"Quando eu era moleca, uma vez meu pai chegou em casa com a cara assustada. Naquele tempo não tínhamos a imediatez de hoje. Nem...

Rose: Uma alegria que se dissolveu no ar

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"Quando eu era moleca, uma vez meu pai chegou em casa com a cara assustada. Naquele tempo não tínhamos a imediatez de hoje. Nem a sincronicidade dos fatos. Menos ainda imagens. Não tínhamos fotos. Qual o susto do meu pai? Soube que a sobrinha Rose, uma ruivinha da pesada e cheia de sardas, tinha desaparecido de casa e, pequenina que era, todos enlouqueceram. Qual a surpresa? A linda pimentinha estava escondida no telhado. Sem violino, para, quem sabe, ver o mundo de cima. Outra perspectiva. Horizontes
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perdidos. Que, com certeza, mulher feita, viu de perto, mundos e mundos. Correr é preciso. E Rose também corre. E toma vinho. E viaja. E se formou com os unguentos. E continua com os cabelos vermelhos. Uma graça atávica no temperamento. É sarcástica. Engraçada. Leve. Irônica. Tem savoir faire. E uma legião de amigos. E eu, sua prima, a quem chama de Aninha! E eu gosto!

Tudo isso a natureza lhe deu, talvez para poder aguentar os baques que a vida lhe preparara. Aliás, quero crer que não. A vida não é assim tão maquiavélica. As circunstâncias é que são feitas de uma infinita nuvem de mistérios e silêncios eloquentes e indecifráveis. E sustos. Quantos sustos. E espantos. Para a poesia e para as tragédias. Sim, somos suscetíveis às tais.”

Esses parágrafos acima foram de uma crônica que escrevi para minha querida prima Rose Almeida, quando da partida do seu querido filho, Manoel (“A menina que subia no telhado”, WSCOM, julho de 2018). Uma dor tão grande e insuportável que abalou toda a família.

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Pois eis-me agora aqui, em estado de silêncio e circunspecção, a tentar te homenagear, prima. Mas a minha escrita não acontece quando eu quero. Ela vem de uma faísca que nem sempre obedece aos meus comandos literários. Momento quando da sua partida; da tristeza e de tanta dor para toda a sua família e uma imensidão de amigos. Pois achava e ouvi isso: você é uma unanimidade, Rose. Faz parte da sociedade paraibana, de famílias enormes, incluindo a minha, amigos da igreja, católica praticante, das corridas, da profissão — o Hospital Samaritano —, da sua família. Enfim. Praia de Camboinha, viagens e boas risadas. No convite da sua Missa de 7º dia diz: “As pessoas que vão sorrindo pela vida afora entenderam tudo.” À sua cara, Rose! Pessoa de ironia fina, de bom humor e que até da própria doença tirou força. Diagnóstico duro. Tratamento longo e que tinha data marcada. E, de longe, querida, acompanhei o seu caminho de tantas dificuldades. Mas também acompanhava os seus pinotes pela vida: filhos, netas, veraneios, viagens, rezas e brindes nas horas de celebrar a vida. A alegria! Essa força da natureza. Esse motor que acontece com poucos. Os sábios. Soube que fez isso até o finzinho. Dando conta de tudo, se preocupando com todos.

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Só soube da sua piora nos finalmentes. E ter essa notícia quase junto com o fim derradeiro me desarmou por completo. Nesses momentos, não vem uma tristeza sozinha. Vêm as saudades da minha tia Fatinha querida, meu tio Augusto, meu primo Manoel, meu pai, meus tios, meu Juca e tantos, tantos amigos que já viraram estrela. Estou numa idade em que todos os dias perco alguém. Estou também triste por isso. O meu mundo afetivo se desmilinguindo. E as ausências já se sobrepõem às presenças.

A última vez que falei com você, no dia do seu aniversário, em junho, você me mandou beijos e obrigada. Em outra conversa, você me falava das bolsas que minha tia me trazia das suas inúmeras viagens e me falou das suas saudades das casas de Tia Lila, Tia Lilita e Tio Caio (In Memoriam). Também tenho essas saudades todas, Rose. E me contou uma história do meu pai, que ficou famoso pelas histórias que contava e pela sua fina ironia também. Você me dizia que meu pai Romero contava que, quando ia namorar no Oitão da Catedral, levava uma almofada para se sentar no muro, pois tinha a bunda magra. Dei risadas, me lembrando do meu pai sempre magrinho, elegante e sarcástico.
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Mas a maior ironia foi que, numa outra conversa, você comentava uma crônica minha, “Em busca do túmulo perdido”, e a gente a trocar figurinhas sobre cemitérios. Podia parecer macabro se não fosse lúdico. Isso, há um ano, parecia uma previsão; de um lugar todo seu, etéreo, nas suas cinzas que se dissolveriam no ar.

Nem lembrava que o seu nome é Rosana, Rose. Tomei um susto ao ler o anúncio. Você é Rose. Você é Rosa. Daquelas que o apelido é maior que o nome. E como rosa, símbolo de beleza e perfeição? Mas nem tanto. Você era humana, demasiada humana. E, como tal, devia ter suas falhas. Como todo mundo. Tínhamos diferenças. Mas sempre as espantamos para os seus devidos lugares. Nunca para debaixo do tapete, mas para um lugar longe do afeto e dos laços que nos uniam.

Segue na luz, Rose. Essa que você já nasceu esbanjando com ela. Mas agora, a luz do infinito. Do eternamente. Mando minhas lembranças para todos do outro lado de lá.

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