Poucas frases da psicologia sobreviveram ao tempo com tanta força quanto a escrita por Erich Fromm (1900-1980) em A Arte de Amar , d...

Necessidade (?) de amor disfarçada

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Poucas frases da psicologia sobreviveram ao tempo com tanta força quanto a escrita por Erich Fromm (1900-1980) em A Arte de Amar, de 1956: "O amor imaturo diz: amo você porque preciso de você. O amor maduro diz: preciso de você porque amo você." A inversão de apenas duas palavras altera completamente o sentido da relação amorosa e revela uma das questões mais delicadas da vida afetiva. Deveras amamos alguém? Ou queremos, "precisamos" preencher um vazio? (Você estranhou a palavra "deveras"?
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Coloquei justamente para causar essa estranheza! Para reutilizar palavras esquecidas em português!)

A frase incomoda – sim, incomoda – porque desmonta uma crença muito difundida: a de que existe um (ou mais) OBJETOS depositários de amor, vou chamar assim – poderia ter dito "dignos" de amor. Escolhemos alguém, somos escolhidos(as), pois esse é o padrão através dos séculos. Não devemos nos esquecer de que objetos físicos (não apenas pessoas) também fazem parte dessa "cadeia do amor". Coisas das quais não conseguimos nos desapegar. E não há nenhum mal nisso, desde que não seja algo patológico. Dizemos que não conseguimos viver sem alguém (ou algo), que nossa felicidade depende de sua presença, que a ausência do outro nos destrói. A cultura romântica transformou essa dependência em demonstração de intensidade. Para Fromm, porém, intensidade não é sinônimo de amor. Muitas vezes é apenas medo.

O amor imaturo nasce da carência. A pessoa ama porque necessita de proteção, companhia, reconhecimento ou segurança. O(A) parceiro(a) deixa de ser visto(a) como um ser humano livre e passa a desempenhar uma função:
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aliviar a solidão, reduzir a ansiedade, oferecer sentido à existência – ou outros meios de "servir". Quando isso acontece, o relacionamento deixa de ser um encontro entre duas pessoas e se torna uma tentativa de remediar uma falta interior ou existencial.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que tantas relações se tornam possessivas. O ciúme excessivo, a necessidade constante de confirmação, o controle sobre a vida do outro e o medo do abandono frequentemente não surgem do excesso de amor, mas da insegurança. Quem acredita que depende do outro para existir teme perdê-lo como quem teme perder uma parte de si, ou mesmo de um estilo de vida. Obviamente, não podemos generalizar. Uma mãe que tenha parado de trabalhar fora de casa para cuidar de quatro filhos e depende financeiramente do marido não deve ser julgada por sua decisão de permanecer em um relacionamento onde, às vezes, já não se encontra mais. Empatia se faz necessária.

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Fromm propõe exatamente um caminho inverso sobre o amor. O amor maduro não elimina a necessidade da pessoa amada; ele a transforma. Existe um desejo de proximidade. A necessidade seria uma consequência do vínculo criado, não sua causa.

Essa diferença é mais profunda do que parece. No amor maduro, o outro não é um remédio para nossas feridas. Continua sendo alguém independente, com desejos, projetos e liberdade. Amar passa a significar desejar e se rejubilar (mais uma palavra esquecida) com o crescimento da outra pessoa, mesmo quando esse crescimento exige espaço, autonomia e individualidade. Fromm afirmava que o amor verdadeiro (não o por algum interesse "espúrio") envolve cuidado, responsabilidade,
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respeito e conhecimento do outro, elementos que não são compatíveis com qualquer forma de exploração ou posse.

A frase escrita há quase setenta anos continua despertando desconforto. Ela obriga cada um a (se) perguntar: "Preciso 'desta' pessoa porque a amo ou digo que a amo porque preciso dela?". A resposta nunca é simples. Poucos relacionamentos são inteiramente maduros ou inteiramente livres de dependência. Na maioria das vezes, convivem as duas tendências em proporções diferentes, o que não deve propiciar o tilintar de sinos de alerta: isso é normal. Para todos(as). Mesmo em uma situação altruísta, há algo de interesse: fazer o bem nos faz bem. Usamos dessa premissa para nossa felicidade. Ajudar o outro teria, então, um interesse pessoal. Portanto, não há incorreção em se beneficiar de alguma forma em relacionamentos. Alguma coisa queremos, mesmo que seja algo hedonista. Alguma coisa o outro quer, pelo mesmo motivo. E, para Fromm, o amor deixa de ser um acaso que simplesmente nos encontra para tornar-se uma escolha consciente de cuidado, respeito e a aceitação da liberdade do outro.

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Em uma época marcada pela ansiedade, pela busca incessante de validação e pelo medo da solidão, a reflexão de Erich Fromm permanece atual. De alguma forma, o verdadeiro teste do amor não pode não ser a intensidade da dependência, mas a capacidade de permanecer inteiro ao lado de alguém. Se faça essa pergunta. Afinal, o amor mais profundo não aprisiona. Ele aproxima duas pessoas que poderiam viver separadas, mas escolhem caminhar juntas. E há um ótimo ditado, atribuído ao Dalai Lama, para fechar ou explicar o texto deste artigo: "Dê a quem você ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar".

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