"Quando eu tinha seis anos, o meu pai, Tutmés I, levantou-me para me sentar a seu lado no seu trono de Amón. Ele disse: ‘Flor d...

A majestade do Templo de Hatshepsut (Parte 1)

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"Quando eu tinha seis anos, o meu pai, Tutmés I, levantou-me para me sentar a seu lado no seu trono de Amón. Ele disse: ‘Flor do Egito, serás uma governante’.

Levou-me consigo na sua barca real pelo Nilo abaixo até Mênfis, até Sakkara, até Gizé, para ver o meu reino. Ele disse aos camponeses e nobres que se aglomeravam nos degraus à beira da água: ‘Esta é a minha filha, a deusa Hatshepsut, que será coroada com a coroa do Alto e do Baixo Egito quando se tornar mulher’.

Eu sabia que Amon-Rá, Senhor de Tebas, Rei de Karnak, assumiu a forma do meu pai e desceu até à minha mãe, Ahmose, enquanto ela dormia na beleza do seu palácio. Ela despertou com a fragrância do deus e regozijou-se ao ver a sua beleza, e ele uniu-se a ela e o seu amor entrou no corpo dela. E a minha mãe disse: ‘Que maravilha ver-te cara a cara, o teu orvalho está em todos os meus membros’.

E Amon, Senhor das Duas Terras, disse-lhe: ‘Khnumit-Amon-Hatshepsut é o nome da filha que plantei no teu corpo. Ela será rainha em toda esta terra. A minha alma é dela, a minha coroa é dela.’"
Ruth Whitman
O Templo Mortuário de Hatshepsut, também conhecido como Djeser-Djeseru (“O Sublime dos Sublimes” ou “A Maravilha das Maravilhas”), localizado no complexo de Deir Elbari ou Deir el-Bahari (“Mosteiro do Norte”, em árabe), na margem ocidental do rio Nilo, perto do Vale dos Reis, em Luxor, é uma das mais impressionantes construções do Antigo Egito e é dedicado a uma das poucas faraós mulheres que governou o Egito, considerado um testemunho da grandiosidade dessa figura histórica e da arquitetura única que a envolve.

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Mapa do Egito e do nordeste da África, com a localização do Templo de Hatshepsut, em Deir el-Bahari, na margem ocidental do Nilo, próximo a Luxor. ▪ GD'Art
Encomendado pela rainha e faraó Hatshepsut, da XVIII Dinastia, e projetado por Senenmut, o seu arquiteto chefe, conselheiro real e responsável pelo desenho do Templo, este terá sido inspirado nas ruínas do templo vizinho que pertenciam ao rei Neb-Hpet-Rá (ou Nebheptre), Mentuotepe II, um dos grandes monarcas da XI Dinastia, e originalmente construído como local de culto a Amon-Ra, o grande deus Sol.

Este espaço, comprido e colunado, é um exemplo notável de arquitetura egípcia, caracterizado pelos seus três grandes terraços que se erguem a quase 30 metros de altura, diretamente da planície desértica,
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Hórus em forma de falcão, guardião simbólico do Templo de Hatshepsut. Associado ao céu, à proteção divina e à realeza, o deus aparece em esculturas que marcavam o percurso de acesso aos níveis superiores do santuário. ▪ Fonte: YT Davey Wavey
conectados por largas rampas alinhadas com colunas que, na sua maioria, permanecem intactas até hoje. Estátuas e relevos do deus em forma de falcão ou com cabeça de falcão, representando o deus Hórus, protetor dos faraós e do trono do Egito aparecem, quais guardiãs, nas balaustradas e patamares de acesso.

A estratificação do Templo corresponde à forma clássica tebana, empregando pilares, quadras, hipostilo, quadra de sol, capela e santuário, uma homenagem aos templos solares da XI Dinastia, com um nível de sofisticação e elegância inigualáveis. Embora o Templo de Hatshepsut domine a paisagem, o complexo abriga os restos de outras duas estruturas importantes, designadamente, como já referido, o Templo de Mentuhotep II e o Templo de Tutmósis III (também conhecido como Tutemés III), edificado pelo enteado e sucessor de Hatshepsut, erguido logo acima dos outros templos.

