Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.

Os 4 Ms

mario andrade turista aprendiz
Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.

Comecemos com o primeiro M, que é o de Mário de Andrade, aquele mesmo da Semana de Arte Moderna. Este M fez, em 1927, uma viagem pelo Rio Amazonas e, de suas impressões sobre essa jornada, surgiu o livro O Turista Aprendiz, escrito apenas em 1942 e publicado postumamente na década de 1970. Já o segundo M é o de Murilo Salles, que, em 2024, levou para a telona esse “diário de bordo”, colocando o ator Rodrigo Mercadante na pele do autor de Macunaíma. O terceiro M é o de Mirabeau Dias, que exibiu para os seus confrades da Távora Retangular Envidraçada (com a presença do segundo M) o longa-metragem que tinha a direção e o roteiro desse M número dois. O quarto M é o de Milton Marques Jr., que coordenou os debates após a exibição da película. Esclarecido o título, atrevo-me a relatar as impressões que povoaram estes neurônios que trago comigo.

Louve-se inicialmente a gentileza de Murilo Salles em estar por lá e trocar suas impressões com a “moçada” do sub-90 presente na ocasião, inclusive com este inexpressivo mortal que ousa rabiscar estas linhas. Quem o apresentou à confraria foi nosso cardiologista de plantão, Zé Mário Espínola.

M.S. anda recolhido, por uns meses, em alguma praia de Cabedelo, isolando-se para, ao que me consta, escrever um roteiro para mais uma de suas produções cinematográficas. Tirou um tempinho para esse encontro na confraria e trouxe a tiracolo o nosso Clemente Rosas, figura de proa de nossa intelectualidade e seu vizinho temporário.

Quanto ao filme, surpreendi-me com a fotografia e a delicadeza com que a narrativa é conduzida. Rodrigo Mercadante — Mário de Andrade —, sempre bem-humorado, é o personagem-narrador, capaz de fazer ironias sobre si mesmo e brincar com as situações mais improváveis, e frequentemente exagera determinados acontecimentos para produzir algum efeito visual ou literário. Segundo o próprio diretor, o filme tem alguma influência das chanchadas da Atlântida que povoaram nossos cinemas na década de 1950. Notam-se esses traços pelos toques de humor e irreverência, mas o que impera são as reflexões acerca do Brasil e de nossa cultura.

M.S. faz Mário de Andrade grandioso e o eleva como figura relevante de nossa literatura. Ou seja, coloca aquele que se intitula um turista aprendiz como figura grandiosa, capaz de decifrar o país, buscar e valorizar nossas raízes.

O filme apresenta sua narrativa com uma continuidade incomum, mas sedutora para o espectador. Embora preserve muitos episódios da viagem, procura mostrar a transformação interior do escritor durante a expedição. Numa visão muito pessoal, pareceu-me que a intenção era mostrar uma viagem de M.A. dentro de si mesmo.

Lembremos que o cineasta focaliza a viagem pela região amazônica, mas exclui a parte do livro destinada à aventura pelo Nordeste brasileiro. De um modo geral, o filme possui um viés dramático bem explorado pela linguagem cinematográfica.

As atrizes Dora Freind e Dora de Assis, respectivamente, nos papéis de Mag e Dolrur, aparecem com uma sensualidade discreta, mas envolvente. Entendi que representavam alguma coisa das elites paulistanas e estavam presentes para serem interlocutoras de M.A. em suas reflexões.

Embora essa epopeia de M.A. tenha ocorrido após a publicação de Macunaíma, no meu entender, essa viagem consolidou sua visão de que a cultura brasileira não poderia ser explicada apenas pelas tradições europeias. O contato direto com manifestações populares, indígenas e afro-brasileiras reforçou seu interesse pela documentação do folclore, da música e das tradições orais, influenciando obras posteriores e sua atuação como pesquisador e gestor cultural.

Confesso que, a partir dessas minhas reflexões, não necessariamente corretas, está aí um filme que gostaria de rever, principalmente depois das intervenções do mestre Milton Marques. Mas aqui fica meu registro de uma manhã enriquecedora e o agradecimento aos quatro Ms que proporcionaram essa rara oportunidade à animada rapaziada do sub-90 que frequenta a consagrada Távora Retangular Envidraçada.

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