Admite-se que, em 1810, residia na Parahyba o pai do padre Francisco João de Azevedo, de origem portuguesa, natural da ilha de Miguel. Era piloto, mecânico, agrimensor e especialista em assuntos de artilharia. Foi um dos proprietários da ilha de Stuart, localizada no estuário do rio Paraíba do Norte, pertencente ao município de Santa Rita, PB, onde construiu e explorou salinas e viveiros. Não há informação de que se casara na capital do nosso Estado nem de quantos filhos tivera.
Padre Azevedo (Paraíba, 1814-1880), sacerdote católico e inventor brasileiro pioneiro no desenvolvimento da máquina de escrever, uma das figuras mais marcantes da história das invenções obscurecidas no Brasil ▪️ Fonte: Wikipedia
Como teve o mesmo nome do pai, houve certa confusão em relação ao passado do padre Azevedo. Por exemplo, vários acontecimentos foram atribuídos a ele e que, na verdade, eram relacionados com seu progenitor homônimo.
Conta-se que seu pai aderiu ao movimento de 1817; entrincheirou a Rua Nova, onde se aquartelavam as forças revolucionárias, e colocou uma unidade de artilharia no alto do Cabo Branco. Devido a esses fatos, foi preso e enviado para Recife no porão de uma sumaca, pequena embarcação de dois mastros, muito utilizada no século XIX na América do Sul e na costa atlântica para transporte de cargas e pesca. Posteriormente, foi transferido com outros prisioneiros para um dos cárceres da Bahia. Após o perdão governamental do ano de 1821, regressou à Paraíba e, em 1823, foi encarregado de montar uma tipografia na Capital.
O padre Azevedo nasceu na Parahyba no ano de 1814. Nesta cidade, viu pela primeira vez a tipografia onde seu pai trabalhava, o que deve ter lhe despertado a ideia criadora da máquina de escrever. Na nossa Capital, efetuou os primeiros estudos, ingressando no Seminário de Olinda, PE, em 1835.
Seminário de Olinda (1800) ▪️ Instagram: @oficial_olindadeantigamente
Foi ordenado presbítero em 1814 e, no dia 18 de dezembro do mesmo ano, já celebrava sua primeira missa. Logo após sua ordenação, voltou a residir na Capital, tendo regressado a viver em Recife em 1841, à Rua Larga do Rosário, com receio de ser implicado juntamente com outros paraibanos famosos, como sucedeu a Felizardo Toscano de Britto e outros paraibanos, por questões político-partidárias que implicaram o atentado contra a vida do presidente (hoje governador) da
2 Coriolano de Medeiros. O Padre Azevedo. In: “Padre Azevedo – Sua vida, sua obra, seus inventos”, Eduardo Martins, Governo do Estado da Paraíba, 1983, p.239-44.
Parahyba do Norte, Pedro Chaves2.
Vinte anos depois, em 1861, surgiu na cidade de Recife uma invenção pioneira, a máquina de escrever. O responsável por essa ideia revolucionária foi o padre João Francisco de Azevedo. Ele teve a brilhante ideia de adaptar um piano de 24 teclas para imprimir letras em papel, inaugurando um dispositivo mecanizado para a escrita. Batizada de máquina taquigráfica, o equipamento criado pelo religioso tinha 16 teclas, que, combinadas, davam origem aos demais sinais gráficos. Um pedal servia para mudar de linha.
No seu romance, Miguel Sanches Neto cita:
[...] Francisco João de Azevedo (1814-1880) apresentou ao imperador em 1861 a máquina taquigráfica — que registrava textos de forma abreviada, por meio de códigos. Há relatos de que ele aperfeiçoou essa invenção, criando a máquina de escrever alguns anos antes de a americana Remington, fabricante de armas, lançar o mesmo equipamento, em 1874 [...]3
3Miguel Sanches Neto. A máquina de Madeira. Amazon.com.
1ª Exposição brasileira em 1861
Máquina tipográfica ▪️ Fonte: Armazém Literário
[...] Em novembro de 1861, um padre paraibano viajou do Recife ao Rio de Janeiro para exibir na Exposição Nacional a sua invenção: uma máquina que permitia, pela primeira vez, a escrita mecânica. O aparelho foi premiado: recebeu uma medalha de ouro com a efígie de Dom Pedro II. Ainda assim, não estava entre os objetos selecionados para representar o Brasil na Exposição Universal, em Londres. No barco, que zarpou em fevereiro do ano seguinte rumo à Europa, iam machados, enxadas e mais de 300 amostras de madeira. A comissão alegou falta de espaço para a máquina [...].4
4Armazém Literário. O brasileiro que criou a máquina de escrever. Amarílis Lage, Edição 725, 18/12/2012.
