Semiescondida nas profundezas dos penhascos de arenito rosa-vermelho da Jordânia, esculpida diretamente nas rochas do deserto, Petra a...

Petra: o esplendor da Cidade Rosa (Parte 2)

Semiescondida nas profundezas dos penhascos de arenito rosa-vermelho da Jordânia, esculpida diretamente nas rochas do deserto, Petra atingiu o seu apogeu entre os séculos I a.C. e I d.C.

Paisagens de Petra, com túmulos e fachadas monumentais escavados diretamente nos paredões de arenito pelos nabateus, testemunhos da antiga cidade que prosperou como importante centro comercial no deserto da Jordânia. ▪ Acervo A. Rodrigues
Famosa mundialmente pela sua estrutura monumental de 39,5 metros de altura, esculpida diretamente na rocha de arenito rosa no início do século I d.C., servindo originalmente como mausoléu e cripta real do rei nabateu Aretas IV Philopatris1,
1 Philopatris: em aramaico nabateu Harirat Rahim ‘ammeh, ou “Aretas, o que ama o seu povo".
o Al-Khaznah (“O Tesouro”) contém no seu interior câmaras ou nichos (loculi) e salas que, embora menos glamourosas que o exterior, oferecem uma rica visão do uso e da função desses espaços no passado. A popularidade de Petra e do Al-Khaznah no imaginário ocidental deve-se, em parte, ao filme “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989), que criou expectativas fantasiosas sobre os seus interiores.

Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) ▪ YT Marv
Nas fachadas talhadas nos penhascos (segundo a crença popular dos beduínos, no pequeno tholos, estrutura circular com cúpula, localizada na fachada), esconder-se-ia um tesouro da época faraónica, e ainda hoje podem ser vistos impactos de disparos de armas, provavelmente de otomanos ou beduínos, que talvez tivessem a intenção de descobrir se essa suposição era verdadeira.
2 Qasr al-Bint: de Qasr al-Bint Far’un, que significa “O Castelo da Filha do Faraó”, o ponto mais inferior de Petra, demorando cerca de uma hora a subir;

3 Túmulo de Urna: situado numa posição elevada no flanco da montanha, exigindo a subida por um longo lanço de escadarias de pedra que oferece vistas panorâmicas sobre o vale de Petra, e assim chamado devido à enorme urna que encima o topo da fachada e onde se supõe que tenha sido o local de sepultamento do rei nabateu Malchus II ou de Aretas IV.
O Mosteiro (ad-Dayr), com aproximadamente 850 degraus a partir de Qasr al-Bint2, e o Túmulo de Urna3 revelam uma mistura de estilos arquitetónicos helenísticos, orientais e romanos. Contudo, ao contrário do que a grandiosidade externa sugere, os interiores das estruturas são, na sua maioria, simples câmaras escavadas na rocha.

Túmulo de Urna, um dos chamados Túmulos Reais de Petra, escavado no maciço de Jabal al-Khubtha. A fachada nabateia ergue-se sobre uma estrutura de dois pavimentos com arcadas; no século V, o complexo foi convertido em igreja cristã. ▪ Acervo: A. Rodrigues
A estrutura mais famosa, o Al-Khaznah, foi originalmente um mausoléu real. O seu interior é composto por três câmaras escavadas diretamente na rocha arenítica, sem colunas nem ornamentação elaborada. A câmara principal possui cerca de 12 metros de profundidade por 10 de largura, com duas câmaras menores ao lado. Essa simplicidade não se deve à falta de habilidade, mas à função prática dos espaços.

Os interiores de Petra eram usados como túmulos, nichos votivos ou locais de rituais. Muitos deles foram saqueados na Antiguidade, o que também contribui para o aspeto esvaziado que vemos hoje.
Al-Khaznah (O Tesouro), mausoléu esculpido no início do século I d.C. A fachada combina elementos arquitetônicos helenísticos e orientais e contrasta com a simplicidade das câmaras escavadas em seu interior. ▪ Acervo: A. Rodrigues
Apesar da simplicidade das câmaras, o seu simbolismo é profundo. Talhadas na rocha viva, essas estruturas representavam permanência e continuidade. Os túmulos escavados nas encostas evocavam a eternidade, uma vida após a morte sólida como a pedra. Além disso, a monumentalidade externa dos túmulos e templos servia como demonstração de poder político e religioso dos nabateus perante os seus vizinhos e do mundo romano.