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Vista aérea de Deir el-Bahari, com os três templos funerários dispostos em diferentes níveis da encosta: o de Mentuhotep II, à esquerda; o de Hatshepsut, ao centro; e, acima, a ruínas do santuário de Tutmósis III. ▪ Foto: D. Delso
É possível verem-se hieróglifos esculpidos na parede do Templo retratando o escaravelho-sagrado (Scarabaeus sacer), intimamente ligado ao deus Khepri (do verbo hieroglífico kheper, que significa “vir a existir” ou “transformar-se”), representado precisamente pela figura de um escaravelho, cujo hábito de rolar bolas de esterco fazia os antigos egípcios imaginarem que ele empurrava o Sol pelo céu, simbolizando a renovação constante da vida, a criação e a transformação contínua.

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Escaravelho sagrado esculpido nas paredes do Templo de Hatshepsut, associado a Khepri, divindade ligada ao nascer do Sol e à renovação. Para os antigos egípcios, o inseto simbolizava a criação, a transformação e o ciclo contínuo da vida. ▪ Fotos: A. Rodrigues
No interior do complexo há ainda santuários dedicados a várias divindades, como à deusa Hathor (associada ao amor, à beleza, à alegria, à música, à dança e à maternidade), sito no segundo terraço do Templo de Hatshepsut, no lado direito (sul) e a Anúbis (originalmente chamado de Inpu ou Anpu pelos antigos egípcios), deus da mumificação, dos ritos funerários e o guia das almas, localizado no extremo norte do segundo terraço do Templo, refletindo a devoção da regente (Itau) e a importância religiosa do local. Esculpido diretamente na rocha da falésia no terceiro terraço, o Santuário de Amon-Ra servia como o ponto focal espiritual dedicado ao deus sol, “Rei dos Deuses” e divindade suprema do
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Interior do Santuário de Amon-Ra, escavado na rocha no terceiro terraço do Templo de Hatshepsut. No espaço mais sagrado do complexo, a luz, a arquitetura e os relevos se encontravam para celebrar a divindade suprema do Egito e senhor de Tebas.
Império Egípcio. A par de várias estátuas e ornamentações entretanto furtadas ou destruídas, o Templo incluía esculturas de Osíris, uma avenida de esfinges e muitas figuras da rainha em diferentes poses, de pé, sentada ou ajoelhada.

Além disso, este Templo abrigava uma série de relevos e inscrições (e até retratos que posteriormente terão sido mandados demolir pelo seu enteado Tutmósis III) que narram a vida e as realizações de Hatshepsut, incluindo a sua famosa expedição à próspera Terra de Punt, um lugar de lendas e fábulas, ilustrado pelo relato de Heródoto (no Livro II da sua “História”, século V A.C.), cuja localização que os egípcios consideravam como sendo Ta Netjer ou Ta-Ntr, a “Terra de Deus”, mantiveram em segredo. Alguns historiadores acreditam que Punt se situaria no Corno de África, possivelmente no que é hoje a Etiópia. Outras possibilidades incluíam o Djibouti, a Eritreia, a Somália, o Sudão do Sul e até o Iémen. Alguns investigadores teorizaram que Punt poderia ter sido outro nome para uma cidade portuária a que os romanos chamavam Adulis, na atual Eritreia. Certo é que Punt era uma terra mítica que fornecia bens exóticos como ouro verde de Emu, prata, ébano, marfim, incenso ihmut, incenso sonter, madeira de canela e madeira khesyt, cosméticos para os olhos, animais como babuínos, gorilas, cães, resina de mirra e árvores de mirra.

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Relevo do Templo de Hatshepsut que retrata a expedição à Terra de Punt, realizada durante o seu reinado. As cenas registram a frota egípcia, seus tripulantes e o transporte de mercadorias, preservando um dos mais detalhados relatos visuais da célebre viagem.
Aliás, no regresso desse empreendimento fantástico de cinco navios enviados com centenas de tripulantes, Hatshepsut mandou plantar estas árvores nos jardins de Deir el-Bahari, onde prosperaram. Diz-se inclusivamente que terá sido a primeira vez na história registada que alguém transplantou com sucesso árvores estrangeiras. As raízes das árvores ainda hoje podem ser vistas.