Antes da viagem ao Rio de Janeiro, Padre Azevedo já tinha pronta a sua machina dipsy-grapha, cujas peças de ferro foram forjadas no Arsenal de Guerra, no qual deu testemunho o major Pedro Dias de Campos. Foi esta máquina que participou da Exposição Nacional em 1861 e o júri respectivo, em 14 de março de 1862, reputado como invento superior e, por esta razão, recebeu a medalha de ouro pelo inusitado invento.
Padre azevedo ▪️ GD'Art
O padre Azevedo foi nomeado, no ano seguinte, professor interino de geometria mecânica e desenho linear do Arsenal de Guerra de Pernambuco. Em 1865, foi escolhido, também interinamente, professor de matemática e desenho no Gymnasio Pernambucano. Durante a Exposição Provincial de Pernambuco, em 26 de junho deste mesmo ano, seu invento recebeu uma medalha de prata e, em 6 de maio de 1868, foi nomeado professor substituto das cadeiras de aritmética e geometria do curso anexo à Faculdade de Direito do Recife. Em 16 de setembro de 1871, foi eleito sócio honorário pelo Instituto Histórico e Filosófico de Pernambuco e, em 31 de janeiro de 1872, recebeu a nomeação de professor de desenho da Sociedade de Artistas, Mecânicos e Liberais de Pernambuco, além do título de sócio honorário em 19 de junho deste mesmo ano. E, o mais importante, em 1879, foram-lhe restituídas todas as ordens de que fora suspenso ex-formata consciencia, pelo bispo Dom Vital, por não ter querido abjurar à maçonaria.
Voltou à Paraíba e faleceu em João Pessoa em 26 de junho de 1880, aos 66 anos de idade, devido a um terceiro ataque congestivo, e foi sepultado no Cemitério Boa Sentença.
Padre azevedo ▪️ GD'Art
Segundo Coriolano de Medeiros,5
5Coriolano de Medeiros. O Padre Azevedo. In: “Padre Azevedo – Sua vida, sua obra, seus inventos”, Eduardo Martins, Governo do Estado da Paraíba, 1983, p.239-44.
deixou apenas dois artigos publicados. O primeiro, publicado no Jornal do Recife, em 27 de julho de 1880, e o segundo, no periódico A Parahyba, em 31 de julho desse mesmo ano.
Sobre a origem do invento da máquina de escrever ser de autoria do padre Azevedo, existem muitas lendas. Uma delas, muito conhecida, é que surgiu um americano que o convidou para irem juntos aos Estados Unidos da América do Norte (EEUU). O americano pagaria todas as despesas de viagem e estadia. O novo invento seria amplamente exposto e, caso fosse julgado de utilidade pública, o gringo que havia enriquecido no Brasil entraria com o capital necessário para a construção do novo invento, desta vez de metal.
O padre Azevedo não aceitou viajar aos EEUU, porém entregou seu invento construído de madeira ao americano, explicando em detalhes seu funcionamento. Em 1877, o padre Azevedo tomou conhecimento da importação das primeiras máquinas de escrever para Portugal,
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nove anos depois de haver confiado seu segredo ao ladino estrangeiro. Tempo depois, recebeu dos States uma encomenda. Era um caixote com sua máquina de madeira. Apenas faltavam-lhe algumas das mais delicadas peças. Segundo matéria republicada das colunas de honra do periódico O Jornal A Plateia, do Estado de São Paulo,6
6Jornal Correio do Interior, Guarabira, PB, 13 de julho de 1912. Transcrito do Jornal A Plateia, São Paulo. In: “Padre Azevedo – Sua vida, sua obra, seus inventos”, Governo do Estado da Paraíba, 1983, p. 199-201
o desgosto invadiu de todo o espírito do inventor brasileiro, que entrou a definhar até morrer ignorado, pobre e... roubado na sua glória. Enquanto isso, os Hammond vendiam máquinas de escrever para todo o mundo.
