Jaguar sabia das coisas. Então, não comungou, enfaticamente, da celebração ao sancionamento, em 28 de agosto de 1979, da Lei da A...

O Pasquim, seu tempo e seu peso

pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Jaguar sabia das coisas. Então, não comungou, enfaticamente, da celebração ao sancionamento, em 28 de agosto de 1979, da Lei da Anistia por João Baptista Figueiredo, o último general (rezemos) a envergar a faixa de Presidente do Brasil sem um único voto popular,
pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Jaguar (1932–2025), cartunista, chargista e jornalista carioca. Cofundador de O Pasquim, em 1969. ▪ Wikimedia
nem o da mulher com quem dividia a mesa e a cama.

Assim, enquanto os colegas da Redação festejavam o fim da censura prévia ao jornalismo e às artes nacionais, a libertação dos presos políticos e o retorno dos asilados, o iluminado Jaguar, homem de humor ácido, ferino, entrou n’O Pasquim com o lamento: “Estamos ferrados”. A bem da verdade, “ferrados” é termo aqui suavizado porquanto a verdadeira expressão de seu temor conteve adjetivo impublicável, ao menos, neste seleto Ambiente de Leitura.

Afinal, o que temia, na ocasião, esta que foi uma das mais singulares e importantes figuras da história do jornalismo e do cartunismo brasileiros? Pois bem, receava, sem mais nem menos, a perda da própria razão de ser. Consolidada a abertura política, O Pasquim, criado em 1969, perdia o que até então lhe era muito caro e exclusivo: a bandeira da resistência, as pautas libertárias, o humor escrachado, o monopólio da audácia.

pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Capas de edições de O Pasquim, semanário que marcou o jornalismo brasileiro com humor irreverente, sátiras políticas, linguagem informal e ousadia gráfica. Suas páginas desafiaram a censura durante a ditadura militar e ajudaram a renovar a imprensa nacional. ▪ Fonte: MLivre
Profético foi o nosso Jaguar, pois nos anos seguintes as vendas do semanário aguardado por leitores de todas as Regiões do País encolheriam até a parada definitiva das rotativas em parques gráficos diversos do Rio de Janeiro dos quais se servia em sistema de rodízio para driblar a perseguição aos impressores. O último exemplar foi rodado com a data de novembro de 1991.

pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Sig, o rato criado pelo cartunista Jaguar, tornou-se mascote e símbolo de O Pasquim. Com seu sorriso debochado e olhar malicioso, o personagem traduzia o espírito irreverente e provocador do semanário,
Ziraldo e o próprio Jaguar bem que ainda tentaram reacender a velha chama entre 2002 e 2004, contudo, em vão. Sigismundo, o rato debochado de traço rápido, símbolo visual e uma espécie de “alter ego” d’O Pasquim, já não mais encarnava o velho espírito do jornal.

Perguntei, recentemente, se um jovem concluinte do Curso de Jornalismo da UFPB sabia de um semanário que teve, certo dia, quase toda Redação encarcerada a um só tempo pela ditadura. Ele não sabia. Desgraçadamente, seus professores parecem desconhecer a existência d’O Pasquim e sua importância para a revolução do design, da linguagem e da postura editorial do nosso jornalismo. Parecem ignorar o fato de que, em plena vigência do AI-5, o mais draconiano Ato Institucional do regime militar, uma publicação corajosa desafiava a censura com uso da ironia e do deboche, com gírias e interjeições, com a dinâmica das conversas de botequim.

Sim, houve o momento em que o grupo liderado por Jaguar, Ziraldo e Sérgio Cabral (o jornalista, o escritor, o cronista da Música Popular Brasileira, não o filho que desonra tão bela memória),
pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Ziraldo (1932–2024), cartunista, escritor, ilustrador e jornalista mineiro, natural de Caratinga. Cofundador de O Pasquim e criador da Turma do Pererê e do Menino Maluquinho, protagonista do livro infantil lançado em 1980. ▪ Div.
habitou a mesma cela entre novembro de 1970 e janeiro de 1971. É preciso dizer que Millôr Fernandes, então em viagem, e Henfil, que conseguiu se esconder, escaparam da cadeia. Mas, ao todo, a brutalidade e a infâmia trancafiaram, além do trio já citado, Tarso de Castro, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Flávio Rangel, Fortuna e Haroldo Zager, gerente financeiro e administrativo do jornal.

O motivo da cana coletiva: a paródia em páginas internas da tela “Independência, ou Morte”, do paraibano Pedro Américo. Nela, o grito famoso de Pedro I fora substituído pelo refrão de Jorge Ben Jor: “Eu quero mocotó” – gíria, também, para as moças de pernas bonitas. O arranjo primoroso do maestro Erlon Chaves fizera deste samba-rock defendido no V Festival Internacional da Canção num Maracanãzinho superlotado um fenômeno da Música Popular Brasileira.

pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Registro da apresentação de Eu Também Quero Mocotó, com Erlon Chaves e a Banda Veneno, no V Festival Internacional da Canção, em 1970, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro. ▪ YT + Wikimedia
Dois meses sem trabalho nem salário para o sustento de esposas e filhos? Isso mesmo, mas nada faltou a cada uma daquelas famílias nem ao público acostumado a suas leituras semanais.

A razão esteve na solidariedade de gente como Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Martha Alencar, Glauber Rocha, Odete Lara (ajudando na articulação de contatos com a intelectualidade carioca), Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Eles cederam textos para preencher o espaço deixado pelos titulares presos, enquanto os setores da Contabilidade e da Circulação garantiam o dinheirinho e a sobrevivência dos lares afetados pelo arbítrio. Como as Universidades não contam isso?

Quem tiver o interesse pode ouvir de Sérgio Cabral (via YouTube) como a popularidade d’O Pasquim permeava os quartéis. Na Vila Militar do Rio de Janeiro, onde o grupo esteve trancafiado, carcereiros então pediam autógrafos para filhos e filhas. Jaguar e Ziraldo atendiam, ali, a pedidos de desenhos do Rato Sigismundo e do Menino Maluquinho em folhas a eles entregues por oficiais.

Não duvido de que ainda esteja à disposição de todos nós o depoimento no qual o velho Sérgio costumava narrar o fato surreal ocorrido num sábado dentro das grades do Batalhão de Manutenção
pasquim jornalismo ditadura censura resistencia humor
Sérgio Cabral (1937–2024), jornalista, escritor e pesquisador carioca, cofundador de O Pasquim. Destacou-se pela atuação na imprensa e pelos estudos sobre a música popular brasileira, especialmente o samba. ▪ Wikimedia
de Armamento do Exército. Ali, depois de abrir a cela para ele e Ziraldo, o oficial do dia iniciou o bate-papo regado a cerveja.

A conversa, de tão branda e descontraída, progrediu a ponto da busca de um violão de pronto repassado a um Sérgio também já aclamado como crítico musical, cronista da MPB, coautor de “Os meninos da Mangueira”, do hino “Vasco, a tua glória é lutar” e, ainda, parceiro de Rildo da Hora, o gaitista, em músicas diversas.

“Não sei tocar violão”, confessou Sérgio para espanto do carcereiro. Junto deles, portando uma metralhadora, o sentinela disse que sabia. Resultado, o guarda ficou com o instrumento e, o preso, com a arma, até um capitão perceber o nível da esculhambação e encerrar a farra com uma bronca generalizada. Como entender que fatos como este estejam fora da história do jornalismo brasileiro não contada, ou mal-contada, no ambiente universitário?
Ao vascaíno Fernando Catão, que sugeriu o tema.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas