Se a literatura não pode salvar o mundo nem mudá-lo, pode, individualmente, salvar ou mudar vidas. Não falo aqui, claro, de livros de autoajuda, mas de literatura propriamente dita. E também reconheço que as obras de autoajuda podem até ser benéficas para alguns, não duvido. Mas refiro-me particularmente a um caso verídico de salvação pela literatura, a grande literatura, que terminou por dar origem a um livro por sua vez importante.
GD'Art
Cada um falava sobre o que sabia e queria: um discorria sobre a história do livro, outro sobre a história da Inglaterra, e um terceiro sobre o alpinismo. Tudo de improviso, pois não existiam livros para consulta nem anotações prévias. Falavam aquilo de que conseguiam se lembrar, puxando pela memória como o náufrago que se agarra a uma tábua qualquer. Aquelas lembranças possíveis eram o suficiente para que se convencessem de que estavam vivos e que talvez assim pudessem permanecer, em face de condições tão adversas.Joseph Czapski escolheu falar sobre passagens e aspectos de Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust,
GD'Art
Logo após a(s) palestra(s), o expositor teve a ideia de anotar o conteúdo de sua fala, para que não se perdesse no esquecimento, conteúdo esse que depois da libertação do autor foi transformado num pequeno volume intitulado Proust contra a degradação, entre nós publicado belamente pela Editora Âyiné (Belo Horizonte, 2022), com tradução de Luciana Persice Nogueira. É um livro de menos de cem páginas, valioso sob vários aspectos, não apenas por oferecer ao leitor um testemunho de resistência humana, mas também uma leitura “de suprema fineza” da célebre obra proustiana.
Como explica o autor em sua introdução, o texto, que ele chama de ensaio, não é rigorosamente exato em suas citações sobre Proust – nem poderia ser –, pois tudo foi feito na base das lembranças, já que não se dispunha de bibliotecas nem de livros para embasar a conferência. O subjetivismo domina a exposição do “ensaísta”, e talvez este seja o maior encanto da palestra heroica. Ali não se tratava de erudição, mas de sobrevivência.
Joseph Czapski ▪️ GD'Art
Outro registro importante e indispensável à compreensão da obra rememorada: “Eu já lhes falei do imenso papel que teve na vida de Proust, sempre doente, sua mãe. Ela o adorava, cuidava dele, sem quase nunca deixá-lo. Proust, com sua natureza feminina, respirava, até a morte da mãe, essa atmosfera de ternura única e inteligente”.
Concluo com uma advertência feita por Joseph Czapski que merece atenção: “Como parecem ridículas as observações dos conhecidos de Proust ou de seus leitores superficiais, sobre o esnobismo de Proust! Que significa essa palavra em se tratando de um escritor dessa magnitude, que observa os meios mundanos com tantas lucidez e distância?”. De fato, há, para muitos, essa imagem de Proust esnobe, decorrente de seu gosto pelos salões da aristocracia parisiense de seu tempo e também de seu refinamento nos modos e preferências. De fora, realmente ele podia dar a impressão de ser um esnobe, um socialite frívolo, um mundano alienado. Mas, como adverte Czapski, é preciso ultrapassar as aparências para se alcançar a essência do homem por baixo da superfície.
Essa pequena/grande obra de Czapski é mais sobre ele próprio e seus companheiros de prisão do que sobre o genial autor de Em busca do tempo perdido. É mais sobre o poder da literatura na vida das pessoas do que sobre teorias literárias. É mais a fala espontânea de um atento leitor do que a exegese rebuscada de um crítico. Para mim, é esta a maneira correta de se apreciar o livro, respeitando todas as demais, obviamente.
Repito: se a literatura, por si só, não pode mudar o mundo, aqui e acolá ela tem mudado e salvado vidas, individualmente. E só por isso ela se justifica e se engrandece.










