Muito se tem falado no recente filme de Christopher Nolan, A Odisseia . Note-se a forma como escrevi "odisseia" no título...

Ulissa: a odisseia pessoal

Muito se tem falado no recente filme de Christopher Nolan, A Odisseia. Note-se a forma como escrevi "odisseia" no título – com letra minúscula. No caso, é um "caminho tortuoso". Não o título do poema ou do filme.

Muitas pessoas me perguntaram se eu iria ao cinema para assistir "A (tal) Odisseia". Não pretendo, mas também não gosto de dizer a palavra "nunca". Estudantes de Letras, Filosofia e Psicologia saberão que A Odisseia faz parte
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Pôster de A Odisseia (2026), filme dirigido por Christopher Nolan, inspirado no poema épico de Homero.
de suas vidas, desde a chamada graduação (no Brasil) ao programa de Ph.D. E muitos artigos e ensaios estão agora "pipocando" em todos os sites que leio, ou para os quais escrevo. Na verdade, uma profusão de artigos. Assim como todos são médicos e técnicos de futebol, também todos passaram a ser peritos na análise do poema épico. Da epopeia. Do grego antigo. Da cultura grega. Da mitologia. E assim por diante. Não digo que alguns não sejam, obviamente que sim. Mas muitos estão pegando "carona" no tópico – é válido. Alguns, para obter seus 15 minutos de fama; outros, para expressar sua opinião, que, como disse, é algo válido. No semestre passado disse a alguns alunos, enquanto discutíamos "Don Juan Tenorio", de José Zorrilla (1817-1893), que não existem "más interpretações". Claramente, o(a) professor(a) pode guiar os alunos para o que for mais factual, mas eu não desprezo nenhuma interpretação.

E, para não destoar dos(as) colegas, então também eu me rendo: vamos a uma crônica sobre A Odisseia. Só que não completamente – que, aliás, é uma expressão da qual gosto muito. O que é. O que não é. Que sim. Só que não. Não, não pretendo falar sobre a "factual" (?) Penélope. Mas talvez conectá-la a Freud ou Lacan.
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Penélope ▪ Arte: Dante Rossetti, 1869 ▪ Col. particular: Andrew Lloyd Webber
Sim, ela é uma das personagens mais fascinantes da literatura justamente porque sua aparente passividade esconde uma intensa atividade psíquica. Sob uma perspectiva psicanalítica, ela pode ser lida como uma mulher que transforma a espera em elaboração simbólica. O desejo do que não se tem mais. O aumento desse desejo, justamente porque há ali uma ausência. E como li artigos sobre isso! "Penélope, a injustiçada no filme de Nolan", e coisas do gênero. A "apagada", a "menosprezada".

Vou falar sobre algo muito banal. Mas, ainda assim, uma odisseia. A minha. Conforto, estudo, trabalho, pintura, livros, etc. Quem não gosta de tudo isso? Aparentemente, eu não devo gostar... pois me meto em cada aventura, conscientemente, e depois me pergunto "onde estava com a cabeça... quando comecei esta odisseia?" – eis o permanente mistério da existência.


Penélope e o desejo
Está bem. Disse que não iria falar sobre a Penélope do poema. Mas... a vida deve ser flexível.

À primeira vista, Penélope é a esposa fiel que aguarda Ulisses por vinte anos. Entretanto, a psicanálise perguntaria: o que significa desejar alguém que está ausente?

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Sigmund Freud (1856–1939), médico e neurologista austríaco que fundou a psicanálise e transformou a maneira de compreender o inconsciente, os sonhos e a vida psíquica. ▪ Wikimedia
A ausência de Ulisses mantém o desejo vivo. Se ele estivesse presente, o vínculo precisaria enfrentar a rotina, o conflito e as imperfeições do casamento.

A espera prolongada preserva Ulisses como objeto idealizado. Freud diria que o desejo se alimenta justamente da falta.

Morei na Europa por algumas décadas. E isso me fez bem. Me moldou, entre outras coisas, na pessoa que sou. Não digo isso como "ostentação". Qualquer um pode fazer isso, se quiser muito, muito mesmo. Tudo o que quisermos, temos que querer muito, como o ar que se respira, para acontecer. Nesse período estudei muito, participei do grupo de teatro na principal universidade onde estava, e me sentia bem em não me preocupar com a bolsa aberta, o celular na mão, não ser assaltada no metrô. Era uma vida psicologicamente quase livre de medos. Mas voltei ao Brasil e tudo voltou ao "normal": quatro portões para entrar no apartamento, alarmes, câmeras, etc. Todos os anos fico por alguns meses na Europa. E a cada ano, noto mais e mais diferenças. Uma amiga que foi assaltada três vezes em Londres. Carros de amigos, roubados ou amassados, por motoristas que fogem. Tristemente o jornal anuncia "a brasilificação" da Europa (com "s" mesmo, de Brasiiilll). Mas isso causa indignação.
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GD'Art
Porque, apesar de as comunidades brasileiras serem muitas em determinados países, não são elas que causam problemas! Os(as) brasileiros(as) vivendo fora do país são, na sua maioria, pacíficos(as). Outras nacionalidades, aí já é outra coisa. Não falarei, não é politicamente correto, mas tenho minha opinião. Não apenas isso: o que TV e jornais dizem. Mas onde entra Penélope nisso?

