A questão da criação a partir do nada é um problema que já intrigava o pensamento antigo. Parmênides sustentava que, do nada, nada poderia surgir; Platão imaginava um demiurgo ordenando uma matéria já existente; Aristóteles concebia um cosmos eterno.
Foi o pensamento judaico-cristão que introduziu a ruptura radical da creatio ex nihilo: Deus não teria apenas organizado o mundo, mas lhe dado existência sem matéria anterior. Para Santo Agostinho, até o tempo foi criado, pois não havia um “antes” da criação. E talvez seja justamente aí que comece o problema da literatura: se Deus pode criar
GD'Art
A própria ciência só consegue fazer previsões porque a natureza apresenta regularidades. Os mesmos padrões se repetem, as mesmas leis funcionam em lugares diferentes, e é justamente essa repetição que permite ao homem olhar para os dados que acumulou, formular hipóteses e arriscar um prognóstico. A ciência, portanto, não é a arte de adivinhar o futuro, como imaginam os crédulos, nem a posse definitiva da verdade, como imaginam alguns cientistas de jaleco excessivamente engomado. É uma tentativa disciplinada de descobrir se aquilo que aconteceu continuará acontecendo quando as condições forem semelhantes. Se a maçã cai hoje, podemos apostar que amanhã não resolverá subir para o céu só porque está de mau humor.
Mas será que essa lógica termina nas fronteiras da ciência? Ou nós também estamos submetidos a algum tipo de regularidade quando inventamos histórias? O escritor, afinal, não trabalha com o universo inteiro à sua disposição. Trabalha com aquilo que viu, leu, ouviu, sofreu, imaginou, desejou ou roubou, e quase sempre roubou sem saber. Quando inventa um assassino, já conhece alguma coisa sobre assassinos; quando inventa um santo, carrega consigo uma biblioteca de santos;
GD'Art
Borges percebeu esse problema com a malícia de quem gostava de colocar uma ratoeira dentro da própria biblioteca. Em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, imagina uma sociedade secreta empenhada em construir intelectualmente um mundo inteiro: sua língua, sua filosofia, sua história, suas ciências, sua geografia. É a fantasia máxima do escritor: inventar uma realidade sem precisar prestar contas à realidade. Só que há uma pequena trapaça — e Borges sabia disso. Tlön não nasce do nada. Para inventá-lo, Borges precisa mobilizar Berkeley, o idealismo, a linguagem, a matemática, a filosofia, as enciclopédias, a história e uma quantidade obscena de cultura. O mundo aparentemente criado do zero é, na verdade, um mundo fabricado com pedaços de outros mundos.
GD'Art
Em “Pierre Menard, autor del Quijote”, Borges leva a brincadeira ao limite. Menard pretende escrever novamente o Dom Quixote. Não uma adaptação, não uma tradução, não uma paródia: o mesmo livro. E aí está a perversidade genial. Mesmo que as palavras fossem exatamente as mesmas, o texto já não seria o mesmo, porque o mundo ao redor delas mudou. Cervantes e Menard podem escrever a mesma frase, mas não podem fazê-la significar exatamente a mesma coisa. O tempo, a cultura, a experiência do leitor e a própria história transformam as palavras. Não existe repetição absoluta porque ninguém pisa duas vezes no mesmo século.
GD'Art
Nesse sentido, a literatura se aproxima curiosamente da ciência. O cientista observa regularidades e pergunta: “O que acontecerá se estas condições forem mantidas?” O escritor observa a natureza humana e pergunta: “O que aconteceria se?” E essa pequena palavra talvez seja uma das maiores invenções da humanidade. O que aconteceria se um homem pudesse voltar ao passado? Se ninguém pudesse mentir? Se a morte não fosse o fim? Se um sujeito absolutamente medíocre recebesse poder absoluto? Se uma mulher descobrisse que toda a sua vida fora construída sobre uma mentira? A literatura é um laboratório onde as experiências podem ser realizadas sem que ninguém precise morrer, embora alguns escritores tenham encontrado maneiras bastante criativas de matar seus personagens.
GD'Art
GD'Art
E talvez seja essa a verdadeira utopia borgiana: não criar um mundo sem referências, mas criar um mundo em que as referências tenham sido transformadas a tal ponto que já não pareçam referências. O escritor não precisa produzir algo a partir do nada. Precisa pegar aquilo que todos conhecem e devolver ao leitor como se ele estivesse vendo pela primeira vez. É aí que começa a literatura — não quando aparece uma coisa nunca vista, mas quando uma coisa antiga recupera o poder de nos espantar.
GD'Art