Nessa mesma reportagem, o periódico descreve em detalhes como funcionava a máquina de escrever projetada e construída pelo padre Azevedo, assim resumidos:
[...] O aparelho apresenta um pequeno volume e é de um mecanismo muito simples. Seu sistema geral é quase idêntico ao dos pianos, por meio de um teclado convenientemente adaptado, é possível transmitir ao papel os caracteres correspondentes, formando palavras, linhas, parágrafos, enfim, a escrita regular de uma ou mais páginas. O teclado está disposto em quatro pequenas carreiras, tendo cada tecla a indicação de uma letra. A letra correspondente vai imprimir-se no papel que se envolve e desliza por um rolo na
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parte de cima da máquina. Para a separação das palavras basta tocar em uma pequena régua colocada no fundo do teclado. A máquina também opera em uma série de linhas escritas com a necessária regularidade, bastando para mudança de uma linha à outra pressionar uma espécie de pedal idêntico ao das máquinas de costura e os caracteres da escrita são idênticos aos tipográficos. O papel a empregar pode ser qualquer, desde o mais fino até o mais encorpado, não sendo necessária outra operação para a impressão, apenas adaptá-lo ao rolo, que corre à medida que a palavra vai sendo escrita. O inventor ainda recomendava para seu invento: produz uma escrita legível, uniforme e agradável; podendo-se escrever sem obrigar o corpo a tomar uma posição invariável e incômoda; pode fazer o trabalho de duas pessoas pelo processo comum e não há penas estragadas nem falta de tinta alterada pela evaporação, além de ser possível escrever em um navio, em um trem sem problemas de oscilação.7
7Jornal Correio do Interior, Guarabira, PB, 13 de julho de 1912. Transcrito do Jornal A Plateia, São Paulo. In: “Padre Azevedo – Sua vida, sua obra, seus inventos”, Governo do Estado da Paraíba, 1983, p. 199-201.
Entretanto, existem vários documentos que comprovam que o padre Azevedo não foi o inventor da máquina de escrever. Eduardo Martins 8 cita no seu livro vários casos de inventos documentados antes da criação da
Máquina de escrever de Charles Thurder, patenteada em 1843 ▪️ Smithsonian Museum of American History
máquina de escrever do padre Azevedo. Cito apenas três deles.
8 Eduardo Martins. A origem da machina de escrever. In: “Padre Azevedo – Sua vida, sua obra, seus inventos”, Governo do Estado da Paraíba, 1983, p. 251-257.
No museu do Smithsonian Institution figura uma máquina de Charles Thurder, semelhante a uma máquina de escrever, como sendo a primeira invenção no mundo, cuja patente de invenção tem o nº 3.228, de 26 de agosto de 1843.
Cinco anos depois, o norte-americano J. B. Fairbanks requereu a patente para o invento que denominou Phonette Writer. Sua patente foi obtida sob o nº 7.625, em 17 de setembro de 1850, onze anos antes de o padre Azevedo apresentar sua máquina. Seu invento é, na ordem cronológica, a terceira máquina que figura no museu do Smithsonian Institution e a primeira em que o papel que alimenta a máquina é colocado em rolo.
Seis anos depois, surge outro inventor americano, A. E. Beach, com a verdadeira máquina de escrever, cuja patente, com o nº 15.164, foi concedida em 24 de junho de 1856. Esta invenção, a Writing Machine, é considerada superior às
Máquina de escrever de Alfred Ely Beach, patenteada em 1856 ▪️ Smithsonian Museum of American History
precedentes e considerada o primeiro passo radical na evolução da typewriter. Possui um pino para operação com o dedo e, pela primeira vez, aparece a fita tinta, usada até sua extinção. E o papel era o mesmo que usávamos.
Porém, não podemos esquecer a importância do padre Azevedo, o ilustre paraibano que foi um dos precursores, em nível mundial, da invenção e construção do protótipo da máquina de escrever, desde o final do século XX substituída pelos modernos computadores.
Em tempo, durante a minha formatura, em 1967, pedi um presente a cada um dos meus avós. A meu avô materno, Francisco Ribeiro Mendonça, minha solicitação foi uma máquina de calcular sueca, marca Contex-10, pouco conhecida na época, com a qual poderíamos efetuar as quatro operações fundamentais. Meu avô materno, Romualdo de Medeiros Rolim, me presenteou com uma máquina de escrever Facit, que ainda hoje funciona perfeitamente.