A língua tem dessas coisas. Uma palavra mal traduzida, uma pergunta feita na hora errada, e aquilo que deveria ser apenas uma conver...

Quando é melhor não perguntar?

alemao humor professor aluno constrangimento linguagem
A língua tem dessas coisas. Uma palavra mal traduzida, uma pergunta feita na hora errada, e aquilo que deveria ser apenas uma conversa amena e cordial pode acabar produzindo uma situação um tanto quanto constrangedora. Eu sempre tive simpatia pelas línguas estrangeiras e, naquela época, estudava alemão. Quando encontrava alguém que falava a língua, gostava de praticar um pouco, mais por curiosidade e prazer de conversar do que por qualquer pretensão de domínio.

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Eu era um jovem professor universitário em início de carreira e tinha entre meus alunos um rapaz que era mestre cervejeiro. Era alemão. De vez em quando, conversávamos em seu idioma. Eu perguntava alguma coisa, ele respondia, eu entendia o que podia e seguíamos a conversa. Era uma maneira agradável de praticar a língua e, principalmente, de estabelecer uma proximidade cordial com o aluno.

Certo dia, ele me procurou. Veio devagar, com a típica expressão de quem precisa pedir alguma coisa a um professor, aquela cara de cachorro que virou a panela e já imagina a resposta negativa. Então falou com sotaque carregado:

— Professor, posso falar um pouquinho com o senhor?

Alguns alunos estavam próximos.

— Claro. Sente aí.

Ele sentou.

— Eu faltei a algumas aulas...

— Eu percebi.

Ele respirou fundo.

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— E também faltei às avaliações.

— Isso também eu percebi.

Ele sorriu sem graça.

— Eu queria saber se ainda existe alguma possibilidade de recuperar.

— Existe, sim. Não se preocupe. Vou olhar o calendário e ver a data da reposição. Quanto às aulas, a gente dá um jeito. Você recupera o conteúdo.

Ele pareceu aliviado.

Até aquele momento, eu havia sido um professor razoavelmente sensato.

Então resolvi deixar de ser.

— Mas aconteceu alguma coisa? Você viajou? Foi para a Alemanha fazer algum curso de aperfeiçoamento?

Ele baixou os olhos.

— Não, professor. Foi uma questão de saúde.

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Pronto. Era a hora de eu dizer “melhoras” e voltar ao calendário.

Mas eu queria apenas demonstrar interesse, ser gentil. E foi justamente aí que a cordialidade começou a se transformar em indiscrição.

— Saúde? Mas o que houve?

Ele hesitou.

— Tive de fazer uma cirurgia.

Eu ainda poderia ter parado. Deveria.

Não parei.

— Cirurgia de quê?

Ele olhou para os lados. Havia alguns alunos próximos. Percebi que ele estava um pouco reticente. Em vez de perceber que aquilo era um sinal para encerrar o interrogatório, interpretei o constrangimento como dificuldade linguística.

E tive outra ideia brilhante.

— Olhe, se você tiver dificuldade de dizer em português, pode falar em alemão mesmo.

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O rapaz pareceu sinceramente aliviado. Ninguém mais ali entendia alemão.

Então se aproximou um pouco e pronunciou, num alemão impecável, em alto e bom som:

— HÄMORRHOIDEN.

Eu entendi imediatamente. O problema foi que os outros também.

E aí estava a ironia: a palavra que ele imaginava estar escondendo atrás de uma língua estrangeira era justamente uma palavra de origem “grega”, incorporada a vários idiomas. Em português, “hemorroida”; em alemão, “Hämorrhoiden”; em inglês, “hemorrhoids”; em francês, “hémorroïdes”; em espanhol, “hemorroides”; em italiano, “emorroidi”; em holandês, “aambeien”; em latim, “haemorrhoides”. A raiz era a mesma. Portanto, a língua que deveria funcionar como esconderijo havia entregado o rapaz a todos.

Fez-se um silêncio daqueles que não são exatamente silêncio. Alguns alunos olharam para mim. Outros olharam para ele. Ele, inocentemente, não percebeu que sua fortaleza linguística não tinha funcionado.

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Eu ainda tentei salvar a situação.

— Ah... sim. Entendi.

O problema foi que todo mundo em volta também tinha entendido.

E eu, num último esforço de dignidade acadêmica, fiz aquilo que todo professor faz quando percebe que falou demais: adotei uma expressão séria, como se estivesse diante de uma questão de alta relevância científica, e encerrei o assunto.

Os alunos, naturalmente, estavam se divertindo muito mais do que deveriam.

Você pode estudar uma língua durante anos, decorar sua gramática, admirar Goethe, ler Thomas Mann, pronunciar corretamente palavras que parecem ter sido fabricadas numa oficina de parafusos e, ainda assim, quando chegar a hora decisiva, descobrir que hemorroida continua sendo hemorroida em qualquer idioma.

Desde então, quando alguém me dizia que faltou às aulas por motivo de saúde, minha resposta era muito mais sofisticada:

— Espero que esteja tudo bem.

E não perguntava mais nada.

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