O minarete é uma torre geralmente localizada num dos cantos do complexo da mesquita, sendo, geralmente, o ponto mais alto, não só d...

Entre cúpulas e minaretes: a atmosfera sagrada das Mesquitas (parte 2)

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O minarete é uma torre geralmente localizada num dos cantos do complexo da mesquita, sendo, geralmente, o ponto mais alto, não só da mesquita, mas também de toda a região em que se situa. Embora seja de se considerar a inspiração persa-bizantina na construção dos primeiros minaretes, as mais antigas construções encontram-se no Cairo, mais precisamente na Mesquita Amr Ibn Al-As, fundada em 642 d.C.,
Foto: LaRose
a primeira a ser construída no Egito e em todo o continente africano.

O significado literal dessas torres é “ponto por onde a luz se espalha”. Outrora, os persas e bizantinos usavam torres desse formato para a comunicação entre os seus blocos de exército. Acredita-se que os muçulmanos se inspiraram nisso para comunicar os cinco horários de cada oração. Conforme a localização geográfica e a cultura na qual essas torres são construídas, o seu material alterna entre o tijolo e a madeira. A principal mensagem dos minaretes é a exaltação da mensagem sagrada ao ser proferida cinco vezes ao dia. Essas torres não são apenas exclusivas das mesquitas, há madaris com minaretes altos devido à sua missão de espalhar o conhecimento, principalmente na arquitetura seljúcida.

A título de curiosidade, refira-se que os dois minaretes considerados mais altos do mundo pertencem, nomeadamente, à Grande Mesquita de Argel (Djamaa el Djazair), localizada na Argélia, com 265 metros de altura, o segundo à Mesquita Hassan II, em Casablanca, no Reino de Marrocos, com 210 metros (encimado por um laser direcionado para Meca e que pode ser visto a vários quilómetros de distância), ao qual se segue o da Mesquita Donga Bagh, em Sialkot, no Paquistão, com uma das estruturas de topo mais elevadas da região sul-asiática a chegar aos 102 metros de altura.

Fotos: A. McIntyre / G. Agnus / Facebook Donga Bagh
O primeiro minarete da história a ser construído terá sido o de Basra (Iraque), em 665 d.C. (ano 45 do calendário islâmico), durante o califado omíada de Muawiyah I, que estimulou a construção de minaretes por direta influência das torres das igrejas cristãs, com a mesma finalidade de convocar os crentes para as orações.

Fonte: Wikimedia
A maioria das mesquitas não são apenas edifícios independentes. Muitas incorporam instituições de caridade como refeitórios beneficentes, hospitais, madaris (escolas de ensino, partições contíguas onde não só crianças, mas também os ‘ulama’ ou mestres religiosos, teólogos, canonistas ou muftis, juízes ou qadis e professores ou mu’allimuun) fazem a sua aprendizagem. Alguns proeminentes soberanos também incluíam o seu próprio mausoléu como parte do complexo da mesquita. A inclusão de instituições de caridade nas mesquitas é um aspeto importante da cultura islâmica, devido em parte ao terceiro cardinal do Islão (a esmola de caridade, a zakat), que incentiva os muçulmanos a doarem uma parte dos seus rendimentos (acima de um valor mínimo, chamado nisab) aos mais desfavorecidos.

