Meu amigo de infância não esconde a irritação com o primeiro filho, aquele que lhe deu três netos. Pois não é que o primogênito o encar...

A Cegonha de Manoel

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Meu amigo de infância não esconde a irritação com o primeiro filho, aquele que lhe deu três netos. Pois não é que o primogênito o encarregou de explicar ao de seis anos como os bebês se formam e aparecem no mundo? “Avô não foi feito para essas coisas”, resmungou meu velho amigo na conversa em que tratamos do assunto. Missão recebida, contou-me que, de início, pensou em recorrer às cegonhas, disso desistindo, porém, ao atinar que essa história não seria acreditada por netos digitais. Convencia, isto sim, os analógicos que ele e eu um dia fomos, pelo menos,
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até alguém mais velho, no banco escolar ou no da pracinha, desmoralizar o mito.

Além do mais, o pirralho já aceitava que havia saído da barriga da mãe. O que buscava mesmo era, mais do que a confirmação, a explicação para o modo como ali entrara. O pai já tinha esgotado o repertório da sementinha plantada no útero materno e dos nascimentos dos seres viventes por conta do amor e da união entre cada mãe e cada pai, fossem gente, fossem bichos. Isso, evidentemente, não respondia tudo, não solucionava o problema por inteiro, dado o foco apenas nas consequências, não nas causas. E haja pergunta. Foi quando o pai se livrou da encrenca: “Fala com vovô. Ele sabe mais do que eu”.

Meu amigo se viu, então, em palpos de aranha. Mentiria de bom grado sobre as cegonhas, se houvesse alguma chance de ser acreditado. Não havia. Ocorreu-lhe, por fim, a ideia da junção de sementes humanas quando da troca de beijos entre machos e fêmeas, a exemplo daqueles ocorridos, sem censura, nas novelas e nos filmes, em qualquer horário e para qualquer faixa etária.

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Pronto, questão resolvida. Do céu das bocas, as sementes de bebê chegariam às barrigas de cada mãe, facilmente, num escorregão só. Dito isso, restaria o esclarecimento de que o fornecimento dessas sementes ocorria, por sorte, em beijos muitos raros, senão o mundo não aguentaria a quantidade absurda de meninos novos. Arriscou: “Você sabe como os bebês são retirados das barrigas das mães?”. O neto sabia: “Os médicos tiram cada um deles, no hospital”.

O alívio daquele avô que já se considerava um gênio, a oitava maravilha do mundo moderno, a última cocada do tabuleiro, durou pouquíssimo tempo. Durou até perceber, segundos depois, pelo canto do olho, o ar zombeteiro
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do neto de dez anos que, ao lado, quietinho, acompanhou toda a conversa. Não teve dúvida, naquele momento, de que os dois irmãos dariam prosseguimento ao tema, quando sozinhos. Problema dos pais, decidiu, já com a certeza de que avô nenhum foi mesmo feito para resolver coisas assim.

Na nossa conversa, fui eu a resgatar do fundo da memória a doce figura de Manoel, de quem gostávamos eu e meu amigo de infância. Os outros o viam com um parafuso a menos no juízo. O fato é que Manoelzinho, aos doze anos de idade, ainda acreditava na entrega de recém-nascidos pelas cegonhas, de casa em casa. Aos 22, jurava como não faria com a noiva aquilo que de bom grado e em comum acordo fazem e fizeram, em todas as épocas, os enamorados. Que tal Júlio César e Cleópatra (deixemos Marco Antonio de fora), Romeu e Julieta e, até mesmo, os clandestinos Pedro I e Domitila?

“A minha eu vou respeitar”, prometia o ingênuo Manoel a si mesmo e àqueles de cuja intimidade privasse a ponto da discussão do assunto. Era o nosso caso. Dissemos a ele que o amor, seja para o enlevo, seja para a procriação,
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em momento nenhum será desrespeitoso. “Foi um trabalhão convencê-lo disso”, lembrou meu amigo. Pessoalmente, acho que levamos esse propósito a bom termo, pois aquele casal de anjos – ele coroinha na juventude e, ela, quase ingressa num convento – tiveram seis filhos.

Findo o bate-papo divertidíssimo sobre a encomenda de bebês antigos e modernos, pus-me a pensar que a ave brasileira mais próxima da cegonha é o tuiuiú. A esta se seguem o maguari e o cabeça-seca, todos habitantes do Pantanal, da Amazônia e do Cerrado, onde os humanos – poucos, pouquíssimos, naquelas vastidões – sempre dispensaram tais entregas e sempre deram às coisas os nomes que elas têm.

O propósito de ocultar a sexualidade e a reprodução humana não faz parte, por exemplo, das práticas de criação dos povos indígenas neste Brasil imenso e diverso. Nas aldeias tradicionais, onde a vida comunitária ocorre em espaços compartilhados, as crianças presenciam, de forma natural, a nudez, a gravidez e a amamentação. Não foi à toa que muitos, em meio à turma de Cabral, supuseram-se, quando do desembarque nas nossas praias, com os pés no que restara do Jardim do Éden.

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Cegonha é invenção dos civilizados, assim tidos e havidos. É coisa de europeu. E é mito com difusão ampliada ao sabor dos pudores da Era Vitoriana. Conta-se, também, que a lenda surgiu antes disso, no Norte da Europa, impulsionada pelos hábitos migratórios dessas aves. As brancas voavam para a África durante o inverno e dali retornavam na Primavera, tempo associado ao renascimento da natureza.

Os casamentos da velha Europa, naqueles idos, mais aconteciam no Solstício de Verão, fim de junho, ao que leio. Os bebês então nasciam, em maior quantidade, findas as gestações de nove meses,
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na Primavera seguinte, período coincidente com o retorno e a nidificação das cegonhas nos telhados das casas. Há, ainda, sobre o assunto, menções a raízes mais profundas sobre o mito da cegonha, bicho ligado às deusas nórdicas Holda e Frigga. Acreditava-se, então, que os espíritos dos bebês não nascidos residiam nos pântanos e lagos onde essas aves se alimentavam e de onde os resgatavam para entrega aos lares europeus.

A popularização global desse mito decorreria do conto “As cegonhas”, do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, bem ao gosto dos que então cultivavam os valores éticos, morais e sociais predominantes no Reino Unido sob o tacão pesado da Dona Vitória, como já dito.

A história dos bebês dependurados nos bicos dessas aves serviria, assim, pudica e convenientemente, para atrasar a percepção da vida como ela é pelos filhotes de gente que um dia fomos eu, meu interlocutor e o querido Manoel, no nosso pedacinho de Agreste.

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