo gostar... pois me meto em cada aventura, conscientemente, e depois me pergunto "onde estava com a cabeça... quando comecei esta odisseia?" – eis o permanente mistério da existência.
Penélope e o desejo
Está bem. Disse que não iria falar sobre a Penélope do poema. Mas... a vida deve ser flexível.À primeira vista, Penélope é a esposa fiel que aguarda Ulisses por vinte anos. Entretanto, a psicanálise perguntaria: o que significa desejar alguém que está ausente?
Sigmund Freud (1856–1939), médico e neurologista austríaco que fundou a psicanálise e transformou a maneira de compreender o inconsciente, os sonhos e a vida psíquica. ▪ Wikimedia
A espera prolongada preserva Ulisses como objeto idealizado. Freud diria que o desejo se alimenta justamente da falta.
Morei na Europa por algumas décadas. E isso me fez bem. Me moldou, entre outras coisas, na pessoa que sou. Não digo isso como "ostentação". Qualquer um pode fazer isso, se quiser muito, muito mesmo. Tudo o que quisermos, temos que querer muito, como o ar que se respira, para acontecer. Nesse período estudei muito, participei do grupo de teatro na principal universidade onde estava, e me sentia bem em não me preocupar com a bolsa aberta, o celular na mão, não ser assaltada no metrô. Era uma vida psicologicamente quase livre de medos. Mas voltei ao Brasil e tudo voltou ao "normal": quatro portões para entrar no apartamento, alarmes, câmeras, etc. Todos os anos fico por alguns meses na Europa. E a cada ano, noto mais e mais diferenças. Uma amiga que foi assaltada três vezes em Londres. Carros de amigos, roubados ou amassados, por motoristas que fogem. Tristemente o jornal anuncia "a brasilificação" da Europa (com "s" mesmo, de Brasiiilll). Mas isso causa indignação.
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Volto aos lugares que outrora me fizeram muito feliz. Alguns ainda fazem. Outros, passaram da fase de idealização. Mas como Penélope, ela continua esperando pelo sublime momento de felicidade, que pode ser fugaz, mas Penélope aguarda. Ela tem o tear como proteção. Ela constrói, desfaz, repete e pensa "ainda não posso concluir minha trajetória". O tecido nunca terminado é também um tempo psíquico suspenso. É morar atrás de quatro portões e planejar a viagem para "relaxamento psíquico" todos os anos. Ainda não foi concluída minha vinda. Minha odisseia pessoal.
Penélope Desfazendo o Tecido ▪ Arte: Violet Brunton, S.XX ▪ Col. particular
A repetição
Durante anos, Penélope repete o mesmo ritual.Não é uma repetição vazia. É uma forma de impedir que o desejo morra. Enquanto o tecido permanece inacabado, a esperança (e no caso, o casamento) também permanece simbolicamente vivo.
Penélope vive cercada pelos pretendentes.
Penélope e os Pretendentes ▪ Arte, John William Waterhouse, 1911, Galeria de Arte de Aberdeen, Escócia
Vai para a Europa.
Lacan: o desejo sustentado pela falta
Para Lacan, o desejo nunca busca apenas um objeto; ele nasce da falta. Ulisses é justamente essa falta. Penélope não vive apenas esperando um homem qualquer. Ela organiza toda a sua
Jacques Lacan (1901–1981), psiquiatra francês que renovou a teoria psicanalítica ao propor uma releitura da obra de Freud, tornando-se uma das figuras centrais da psicanálise no século XX. ▪ Wikimedia
O desejo que existia na ausência precisa transformar-se em convivência. Ela o reconhece, sim, mas não pode mostrar isso imediatamente. Ela o testa. Como se precisasse verificar se aquele homem real ainda corresponde ao homem construído durante vinte anos.
Na minha odisseia, voltar aos lugares onde fui extremamente feliz (mesmo que nem sempre) é ter a ausência – e, finalmente, completar a volta. Quase um pedestal. Só que não – de novo essa expressão. Pouco a pouco, há a inevitável revelação de que a idealização já não vigora muito mais.
O desafio
Ao contrário da imagem tradicional da esposa submissa, Penélope é extremamente ativa.Ela manipula os pretendentes, controla o tempo, protege o patrimônio, preserva seu filho, Telêmaco, mantém o reino unido.
Penélope e Telêmaco ▪ Arte: Hector Leroux, 1900 ▪ Col. particular
Enquanto ele vence monstros no mundo externo, ela enfrenta os monstros internos: luto, solidão, pressão social, o medo da perda definitiva ou de sua fé, seu último rincão, afinal.
Uma leitura da odisseia contemporânea nossa de cada dia
Penélope, na minha humilde opinião, pode ser lida menos como símbolo da submissão feminina e mais como símbolo da resistência psíquica. Ela recusa deixar que os outros determinem o tempo de sua vida. Seu tear é um gesto de autonomia. Sua espera não é inércia. É estratégia, elaboração, sua opinião, sua voz. Ulisses (Odisseus) retorna ao seu palácio ▪ Arte: Nicolas-André Monsiau, 1791 ▪ Museu de Belas Artes de Montreal
"Para quê estudar tanto?"; "Quando vais parar de estudar?"; "Quando vais parar de viajar?" e assim por diante. Minha resposta é: "Nunca vou querer parar de me aperfeiçoar, de aprender".
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Penélope, sim. Ulissa? Não precisamos. Podemos ser nós mesmas sem a inerente comparação com heróis mitológicos. Nós somos o mito. Sem desfazer de ninguém.

