As mesquitas associadas a Maomé são especialmente prezadas. Em Medina (Madinah Al-Munawwarah, que se pode traduzir como “A Cidade Iluminada” ou “A Cidade Radiante”), existe a Mesquita dos Dois Qiblas (onde o profeta Maomé ter-se-á primeiro virado para Meca em oração, em vez de Jerusalém).
Foto: D. Delso
Sobre a Mesquita do Profeta, construída no ano de 622 d.C., narra a história que quando o profeta Maomé e a sua caravana decidiram partir de Meca com destino a Medina, na tentativa de encontrar o acolhimento e o apoio que não conseguiam obter junto do seu povo, este terá pedido ao seu séquito: “Deixai os camelos seguir o seu caminho, pois os animais estão sob as ordens de Deus”. Chegados a Yathrib, outra cidade do Hidjaz, a cerca de quatrocentos quilómetros de Meca, no local de Bani Najjar, uma eira de secagem para as colheitas, al-Qaswa, o camelo fêmea que transportaria Maomé ter-se-á imobilizado, mas o profeta não desceu. O animal ter-se-á levantado, dado mais alguns passos deambulantes e, finalmente, acabaria por voltar ao sítio onde se tinha ajoelhado anteriormente, para de novo aí se instalar. Então, o profeta desceu e terá perguntado a quem pertencia aquela eira, propondo uma indemnização aos órfãos proprietários do terreno — duas crianças chamadas Sahal e Suhail —, ordenando que uma mesquita e uma residência para a sua família ali fossem edificadas, ajudando ele mesmo nos trabalhos de construção do abrigo, feito de troncos de palmeira, lama estucada e folhas de tamareira.

Foto: S. Türk
Na sua difusão geográfica, não obstante as diferenças regionais, o Islão soube exprimir uma uniformidade de características e capacidade de adaptação às culturas locais, sobretudo no tocante à arquitetura, resultando estilos combinados de elementos clássicos do ocidente com o hieratismo oriental, reconhecendo-se do Reino de Marrocos à Indonésia e do sul da Rússia à Nigéria.

Em Meca, cidade que se estende por uma série de amplos e belicosos vales, existe a venerada Masjid al-Haram (a Sagrada Mesquita), ainda denominada de “A Minha Casa”, “A Sagrada Casa” ou “A Casa Mais Antiga de Deus”.
Nas poeirentas cidades (al-mudun, plural de madinah) do deserto que constituem grande parte do território islâmico, a monotonia incaracterística da vasta paisagem é indubitavelmente animada pelo uso de padrões vivamente coloridos nos monumentos principais, designadamente nas mesquitas. Utiliza-se para esse efeito a técnica de decoração com arabescos (arabesk, tawriq e zukhrafa Islamiya), azulejos vidrados e belíssimas cúpulas revestidas de maiólica, que parece ter vigorado na Mesopotâmia a partir dos Sumérios.

Foto: L. Brank
Tarim, uma grandiosa cidade do Iémen, no itinerário da rota comercial do olíbano, instalada entre bosquetes de esparsas palmeiras, estreitos wudyan (cursos de água), íngremes ravinas e falésias rochosas, orgulha-se de ter tantas mesquitas quantos são os dias do calendário muçulmano (354... para 15.000 habitantes). Entre as mais famosas está a histórica Mesquita Al-Muhdar (Masjid Al-Mihdar), situada no Vale de Hadhramaut. Aqui é representada uma fusão única de estilos arquitetónicos, uma espécie de barroco oriental, com minaretes rococó, colunas ornamentadas, cornijas e pórticos elegantemente esculpidos por mestres pedreiros do barro, cal branca e argila (labin).

Figurino das suas mais excelsas realizações artísticas, as expressões mais impressionantes de poder e absorvimento arquitetónico islâmico, harmonizando o estilo formal, ornamentado com as próprias tradições plenas de sagrado e matiz, sobressai no majestoso jardim-mausoléu (e não mesquita) Taj Mahal, edificado em Agra, na Índia, exemplo empíreo de uma obra-prima construída para acolher o corpo de Mumtaz Mahal, esposa e rainha do quinto imperador Mughal, Shah Jahan, que faleceu ao tentar dar à luz o seu décimo quinto filho. Aqui, à síntese e à força, alia-se-lhe a perfeição.

Foto: S. Sawale
Na idílica ilha tunisina de Djerba, a maciça Mesquita dos Turcos (Jami al-Turk), de origem otomana, com paredes sólidas para proteção contra os ventos quentes do deserto, é um dos monumentos históricos e religiosos mais importantes de Houmt Souk, a principal cidade da ilha.

