Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorânci...

Por que o amor constrange?

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Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorância termina. Foi assim que conheci, de verdade, o professor Hermógenes, embora eu já o conhecesse havia muitos anos, desde a adolescência, através dos seus livros. Naquela época, eu ainda não sabia que certas pessoas entram primeiro na nossa biblioteca para, muitos anos depois, entrarem também na nossa vida.

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Maria Cristina Abreu, ex-presidente da Associação de Yoga da Paraíba (AYPB), professora e pioneira do Yoga na Paraiba ▪️ Instagram: @espacoserinfinito
A convite de minha querida e saudosa amiga Cristina Abreu, então presidente da Associação Paraibana de Yoga, eu costumava participar dos encontros por ela promovidos para falar sobre ética. Foi em um deles que nasceu, de certo modo, meu livro "Ética, Instrumento de Paz e Justiça". Eu era jovem, entusiasmado e, como todo jovem que fala em público sobre ética, provavelmente acreditava que tinha alguma coisa importante a dizer. Talvez nem tivesse. O problema é que eu não sabia quem estava me ouvindo.

O professor Hermógenes estava no auditório. E eu não o vi. Ele era um homem de estatura média para baixa, discreto, provavelmente sentado em algum lugar mais ao fundo. Na minha santa ignorância, fiz a palestra inteira sem perceber que, entre aquelas pessoas, estava um dos homens que eu mais admirava. Um mestre da escrita, do pensamento, do humanismo e, sobretudo, do amor. Se eu soubesse que Hermógenes estava ali, talvez tivesse preparado melhor a palestra. Ou talvez nem tivesse conseguido pronunciá-la. Porque existe uma diferença brutal entre falar para uma plateia e falar diante de alguém que ajudou a formar aquilo que você pensa.

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Emerson Barros de Aguiar ▪️ Fonte: Linkedin /// GD'Art
Terminei a palestra e ainda estava naquele estado fisiológico característico dos que acabam de falar em público: metade alívio, metade desidratação. Foi então que vi o professor Hermógenes se levantar e caminhar em minha direção.

Naquele instante, descobri duas coisas. A primeira: que ele estava ali. A segunda: que eu estava completamente despreparado para estar diante dele.

Fiquei perplexo. Paralisado. O homem que eu conhecia dos livros vinha na minha direção, enquanto eu segurava um microfone como quem segura uma prova de crime.

Ele chegou, abraçou-me com uma delicadeza que nunca esqueci, tirou gentilmente o microfone da minha mão e começou a fazer comentários sobre a palestra. Eram palavras tão generosas, tão doces, tão afetuosas, tão acima daquilo que eu merecia, que fiquei com aquela expressão idiota que o ser humano assume quando recebe um elogio de alguém que realmente admira.

Não era apenas o elogio de um homem importante. Era o elogio de Hermógenes. Eu tinha lido todos os seus livros
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desde adolescente. Aquele homem fazia parte da minha formação intelectual e espiritual. E agora estava ali, diante de mim, abraçando-me e falando bem do que eu acabara de dizer.

Ainda hoje me lembro do constrangimento feliz daquele momento. Foi então que tive uma ideia. Aproveitando a proximidade, tomei coragem e lhe disse:

— Professor, se o senhor me permitir, gostaria de lhe apresentar um livro meu que pretendo publicar. Vou pedir à Cristina a gravação da palestra e, se o senhor autorizar, eu poderia transcrever o que o senhor disse e usar como prefácio, ou pelo menos como comentário na orelha?

Hermógenes me olhou e respondeu, com a firmeza tranquila de quem já havia decidido:

— De modo algum. Não, não, não. Você não vai transcrever nada. Eu faço questão de ler seu livro e de escrever um comentário sobre ele.

Pegou o texto original que eu havia levado, abriu-o como quem recebe uma responsabilidade e completou:

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— Eu vou ler e lhe dou um retorno.

Eu pensei que fosse apenas uma gentileza. Uma dessas frases que pessoas generosas dizem para não constranger um jovem admirador. Afinal, Hermógenes era um homem ocupado, procurado, cercado de gente, livros, compromissos e solicitações. A vida tem dessas pequenas promessas educadas que morrem imediatamente depois de pronunciadas.

Só que ele leu. E não apenas leu. Escreveu.

Algum tempo depois, recebi do professor Hermógenes um comentário por escrito sobre o meu livro. Ele fez um texto lindo que incluí na orelha. Aquele homem que eu admirava desde a adolescência, aquele escritor que eu havia lido durante tantos anos, aquele mestre que tinha acabado de ouvir uma palestra minha sem que eu sequer desconfiasse de sua presença, havia encontrado tempo para ler o meu trabalho e escrever sobre ele.

Eu era muito jovem. Isso aconteceu há um quarto de século. O livro ainda tinha o cheiro das primeiras tentativas, aquela mistura de convicção e ingenuidade que costuma acompanhar quem está começando.

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Guardei o comentário como quem guarda uma carta que a vida escreveu para nós sem que tivéssemos pedido.

Tenho uma fotografia daquele dia. Deve estar perdida entre papéis, livros, fotografias e os escombros organizados da memória. Nela, talvez esteja registrado o abraço. Talvez o microfone. Talvez apenas dois homens conversando. Mas a fotografia não registra o principal. Não registra o espanto de um jovem diante de um mestre.

Não registra a generosidade de alguém que poderia simplesmente ter elogiado uma palestra e ido embora. E, sobretudo, não registra a delicadeza de um homem que, depois de ouvir um jovem falar, poderia ter esquecido seu nome antes de chegar à porta, mas preferiu levar para casa o livro dele, lê-lo e escrever-lhe algumas palavras gentis.

É por isso que, quando penso no professor Hermógenes, não me lembro apenas de seus livros. Lembro-me daquele homem que eu não vi durante a minha palestra, mas que estava lá. Talvez seja essa a melhor metáfora para certos professores: eles estão presentes antes que a gente perceba. A gente fala, pensa, tropeça, tenta acertar, faz sua pequena parte do barulho do mundo. E, de repente, o mestre se levanta lá do fundo, vem até nós, abraça-nos e nos lembra, sem precisar dizer, que aquilo que fazemos pode alcançar alguém.

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Muitos anos depois, continuo convencido de que alguns dos melhores elogios que recebemos na vida não servem para alimentar a vaidade. Servem para nos dar coragem. O que aconteceu naquele dia é uma dessas raríssimas coisas que a vida entrega sem obrigação, sem interesse e sem cálculo: a demonstração de afeto de um homem que eu admirava profundamente.

A gentileza do professor Hermógenes me fez lembrar de Paulo, em 2ª Coríntios 5,14: “O amor de Cristo nos constrange”. Não o constrangimento que humilha, mas aquele que nos desarma diante da generosidade do outro e nos chama, silenciosamente, a ser dignos daquilo que recebemos.

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