A fachada de ad-Dayr é uma das imagens mais figurativas do chamado romantismo novecentista, parecendo ter sido delineado nas inspiradas penas de Gustave Flaubert, Lord Byron e Rudyard Kipling, ou esboçado nos pincéis de Eugène Delacroix, Jean-Auguste Dominique Ingres e David Roberts (autor de uma bela e famosa pintura do ad-Dayr), entre tantos outros viajantes e artistas europeus. De um mirante vizinho alcança-se um panorama excelso sobre a cordilheira. Para noroeste, olha-se a silhueta do rio Jordão (Nahr al-Urdunn ou Nahr al-Shari’at, “o rio que sobe”); a oeste, vislumbra-se o Neguev/Negev (an-Naqab ou an-Naqb, que significa “a passagem da montanha”) e, a leste, contempla-se o mar de areias ardentes de Wadi Rum e do deserto da Arábia, de onde terão chegado os nabateus...

O Mosteiro (ad-Dayr), retratado por David Roberts em litografia de 1849. O monumento, alcançado por uma longa escadaria, é uma das grandes construções nabateias preservadas na antiga cidade. ▪ Biblioteca do Congresso, EUA
Em Petra, a arqueologia e a geologia coexistem em forma de arte. As rochas mudam de tonalidade ao longo do dia, oscilando entre o rosa, o dourado, o vermelho e o roxo conforme a inclinação do sol. Os padrões ondulados esculpidos pela erosão nas paredes de arenito assemelham-se a pinceladas abstratas feitas pela própria natureza. O contraste entre o silêncio do deserto e a imponência dos monumentos cria uma atmosfera de melancolia e contemplação intemporal.

YT Xplainer
O local é também conhecido pelas cores das rochas nas quais tumbas e casas foram esculpidas. Para melhor compreendermos os monumentos, é importante prestarmos atenção na geologia para entender a qualidade das rochas que os escultores tiveram à disposição. O arenito é uma rocha sedimentar fácil de ser trabalhada. Ao escavá-lo, os nabateus revestiam-no com um acabamento para nivelar, impermeabilizar e desacelerar o processo de erosão. Durante os séculos, tanto o estilo como as técnicas de entalhe e revestimento foram aprimoradas. Ainda que muitas estruturas se encontrem em bom estado, o tempo deixou a sua marca. Ao observar as partes desgastadas encontramos um arco-íris de cores. Vermelho, laranja, amarelo, marrom, bege, preto, azul-escuro, verde, rosa, roxo e cinza. Uma profusão de cores que atestam a presença de diversos minerais no poroso arenito. Os tipos de arenito presentes no local estão por trás da escala monumental, dos ricos detalhes arquitetónicos e do ótimo estado de preservação que a cidade reteve.

As surpreendentes faixas de cores do arenito de Petra, produzidas pela presença de diferentes minerais na rocha. Tons de vermelho, rosa, amarelo, branco e violeta formam desenhos naturais nas paredes e câmaras escavadas pelos nabateus. ▪
Outro nome famoso que imortalizou a beleza de Petra foi Edward Lear, pintor paisagista e escritor inglês. A 14 de abril de 1858, Lear produziu vários desenhos e aguarelas das ruínas, dos desfiladeiros de arenito e dos monumentos, comparando as colunas caídas aos templos sicilianos de Selinunte, antiga cidade grega na costa sudoeste da Sicília.
Edward Lear (1812–1888), ilustrador, escritor e poeta inglês, conhecido por suas paisagens e pela literatura de humor e nonsense. Viajante incansável, visitou Petra em 1858, registrando em desenhos, aquarelas e escritos as ruínas e os desfiladeiros da antiga cidade nabateia. ▪ Wikimedia
A sua jornada até Petra resultou em alguns dos registos visuais e escritos mais fascinantes da região durante o século XIX. Com base nos esboços rápidos e detalhados feitos no local, Lear pintaria uma grande tela a óleo intitulada Petra (1859), no estilo Romântico, que exibe os tons terrosos e a grandiosidade do vale. A sua experiência não foi inteiramente pacífica. Nos seus diários detalhados, publicados em compilações como Edward Lear’s Journals, o artista descreveu não só o deslumbramento visual, mas também o medo, o alívio e o cansaço devido às constantes investidas e exigências de dinheiro e ameaças por parte dos beduínos que controlavam a entrada da cidade antiga. Pouco tempo depois de entrar em Petra, a sua equipa (de que fazia parte o seu fiel servente, Giorgio Cocali, e um guia local, ou dragoman, copta) foi forçada a retirar-se devido à escalada de hostilidades locais. Lear chegou a pensar que as suas últimas horas pudessem ter chegado e terá escrito o seu nome na parede de dentro do Al-Khaznah, para indicar às equipas de busca posteriores que tinha sido ali o local onde tinha falecido.