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Relevo que representa árvores de mirra trazidas da Terra de Punt, após a expedição enviada pela rainha-faraó. O registro é especialmente significativo porque, segundo a inscrição, as árvores foram transplantadas nos jardins de Deir el-Bahari, tornando visível a dimensão botânica e comercial daquela viagem.
Os relevos dispostos no Templo são excecionais tanto em qualidade como em quantidade, fornecendo-nos um relato detalhado da expedição a Punt, desde a preparação e partida da frota até à chegada e ao comércio com os habitantes locais. Os textos descrevem Hatshepsut como uma conquistadora: “Aquela que sairá vitoriosa, ardendo contra os seus inimigos”.
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Na esplanada do Templo de Hatshepsut, com a monumental fachada do segundo terraço. A composição evidencia como a arquitetura do santuário foi concebida em diálogo direto com a montanha. ▪ Acervo: A Rodrigues
Essas inscrições não são apenas importantes registos históricos, mas também narrativas que enfatizam a legitimidade e a divindade do seu reinado.

Refira-se, em termos de curiosidade, que o eixo principal do Templo Mortuário de Hatshepsut é definido por um azimute principal de aproximadamente 116,5° (ou entre 116° e 117°), alinhado com o nascer do sol do solstício de inverno, marcando o renascimento solar, que na nossa era moderna ocorre anualmente por volta do dia 21 ou 22 de dezembro. A luz do sol penetra pela parede traseira da capela, antes de se mover para a direita, destacando as estátuas de Osíris (estátuas osíacas), em cada lado da porta da segunda câmara, monumentos em forma de múmia, com os braços cruzados, que retratam a rainha-faraó associada ao deus do submundo para afirmar a sua autoridade divina.

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Estátuas osíacas de Hatshepsut, representada na forma de Osíris, com os braços cruzados sobre o peito, no Templo de Deir el-Bahari. A imagem da faraó associada ao deus do mundo dos mortos reforçava sua autoridade divina e a continuidade de seu reinado para além da vida.
Outra singularidade associada a este alinhamento principal é aquela criada por uma caixa de luz, que mostra um bloco de luz solar que se move lentamente do eixo central do Templo para primeiro iluminar o deus Amom-Ra e então brilhar sobre a figura ajoelhada de Tutmósis III, antes de finalmente iluminar o deus Hapi, que personificava as cheias anuais do rio Nilo. Além disso, devido ao ângulo elevado do sol, cerca de 41 dias em ambos os lados do solstício, a luz solar é capaz de penetrar através de uma caixa de luz secundária até à câmara mais interna.
* Também conhecida como “Pirâmide Escalonada”, a mais antiga construção monumental de pedra do mundo e a primeira pirâmide erguida no Antigo Egito, localizada na necrópole de Saqqara)
A capela foi renovada e expandida durante a era ptolomaica e tem referências cultas a Imhotep, o construtor da Pirâmide de Djoser* e a Amenófis (ou Amenotepe), filho de Hapu, célebre sábio, arquiteto e vizir do faraó Amenófis III (XVIII Dinastia).

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Interior da capela do culto solar, no terceiro terraço do Templo de Hatshepsut. Dedicada ao culto de Rá-Horakhty, a capela fazia parte do complexo solar, onde a arquitetura e a orientação do templo estavam associadas ao ciclo diário do Sol.
O Templo Mortuário de Hatshepsut foi redescoberto no século XIX por arqueólogos europeus. Desde então, passou por várias fases de escavação e restauração. Os esforços para preservar este monumento continuam até hoje, com o objetivo de proteger as estruturas e as valiosas inscrições dos danos causados pelo tempo. É considerado o monumento egípcio cujo estilo é mais próximo do da arquitetura clássica, enfatizando a imagem ampliada do faraó erguendo santuários para homenagear os deuses com quem viverá após a morte.

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Colunas do segundo terraço do Templo de Hatshepsut, diante da encosta rochosa. A monumentalidade da arquitetura integra-se à paisagem, numa das características mais marcantes do santuário construído pela rainha-faraó da XVIII Dinastia.
A arquitetura do Templo original foi consideravelmente alterada como resultado de uma reconstrução defeituosa no início do século XX. Este não é apenas uma maravilha arquitetónica, mas também um símbolo duradouro do poder e da habilidade de uma das poucas mulheres faraós do Egito. O seu reinado foi marcado por uma era de paz e de prosperidade e o seu templo permanece como testemunho desse mesmo legado.

Templo de Hatshepsut ▪ YT Davey Wavey
A história de Hatshepsut ainda guarda capítulos fascinantes. Na segunda parte, vamos acompanhar o mistério que envolveu o desaparecimento de seu nome, a descoberta de sua múmia e a surpreendente identificação feita graças a um dente. Não perca!
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