Volto aos lugares que outrora me fizeram muito feliz. Alguns ainda fazem. Outros, passaram da fase de idealização. Mas como Penélope, ela continua esperando pelo sublime momento de felicidade, que pode ser fugaz, mas Penélope aguarda. Ela tem o tear como proteção. Ela constrói, desfaz, repete e pensa "ainda não posso concluir minha trajetória". O tecido nunca terminado é também um tempo psíquico suspenso. É morar atrás de quatro portões e planejar a viagem para "relaxamento psíquico" todos os anos. Ainda não foi concluída minha vinda. Minha odisseia pessoal.

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Penélope Desfazendo o Tecido ▪ Arte: Violet Brunton, S.XX ▪ Col. particular

A repetição
Durante anos, Penélope repete o mesmo ritual.

Não é uma repetição vazia. É uma forma de impedir que o desejo morra. Enquanto o tecido permanece inacabado, a esperança (e no caso, o casamento) também permanece simbolicamente vivo.

Penélope vive cercada pelos pretendentes.

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Penélope e os Pretendentes ▪ Arte, John William Waterhouse, 1911, Galeria de Arte de Aberdeen, Escócia
Ela poderia simplesmente escolher outro marido. Mas não, ela não escolhe. Mais do que isso: não quer escolher. Não quer outro. Prefere as lembranças. O tear funciona como mecanismo de controle de sua vida, suas decisões. Quando a realidade exige uma decisão impossível, ela cria uma solução simbólica. Adia. Suspende. Ganha tempo.

Vai para a Europa.


Lacan: o desejo sustentado pela falta
Para Lacan, o desejo nunca busca apenas um objeto; ele nasce da falta. Ulisses é justamente essa falta. Penélope não vive apenas esperando um homem qualquer. Ela organiza toda a sua
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Jacques Lacan (1901–1981), psiquiatra francês que renovou a teoria psicanalítica ao propor uma releitura da obra de Freud, tornando-se uma das figuras centrais da psicanálise no século XX. ▪ Wikimedia
identidade em torno dessa ausência. Quando Ulisses finalmente retorna, surge uma questão lacaniana interessante: e agora?

O desejo que existia na ausência precisa transformar-se em convivência. Ela o reconhece, sim, mas não pode mostrar isso imediatamente. Ela o testa. Como se precisasse verificar se aquele homem real ainda corresponde ao homem construído durante vinte anos.

Na minha odisseia, voltar aos lugares onde fui extremamente feliz (mesmo que nem sempre) é ter a ausência – e, finalmente, completar a volta. Quase um pedestal. Só que não – de novo essa expressão. Pouco a pouco, há a inevitável revelação de que a idealização já não vigora muito mais.


O desafio
Ao contrário da imagem tradicional da esposa submissa, Penélope é extremamente ativa.

Ela manipula os pretendentes, controla o tempo, protege o patrimônio, preserva seu filho, Telêmaco, mantém o reino unido.

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Penélope e Telêmaco ▪ Arte: Hector Leroux, 1900 ▪ Col. particular
Sua inteligência é equivalente à de Ulisses.

Enquanto ele vence monstros no mundo externo, ela enfrenta os monstros internos: luto, solidão, pressão social, o medo da perda definitiva ou de sua fé, seu último rincão, afinal.


Uma leitura da odisseia contemporânea nossa de cada dia
Penélope, na minha humilde opinião, pode ser lida menos como símbolo da submissão feminina e mais como símbolo da resistência psíquica. Ela recusa deixar que os outros determinem o tempo de sua vida. Seu tear é um gesto de autonomia. Sua espera não é inércia. É estratégia, elaboração, sua opinião, sua voz.

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Ulisses (Odisseus) retorna ao seu palácio ▪ Arte: Nicolas-André Monsiau, 1791 ▪ Museu de Belas Artes de Montreal
Talvez por isso mesmo Penélope continue tão atual: ela nos lembra que, diante da incerteza, nem sempre agir imediatamente é a resposta. Às vezes, a maior força consiste em sustentar a espera sem renunciar à própria identidade – e isso, sem querer me vestir de Penélope e já fazendo isso, me representa. Entrei em um MBA sobre Psicanálise, em uma renomada universidade, com pesada carga horária. Já vinha fazendo isso em minhas pesquisas há anos, usando de psicologia e psicanálise. Nada mais natural do que aprofundar-me ainda mais no tema. E o que ouvi?

"Para quê estudar tanto?"; "Quando vais parar de estudar?"; "Quando vais parar de viajar?" e assim por diante. Minha resposta é: "Nunca vou querer parar de me aperfeiçoar, de aprender".
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Até o último suspiro. Por quê não? Isso me faz feliz. Por quê isso irrita tanto algumas pessoas? Isso diz mais sobre elas do que sobre minhas odisseias. Isso, talvez, as faça confrontar o que, de novo talvez, não estou afirmando nada, quisessem fazer, mas porque sei lá o motivo, não o fazem. Não é minha responsabilidade. Faço minhas escolhas, nem sempre certas. Mas me permito ter identidade e buscar o que acredito. Nesse sentido, nossas "odisseias" são interiores: enquanto Ulisses atravessa mares e enfrenta monstros visíveis, Penélope e quantas de nós (não) se apagam, (não) se submetem, percorrem os labirintos do desejo, da memória e da permanência, demonstrando que a coragem também pode assumir a forma silenciosa de quem tece, desfaz e, sobretudo, resiste. Repito: resiste. Ao julgamento da sociedade.

Penélope, sim. Ulissa? Não precisamos. Podemos ser nós mesmas sem a inerente comparação com heróis mitológicos. Nós somos o mito. Sem desfazer de ninguém.

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