Um lagarto teiú corre pelo canto da estrada, arisco, e se atira do acostamento, adentrando a vegetação rasteira, e salta para seguir a vida, embrenhando-se na aridez caririzeira. Ágil, logo some, camuflado pela sua pele acinzentada em meio às plantas ressecadas e espinhentas pelas semanas do sumiço das chuvas.
A corrida do lagarto teiú, com seu jeito próprio, devido às patas curtas, balançando de um lado ao outro, em busca de proteção, é a fuga da estrada, do risco de ser mais um corpo animal esmagado pelas rodas no asfalto. Cobras, timbus, raposas, jumentos, raposas, cães e gatos pontilham os cantos, mortos pelo invento modernista dos homens.
O lagarto teiú é esperto. Ao homem de estatura mediana, peso médio, mentalidade média, quase desprezível pela falta de adjetivos, é uma faísca de pensamento. Ao volante, é testemunha da fuga animal, um rasgo de vista do réptil fugitivo, é a percepção da vida em ciclos.
A fração de tempo do encontro e a corrida do lagarto teiú falam palavras em meio à estiagem. A salvação está na terra, na sombra dos pequenos arbustos, na poça d'água ilhada de uma chuva de tempo que se encolhe a cada dia de reinado do sol, na sombra que se sove e silencia no recanto de uma pedra.
O tempo para o lagarto teiú é díspar. A cauda enorme e bela é um chicote mais ornamental. Um açoite protetor inútil para as armas da modernidade. Para o homem, o réptil é caça pega na pólvora. Apesar de a finitude rondar a cada instante qualquer existência, é espreitar a proximidade da oportunidade para um novo fim, o animal tenta a fuga.
O lagarto teiú corre para o mato seco. Deixa o vácuo e uma filosofia tosca. Tudo é uma cilada, uma armadilha, e o fim espreita, talvez no dia seguinte. Fim é algum tipo de liberdade também. Mas chega uma nova curva, e o réptil fica para trás, em fuga por entre a terra e o mato. E a vida segue para todos os lados.
