Estou entre quatorze e quinze anos, venho descendo a rua, achando que valeu a pena ter deixado meu último tostão na sinuca da sorveteria Macaíba, da Maciel Pinheiro, de Campina Grande, e dou com o olhar, detido, no velho José Carlos da Silva — o pai —, encostado à porta ainda estreita da primeira fábrica do São Braz, na Simeão Leal.
GD'Art
Vejo isso bem vivo, o sol daquela tarde como se fosse o sol de hoje, só que brilhando por cima dos telheiros da Cardoso Vieira, rua que cruzava e continua cruzando para nos levar aonde hoje é o Calçadão, e que aqui não dá para dizer o quanto esse cenário da quadra mais sem arrimo de minha vida se camuflou entre as sombras de meu inconsciente.
E mais me lembro — razão de toda essa prosa — daquele ar de riso apenas esboçado, quando menos por alguém que se sente alvo da curiosidade respeitosa de um adolescente. Poderia haver coisa mais fugidia?
Jose Carlos da Silva Junior ▪️ GD'Art
José Carlos da Silva Júnior, símbolo dos mais representativos da elite empresarial de sua terra, ex-governador, ex-senador, com um nome muito além da pequena e remota Simeão Leal, avulta, acomodando as mais vistosas dimensões na pérola desse instante.
Nós nos dávamos bem, mesmo distantes no convívio de nossas atividades, e, numa noite de frio em São Paulo, apertando-me no casaco com toda a força definhada dos braços (eu regressava de uma consulta médica), numa solidão de doer, avistei um balcão com as letras cintilantes do São Braz. E ali me sentei e respirei, protegido por um aroma que vinha de longe. Mesmo entre estranhos e estrangeiros, vi-me em terra bem firme. Senti-me um pouco em casa, com os pés enregelados em Congonhas.
Gonzaga Rodrigues ▪️ GD'Art
Publicado hoje, 23/08/26, no jornal A União