Foto: Elcèd77 / Wikimedia
De uma beleza distinta, a Mesquita do Rei Abdullah I (Masjid al-Malik ‘Abd Allah al-Awwal), construída entre 1982 e 1989, é um dos marcos mais famosos de Amã (‘Amman), no Reino da Jordânia (em árabe, al-Mamlakah al-Urduniyah al-Hashimiyah). É o único templo islâmico da cidade que permite a entrada de turistas não muçulmanos no seu salão principal. Destaca-se pelo seu teto abaulado em mosaico azul de 35 metros de diâmetro, construído sem colunas de suporte internas. Com uma capacidade para acomodar até 7.000 fiéis no salão principal e mais 3.000 no pátio exterior, compreende ainda um pequeno Museu Islâmico com artefactos pessoais do Rei Abdullah I, uma sala de conferências, uma biblioteca e bazares.

Foto: D. Delso
Localizada na Cidade Velha de Damasco, capital da Síria, a Mesquita dos Omíadas (também conhecida como a Grande Mesquita de Damasco) é considerada o quarto lugar mais sagrado do Islão. Património Mundial da UNESCO, a sua magnífica estrutura carrega séculos de sincretismo religioso e transformações. O local abrigava originalmente um grandioso templo romano dedicado ao deus Júpiter, tendo sido, no final do século IV, convertido numa igreja cristã dedicada a São João Batista (o seu interior abriga um santuário que guarda a relíquia da cabeça deste profeta, conhecido no Islão como Yahya).

Fotos: J. Dale / J. Strzelecki / B. Khabbaz
Na Europa, a Mesquita-Catedral de Córdova, em Espanha, hipostiliforme, atributo do reino, da sua magnificência e da sua cultura, e a mais importante da capital da Espanha Islâmica, erigida por ‘Abd-Rahman I em 785, foi o protótipo de arquitetura sagrada. A floresta de arcadas e dezanove naves que sustentam o telhado, são das suas facetas mais impressionantes e gera um movimento repetitivo que atrai os olhos no sentido da oração. Uma confluência, também, de diversas culturas clássico-tradicionais: a Síria forneceu os telhados de empenas, a nave central e a almenara quadrada, de Bizâncio chegaram os mosaicos, da Tunísia as abóbadas dos zimbórios, do Irão os arcos lobados e de Roma as colunas de pedra e tijolo e os arcos de ferradura.

Mesquita-catedral, em Córdova, Espanha ▪ YT Sergey Adventures
Um extraordinário modelo de uma vetusta madrasah é a de Shir Dar ou Sher Dor (“Portador de Leão”), localizada na Praça Registan, em Samarcanda, no Uzbequistão, com o seu colossal pishtaq, ou porta monumental, decorada com excecionais azulejos coloridos, mandada construir no século XVII pelo governante Yantush Bahadur.

Foto: D. Lundberg
Em Meca, cidade que se estende por uma série de amplos e belicosos vales, apertados no meio de agrestes colinas, entremeada de extensas zonas áridas onde, como outrora se dizia, “nada floresce e nada voa”, existe a muito venerada Masjid al-Haram (“a Sagrada Mesquita”), ainda denominada de “A Minha Casa” (al-baitiya), “A Sagrada Casa” (al-baiat al-haram) ou “A Casa Mais Antiga de Deus” (al-baiat al’atiq). A maior mesquita do mundo e o local mais sagrado do Islão, com os seus nove minaretes e um espaço que pode acomodar até 4 milhões de pessoas no seu interior.

Fotos: A. Mansuri / R. Mortel
No centro das suas devoções está o templo da Ka’bah, o centro espiritual do Islão, um austero cubo de pedra negra, de plano cúbico, com 13 metros de comprimento, 12 metros de largura e pouco mais de 14 metros de altura, um mahmal (palanque) coberto com um tecido de brocado preto e fios de ouro (kiswah) que se renova todos os anos. Engastada no ângulo sudeste, perto da porta, fica a “pedra negra” (al hajr al-asuuad, ou Yamin Allah, “a mão direita de Deus”), um aerólito com 30 cm de diâmetro, recordação dos cultos mais antigos das pedras divinas difundidas na zona arábica no período das religiões pré-islâmicas, cuja transformação cromática é atribuída, segundo a tradição islâmica, aos pecados do Homem.
um certo oriente
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