Petra, de Edward Lear (1859). Pintada a partir dos esboços realizados pelo artista durante sua viagem à Jordânia em 1858, a obra retrata as fachadas escavadas no arenito, envolvidas pela paisagem montanhosa.
Em agosto de 2023, uma equipa de arqueólogos liderada por Pearce Paul Creasman, arqueólogo americano nas áreas de egiptologia, arqueologia marítima e dendrocronologia, recorreu a um radar que usa impulsos eletromagnéticos para detetar objetos abaixo do solo, descobrindo um novo túmulo secreto em Al-Khaznah. No interior estavam 12 esqueletos humanos, objetos de bronze, ferro e cerâmica e um cálice semelhante ao Santo Graal, com cerca de dois mil anos. O instrumento revelou ainda a existência de duas novas câmaras subterrâneas no local.

Escavações realizadas sob o Al-Khaznah revelaram uma câmara funerária com restos de 12 indivíduos e objetos de cerâmica, bronze e ferro. Entre os achados estava um pequeno recipiente cerâmico que chamou atenção pela semelhança casual com o Santo Graal de Indiana Jones e a Última Cruzada — na realidade, segundo o arqueólogo Pearce Paul Creasman, trata-se de um recipiente comum da época. ▪ Imagens: The Unknown Expedition
Petra é, sem dúvida, a materialização de um sonho antigo, envolta em pura magia e esculpida com a delicadeza de uma poesia viva. Não só é um postal icónico do atual Reino da Jordânia, como um verdadeiro espetáculo histórico e natural: uma viagem no tempo, esculpida à mão e guardada no coração do deserto.

Petra, Jordânia ▪ YT The Piano Guys
Os “modernos” beduínos (badawin) de Petra pertencem à linhagem B’doul, os habitantes tradicionais da região da antiga cidade, os quais, ainda hoje, orgulhosamente mantêm uma ligação cultural, histórica e económica profunda com o sítio arqueológico. Apesar do realojamento atribuído em 1985 pelo governo jordano aos beduínos, numa aldeia construída propositadamente nas proximidades, chamada ‘Umm Sayhoun (“Mãe do Clamor”, “Mãe do Eco” ou “Mãe do Grito”, associada a sons altos ou clamores fortes), dezenas de famílias ainda se recusam a abandonar completamente as cavernas e continuam a residir no interior do parque arqueológico para preservar o seu estilo de vida ancestral.

Beduínos B’doul em Petra, comunidade tradicionalmente ligada à antiga cidade e hoje presente em diversas atividades relacionadas ao turismo. Passeios com animais, comércio, artesanato e serviços de guia fazem parte do cotidiano local, no qual também participam crianças e jovens. ▪ Acervo: A. Rodrigues
A sua ocupação varia entre oferecer passeios a cavalo, de camelo e de burro para ajudar os visitantes a subir os trilhos íngremes (como o caminho para o Mosteiro), gestão de pequenas lojas de recordações, bancas de artesanato e tendas onde servem chá com menta (shai bil na’ana’a) ou o típico café beduíno qahwah sadah (café puro) aos viajantes. Outros ainda trabalham como guias locais, partilhando rotas secretas, miradouros alternativos (como a vista panorâmica acima do Al-Khaznah) e histórias de tradição oral sobre a sua cultura. Muitos jovens adotam um hilariante estilo visual inspirado na personagem de Jack Sparrow (da saga “Piratas das Caraíbas”), utilizando maquilhagem preta nos olhos (kohl), como proteção solar, cabelos longos e os tradicionais lenços keffiyeh. A vida das crianças beduínas de Petra está também profundamente ligada ao turismo regional, ajudando as suas famílias no parque arqueológico, equilibrando a escolaridade com o turismo diário,
dividindo-se entre a preservação das suas tradições nómadas e os desafios socioeconómicos modernos.

“Menina beduína de Petra que me surge no crepúsculo, de olhos postos nas constelações. Filha do deserto e da liberdade. Peregrina em eterna viagem, sem ninho nem paragens. Arquitetura de luz. Colírio de graça. Pensamento livre, alcançando o firmamento. Doce diáfano na aragem da tarde quente. Paz, pluma leve, ritmo, som, sorriso que tremeluz, como guiso, pendurado na ponta da lua em quarto crescente. Momento que o tempo não apaga. Faz do sonho algo lindo, menina beduína...”
A. Rodrigues in “Diário de Viagens por Um Certo Oriente”, 7 de outubro de 2017)

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